Padres da geração Vaticano II ainda adotam modelo do Concílio, apesar de retrocessos

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24 Março 2012

Com a aproximação das bodas de ouro da abertura do Concílio Vaticano II no dia 11 de outubro de 1962, homens ordenados nos anos do Concílio predominantemente adotam "o espírito do Vaticano II" como uma fonte para suas vidas e ministério mesmo enquanto outros católicos depreciam esse "espírito".

A reportagem é de Dan Morris-Young, publicada no sítio National Catholic Reporter, 12-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao mesmo tempo, muitos desses "padres do Vaticano II" – como os pesquisadores os chamam – expressam preocupação de que as janelas icônicas da Igreja escancaradas pelo Concílio estão sendo fechadas e trancadas. Eles levantam inquietações sobre a liderança da Igreja, a apatia ecumênica, um colapso da colegialidade, o papel das mulheres, a reforma litúrgica e muito mais.

"Às vezes, eu penso que o Concílio Vaticano II é o segredo mais bem guardado da Igreja", disse o padre David Pettingill (foto), sacerdote aposentado da Arquidiocese de San Francisco, que ainda está ativo no trabalho de retiros e de cursos de ensino sobre o Concílio para ministros leigos.

"O que vejo é um esforço concertado para se afastar do Vaticano II juntamente com uma linha partidária, e essa linha partidária é que o Concílio simplesmente esteve em continuidade com o ensino da Igreja e que este simplesmente evoluiu", disse Pettingill, ex-pároco, professor de seminário e administrador de colégio de Ensino Médio que foi ordenado em 1962.

"No entanto, quando você assume essa abordagem, e ela pode até ser válida", acrescentou, "você também tem que fazer outra pergunta, se você quiser ser historicamente preciso: o que esse Concílio fez para a Igreja?"

"A menos que você queira dizer que foi uma perda de tempo, há algumas coisas que aconteceram lá que nunca haviam acontecido nos outros 20 concílios ecumênicos, e os documentos produzidos estão em uma forma literária diferente e são o consenso do maior número de bispos reunidos em assembleia de todo o mundo, e eles estavam dando um novo olhar para a Igreja porque João XXIII disse: 'Nós faremos um aggiornamento. Nós vamos atualizar a Igreja'".

"Então, eu acho essa linha partidária", disse Pettingill, "uma admissão real do fato de que estamos nos afastando" da renovação em curso. "Acho isso muito triste".

Muitos entrevistados apontaram para a tensão entre interpretar o Concílio como a inauguração de uma Igreja aberta e colegial contra vê-lo como "o fim de um processo, não o começo", nas palavras do padre jesuíta Thomas Reese (foto).

Ordenado em 1974, Reese entrou para os jesuítas no ano em que o Concílio foi aberto. "Estávamos trancados no seminário e dificilmente sabíamos o que estava acontecendo", brincou. "Nós não tínhamos acesso a jornais, TV ou revistas – ou ao The New Yorker, que, é claro, estava publicando os artigos de F. X. Murphy".

O padre redentorista Francis X. Murphy usava o pseudônimo Xavier Rynne para publicar reportagens sobre os bastidores dos trabalhos do Concílio.

"De alguma forma, eu fiquei sabendo do Concílio, e dois de nós fomos ao encontro do superior e pedimos permissão para ter cópias dos documentos do Vaticano II. Ele teve uma reunião com seus consultores para decidir se podíamos ou não ter as cópias. A decisão foi de que nós dois poderíamos tê-las porque havíamos pedido, mas elas não seriam disponibilizadas em geral aos outros seminaristas.

"Dentro de um mês, eles eram leitura obrigatória", brincou Reese novamente.

"Mesmo que tenha havido lutas e argumentações e brigas" durante o Concílio, disse Reese, "havia uma sensação de que a história estava do lado dos progressistas e de que estávamos indo para a frente, de que era algo praticamente imparável e que as coisas começariam a ficar melhores na Igreja ano após ano".

Reese disse: "Isso praticamente parou com o papado de João Paulo II", que via "os documentos do Vaticano II como algo que era importante, não o espírito".

Atualmente membro sênior do Woodstock Theological Center da Georgetown University, em Washington, Reese foi uma fonte de preocupação para o Vaticano durante seus sete anos como editor-chefe da revista semanal dos jesuítas America. Ele renunciou do cargo em 2005 depois de uma crítica curial à sua abertura a explorar temas sensíveis da Igreja, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e pesquisas com células-tronco à Comunhão por parte de políticos católicos que apoiavam o aborto legal.

Antes de se tornar papa, o cardeal Joseph Ratzinger, como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, e o Papa João Paulo II "deram a sua interpretação aos documentos (...) e geralmente ela era a interpretação conservadora e minoritária do Concílio", disse Reese.

"Hoje, o medo não é só que os freios foram acionados, mas também que a marcha à ré foi engatada. Vemos mudanças nas áreas da colegialidade, da liturgia e do ecumenismo, onde não podemos nem mais chamar as comunidades protestantes de Igrejas".

Hermenêuticas

Enquanto isso, os críticos do "espírito do Vaticano II" acusam que ele é usado como um carta curinga para abandonar a ortodoxia doutrinal.

Ratzinger, agora como Papa Bento XVI, apresenta o argumento de uma "hermenêutica da continuidade", que enfatiza a interpretação dos próprios documentos conciliares.

Especialistas católicos como Russell Shaw são explícitos: "Acho que o 'espírito do Vaticano II' é bastante bem-humorado e hipócrita. Os líderes da Igreja depois de Constantinopla adicionaram uma quarta pessoa à Trindade no 'espírito de Constantinopla'? Os concílios certamente têm tons e espíritos, mas estes se baseiam nos ensinamentos e decretos do próprio concílio, não nas ideias e práticas que o concílio especificamente se recusou a aprovar. Em outras palavras, penso que o argumento de que, como o Vaticano II fez mudanças na Igreja, então é lógico que o Concílio nos chama a fazer mudanças ainda mais radicais e inovadores é falso".

Tais postulações levam pessoas como o padre J. Severyn Westbrook (foto) a balançar a cabeça: "Se a Igreja é essencialista, sabemos tudo, e não há mais nada a ser conhecido, e todas as questões estão resolvidas. As pessoas precisam aprender o que é a verdade estabelecida. Está tudo acabado. Nós apenas precisamos realizá-la. E eu acho que essa é praticamente a visão reinante hoje".

Ordenado em 1962 na Diocese de Spokane, Washington, Westbrook continuou: "Em uma Igreja existencialista, você ouve e presta atenção em como o espírito está se movendo entre as pessoas, especialmente nas comunidades de fé. Você aprende com isso. A Igreja precisa ser um organismo vivo, que respira, que sente, que reza. Devemos ser um organismo ou devemos ser uma organização?".

Westbrook admite: "Às vezes, eu me sinto muito desanimado. É como se as pessoas responsáveis – a quem eu geralmente chamo de autoridades do templo – estão ganhando. Eles estão ganhando por atrito. E eles formaram cuidadosamente o que está por vir no futuro".

Ele lembrou de uma apresentação em 1982 sobre a necessidade de padres casados, que ele foi convidado a fazer para os bispos do noroeste do Pacífico. "Fiquei surpreso de que nenhum deles criou problemas", disse. "Alguns ficaram até entusiasmados. Houve um consenso virtual".

No entanto, "há muito tempo, tenho ficado perplexo pelo fato de que o assunto nunca abriu caminho na agenda da Conferência dos Bispos. Certamente, isso levanta a questão de até que ponto os bispos podem exercer a colegialidade ou mesmo se encarregar da sua própria agenda".

Um diálogo aberto e sincero "não é mais como era", denunciou Westbrook, pároco aposentado, estudioso e capelão universitário. "As posições foram determinadas, e eles estão autorizados a votar 'sim'. Está fechado. Devemos ser um monólito ou devemos ser como seres humanos que pensam e sentem? E isso significa que podemos discordar e talvez possamos chegar a um consenso. Mas precisamos ouvir uns aos outros".

"Eu não perdi a esperança e confio no Espírito Santo", acrescentou, "mas o jogo está sendo manipulado".

Líoderes servos

Westbrook, Reese e Pettingill são o que os sociólogos que estudam as tendências eclesiais definem como "padres do Vaticano II". Um grande estudo sobre os padres e seus ministérios, com lançamento previsto para abril, define o termo como homens nascidos entre 1943 e 1960.

Encomendada pela National Federation of Priests' Councils e realizada pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado (CARA), com sede em Georgetown, a pesquisa afirma que os padres formados nas imediações do Vaticano II tendem a ver o sacerdócio, o ministério e a Igreja de forma diferente em muitos aspectos do que homens mais velhos e mais jovens.

Dentre outras coisas, esses padres do Vaticano II se veem mais como "líderes servos" dentro da comunidade do que como "homens postos à parte" como se viam os "padres pré-Vaticano II" e, mais recentemente, os "padres pós-Vaticano II" e os "padres do milênio".

Os padres do Vaticano II são mais propensos a apoiar o princípio de se consultar com líderes leigos e suas congregações.

Intitulado Same Call, Different Men: The Evolution of the Priesthood since Vatican II [Um mesmo chamado, homens diferentes: A Evolução do sacerdócio desde o Vaticano II], o novo estudo também relata que homens ordenados mais recentemente tendem a enfatizar a ortodoxia da Igreja e se consideram mais felizes no ministério do que os padres do Vaticano II. Eles também sentem o apoio episcopal e papal mais fortemente do que os homens do Vaticano II.

Em um apaixonado artigo de dezembro de 2010 intitulado "Reflexões sobre um aniversário de Bodas de Ouro Sacerdotais", um renomado padre australiano, Eric Hodgens, declarou: "Nós assumimos o Vaticano II no coração. Mudamos de padres chamados e consagrados por Deus para presbíteros chamados e ordenados pela Igreja – o Povo de Deus".

"Nós somos os padres da Gaudium et Spes", escreveu Hodgens, aludindo à constituição pastoral do Concílio sobre a Igreja no mundo moderno, que fornece um quadro teológico chamando a Igreja a se envolver mundialmente em questões que vão da justiça social e da tecnologia à economia e ao ecumenismo.

Padre da Arquidiocese de Melbourne, Hodgens criticou o que ele vê como preocupantes tendências pós-Vaticano II no ecumenismo, na timidez e condescendência episcopais, na falta de discernimento científico das lideranças eclesiais, em conhecimentos teológicos e bíblicos restritos, na regressão litúrgica mal concebida, na falta de colegialidade, transparência e discussão aberta, e em costumes sexuais, que "estão sendo promovidas para a prateleira superior" das atenções da Igreja.

"As decisões discordantes têm vindo do papa para baixo", escreveu Hodgens. "O celibato sacerdotal, apesar de ser altamente controverso, foi reafirmado por Paulo VI em 1967, sem discussão. Em 1968, a Humanae Vitae foi uma decepção chocante. A maioria de nós nunca a aceitou. Paulo VI começou a nomear bispos opostos ao ethos do Concílio. (...) Toda a tendência foi desmoralizadora".

No entanto, Hodgens também enfatizou o que o estudo do CARA constatou e que as entrevistas do NCR confirmaram: os padres do Vaticano II estão geralmente muito satisfeitos com suas vidas e ministérios, mesmo que não no mesmo nível dos grupos mais velhos e mais jovens.

Hodgens chama o fenômeno de "ser feliz em seu próprio quadrado".

Ordenado em 1969, o padre Gary Lombardi (foto) está feliz em seu "quadrado", na Paróquia São Vicente de Paulo, em Petaluma, Califórnia, mas ele claramente poderia estar mais feliz com o futuro da Igreja.

"De muitas formas, as coisas reverteram ao modelo autoritário, hierárquico e institucional. As coisas vêm muito mais de cima para baixo", explicou. "Tudo parece vir de Roma. Os bispos são nomeados sem muitas consultas com os bispos da região. Há uma espécie de ênfase na ortodoxia e na fidelidade, e no magistério e na lealdade ao Santo Padre, que é a mesma de antes do Concílio".

Houve um retorno à "rigidez" e uma ênfase sobre "pessoas que se enquadram à Igreja, ao invés de a Igreja ministrar às pessoas", disse Lombardi, que chefiou o escritório de educação do clero da Diocese de Santa Rosa por 16 anos. "Às vezes, vejo pessoas boas sofrendo por causa dessa rigidez".

Lombardi lembra ter se debatido nos últimos anos de sua formação no seminário com o fato de "se eu iria servir a Igreja ou se eu iria servir o povo".

"Então, isso me surpreendeu", disse. "A Igreja é o povo de Deus. O Vaticano II fez isso".

Embora dizendo que a Igreja "certamente precisa de uma autoridade de governo", Lombardi destacou que o Vaticano II enfatizou uma Igreja "em contato com as vidas das pessoas" e aberta à "colegialidade e à consulta nas questões da vida e do ensino da Igreja".

"Essa era uma dinâmica fundamental e operativa no Concílio", disse. Isso levou a "uma espécie de maior conforto", em que os pastores como ele podiam "olhar diretamente para as vidas das pessoas" e "ajudar o ensino da Igreja a fazer sentido para elas".

A geração Gaudium et Spes realmente vê mudanças na perspectiva pastoral. Lombardi afirma sinteticamente: "Parece haver um crescente clericalismo por parte do clero mais jovem".

E também com o encorajamento oficial da Igreja, apontou Pettingill. "Parece-me que, em certos documentos, o padre está gradualmente sendo exaltado acima das pessoas a quem ele vai servir – coisas como: só os ordenados são autorizados a limpar os utensílios sagrados, a ênfase no sacerdócio ao ponto de um homem quase ser posto em um pedestal. E isso é perigoso tanto para o sacerdote quanto para o povo, porque somos todos humanos, e é essa humanidade que nos torna capazes de lidar uns com os outros".

Padres versus leigos?

Outros, incluindo o padre Norbert Dlabal (foto), concordam. "A nova geração de padres realmente parece querer manter uma distinção entre o sacerdócio e o laicato", disse Dlabal, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Goodland, Kansas

O novo estudo do CARA ecoa a sua opinião. Os sacerdotes ordenados mais recentemente "sentem fortemente que (...) há uma clara distinção entre eles e os leigos", escrevem os autores.

Segundo a pesquisa de 2009-2010, mais de dois terços dos padres do milênio – ordenados depois da metade do papado de João Paulo II de 1978 a 2005 – concordam "fortemente" com a afirmação: "A ordenação confere ao sacerdote um novo status ou um caráter permanente que lhe torna essencialmente diferentes dos leigos dentro da Igreja", em comparação com os 48% dos padres pré e pós-Vaticano II e dos 36% dos padres do Vaticano II.

Embora Dlabal, ex-diretor vocacional da Diocese de Salina, Kansas, e missionário no Peru por cinco anos, diga que tenta "fazer luz de tudo isso", ele questionou os católicos "impressionados pelas aparências" que concedem "nobreza" a "qualquer clérigo comprometido com se vestir de preto".

"Autenticidade? O que é isso?", perguntou Dlabal, que foi ordenado em 1972. "Maturidade, generosidade, sabedoria, bondade, abnegação, paciência, responsabilidade pessoal, longanimidade, amizade, respeito e amor? O que são essas coisas? Apenas vista uma batina com um colarinho romano e você é um servo fiel, leal, dócil, confiável. Vista uma camisa de outra cor e você é suspeito. Deixe a batina velha no armário e vista uma camisa colorida e você é um traidor".

Ele também observou que "os padres mais jovens realmente não sentem a necessidade de colaborar tão proximamente. Há uma espécie de ideia geral de que eles são os líderes da paróquia e todos os outros podem dançar a sua música".

Evitar o modelo de sacerdócio "líder servo" do Vaticano II em favor de um mais autoritário vai contra tanto o espírito do Vaticano II quanto o Catecismo da Igreja Católica, denuncia o Mons. Ralph Kuehner em reflexões recentes sobre os seus 60 anos de sacerdócio.

O catecismo, disse, "dirige os padres ministeriais para servir o sacerdócio dos leigos: enquanto o sacerdócio comum dos fiéis é exercido no desdobramento da graça batismal (...) o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum".

Kuehner, um renomado ativista da justiça social da Arquidiocese de Washington, disse temer que "muitos aspectos da nossa Igreja reflitam um monarca ao invés de um servo". Ele contou a história de sua sobrinha de três anos de idade que, quando perguntada sobre uma missa celebrada por um bispo, ela disse ter visto "um rei com um bastão amarelo".

Novas questões

O sacerdote apresentou uma "visão pessoal pelo futuro da Igreja", defendendo o encorajamento do serviço da Igreja por "padres que deixaram o ministério para se casar" e a expansão da ordenação presbiteral para homens casados e mulheres.

Outros padres do Vaticano II também apoiam esse chamado para discutir abertamente o papel das mulheres na Igreja, assim como outras questões, dos católicos gays e lésbicas à ciência da fertilidade.

"Simplesmente dizer que nós não discutimos essas coisas" não funciona, disse Westbrook.

Reese disse: "A Igreja simplesmente não conseguiu descobrir como lidar com um laicato instruído. Ela ainda pensa que tudo o que ela tem a fazer é que os bispos e o Vaticano ajam como pais de filhos adolescentes. Eles pensam que, se eles apenas gritarem um pouco mais alto, as crianças vão se comportar. Eles dizem coisas equivalentes a 'não na minha casa' ou 'você não vai, e deu'. Qualquer pessoa com filhos adolescentes sabe o quanto essa estratégia é bem sucedida".

Ele disse: "O que a Igreja precisa desenvolver é um novo estilo de ensinar o Evangelho que seja compreensível para as pessoas do século XXI. Você não pode simplesmente repetir fórmulas do século XIII".

Pettingill se esforça por isso em suas aulas para católicos leigos que se preparam para o ministério paroquial. "Eu vou fazer tudo o que posso para tornar conhecidas as riquezas do Vaticano II. Supõe-se que a teologia deve ser criativa", disse ele ao NCR. "Por exemplo, no Novo Testamento, cada um dos autores dos Evangelhos reconta e readapta a sua mensagem, cada um com ênfases diferentes, para ir ao encontro das necessidades dos seus ouvintes".

Geralmente, comentou, a "teologia agora parece ser uma exegese dos documentos papais. Gostaria de saber onde está a criatividade. Se não a tivermos, não crescemos".

Westbrook disse ver uma deserção institucional do diálogo. "Eu tive padres que realmente me disseram que a colegialidade deve ser suprimida", afirmou.

"Há pessoas como eu que ainda estão tentando viver no espírito da Gaudium et Spes", disse, "e há pessoas que estão tentando pôr um fim nisso. Do seu ponto de vista, a Igreja estava em uma grande forma e, por razões desconhecidas, até mesmo lunáticas, João XXIII virou tudo de cabeça para baixo. Um certo grupo sente que o velho deve ser restaurado. Sem dúvida. Sem hesitação. A autoridade vai cuidar de tudo".

Um exemplo de uso inadequado da autoridade que veio à tona como um incômodo frequente para os padres do Vaticano II é o desenvolvimento e a implementação da nova tradução inglesa do Missal Romano.

Dlabal vê a tradução como um "exemplo de transformar uma questão em uma não questão por algum outro propósito" – e esse propósito é "deixar que a Igreja saiba quem está no comando" e vaporizar a tradução que vem se desenvolvendo desde o Concílio Vaticano II.

Pettingill, que dava aulas de inglês no Ensino Médio como jovem sacerdote, assinalou: "Ninguém perguntou ao povo de Deus se ele gostaria de ter uma nova tradução inglesa. Em segundo lugar, ou talvez isso seja mais uma suspeita, os bispos locais não foram consultados, no sentido de serem questionados se eles sentiam que isso era apropriado nesse momento particular. Em terceiro lugar, se você tem qualquer relação com o ensino do inglês, você percebe que a tradução não é o inglesa. É um inglês latinizado, que é pesado, desajeitado e muito difícil de proclamar".

Desprezo pelo diálogo e menosprezo pela consulta repetidamente atraem a ira dos homens formados e ordenados dentro da curta sombra do Concílio Vaticano II. Durante o Concílio, dizem, a fórmula operacional para buscar a verdade era que o papa trabalhasse em conjunto com o colégio dos bispos.

Eles concordariam com um jovem teólogo consultor do Concílio que escreveu em 1963: "A formulação das leis litúrgicas para as suas próprias regiões é agora, dentro de certos limites, a responsabilidade das várias conferências episcopais. E isso não por delegação da Santa Sé, mas sim em virtude da sua própria autoridade independente".

De acordo com o biógrafo John L. Allen Jr., esse teólogo, o padre Joseph Ratzinger e futuro Papa Bento XVI, também escreveria durante os dias do Concílio: "Para muitas pessoas, hoje, a Igreja se tornou o principal obstáculo para a crença. Eles só conseguem ver nela a luta humana por poder, o espetáculo mesquinho daqueles que, com a sua pretensão de administrar o cristianismo oficial, parecem estar mais no caminho do verdadeiro espírito do cristianismo".

E esse verdadeiro espírito do cristianismo, dirão os padres do Vaticano II, era – e é – brilhantemente iluminado pelo "espírito do Vaticano II".

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