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19 Janeiro 2016

"O passado nos deve servir de lição para o presente e para o futuro. A Shoah nos ensina que se necessita sempre a máxima vigilância para poder intervir oportunamente em defesa da dignidade humana e da paz". Papa Francisco conclui seu discurso na Sinagoga de Roma, com uma memória das vítimas e sobreviventes do extermínio nazista. É o terceiro papa a entrar no Grande Templo da capital italiana, a cidade da qual é bispo.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 17-01-2016.. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

Bergoglio chegou, no domingo, dez minutos antes, sem comitiva ou acompanhantes, no Ford Focus azul de sempre. Foi recebido pela presidente da Comunidade hebraica romana, Ruth Dureghello, pelo presidente da União das Comunidades hebraicas Italianas (Ucei), Renzo Cattegna, e pelo presidente da Fundação do Museu da Shoah, Mario Venezia. Francisco deixou uma grande cesta com flores brancas sobre a lápide que recorda a deportação dos judeus romanos em 1943. Em seguida, ele andou na Via Catalana e repetiu a homenagem em frente à lápide que recorda a Stefano Gaj Taché, a criança assassinada durante o ataque terrorista de 1982. Ele permaneceu um momento com os familiares do menino assassinado.

Poucos minutos depois, ele abraçou o rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, e entrou na Sinagoga. Por quase meia hora, sem qualquer pressa, Francisco percorreu todo o templo, apertando as mãos e abraçando os presentes, destacando assim o mais característico desta terceira visita: a cordialidade e a amizade.

A presidente da Comunidade hebraica romana Ruth Durighello não escondeu sua emoção: "hoje escrevemos uma vez mais a história". Ela lembrou das palavras de Francisco contra o antissemitismo e contra os que negam a Israel o direito de existir. Ela advertiu que "a paz não se conquista semeando o terror com facas na mão, não se conquista derramando sangue nas ruas de Jerusalém, de Tel Aviv, de Ytamar, Beth Shemesh e de Sderot... Todos nós devemos dizer ao terrorismo que se detenha. Não só o terrorismo em Madrid, Londres, Bruxelas e em Paris, mas também esse que atinge todos os dias a Israel. O terrorismo nunca pode ser justificado".

A Presidente também lembrou que o terrorismo islâmico já atacou Roma, pois em 1982 matou o pequeno Stefano Gaj Taché. Disse que não é possível permanecer indiferente ao derramamento de sangue. Ela concluiu, expressando a certeza de que "A fé não gera ódio, a fé não derrama o sangue, a fé pede diálogo" e "esta consciência, que não pertença exclusivamente a nossas religiões, que possa ser encontrada também a colaboração do Islã".

Em seguida, o Rabino Di Segni explicou que na "tradição jurídica rabínica, um ato repetido três vezes torna-se hábito 'chazaqà', costume fixo. É decididamente sinal concreto de uma nova era". Um evento "cujo alcance irradia em todo o mundo com uma mensagem benéfica".

Também lembrou o Jubileu na traição hebraica, indicando que não passou desapercebido o momento inicial em que, ao abrir a Porta Santa, foi recitada a fórmula litúrgica "abram as portas da justiça": "para o hebreu que escuta, é algo conhecido e familiar, é uma citação dos Salmos" que "citamos na nossa liturgia festiva". Um sinal de como "os caminhos divididos e tão diferentes dos dois mundos religiosos compartilham como sendo uma parte do patrimônio comum que ambos consideram sagrado".

Todos nos "esperamos - disse o Rabino - um momento quem sabe o quão longe na história em que as divisões se resolverão". "Aclamamos ao Papa - concluiu - para insistir em que as diferenças religiosas, que devem ser mantidas e respeitadas, não devem ser justificativa para o ódio e a violência, mas que deve existir, pelo contrário, amizade e cooperação, e que as experiências, os valores, as tradições, as grandes ideias que nos identificam devem estar a serviço da coletividade".

Ao tomar a palavra, o Papa agradeceu em hebraico, "Todá rabbá", pela recepção calorosa. Bergoglio lembrou que "já em Buenos Aires costumava ir às sinagogas e encontrar as comunidades ali reunidas, seguir de perto os festivais e comemorações hebraicas". A "ligação espiritual" que "favoreceu o nascimento de amizades genuínas e também inspirou um diálogo comum". Bergoglio citou o "vínculo único e distinto" entre judeus e cristãos, que "devem sentir-se irmãos, unidos pelo mesmo Deus e por um rico patrimônio espiritual em comum".

Francisco retomou a expressão criada por João Paulo II para os judeus: "Irmãos mais velhos". "De fato - ele disse - vocês são nossos irmãos e irmãs mais velhos na fé. Todos nós pertencemos a uma única família, a família de Deus, que acompanha e protege-nos como seu povo".

Juntos, como judeus  e como católicos, somos chamados a assumir as nossas responsabilidades para esta cidade, oferecendo nosso apoio, principalmente espiritual, e favorecendo a resolução dos diversos problemas atuais". Citando o documento conciliar "Nostra aetate", o Papa insistiu no "não" para "qualquer forma de antisemitismo" e condenou "qualquer injúria, discriminação e perseguição que dela derivam".

Também recordou a importância do trabalho de aprofundamento teológico: "Os cristãos, para compreenderem a si mesmos, não podem deixar de se referir às raízes hebraicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação pela fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel".

O Papa convidou a não "perder de vista os grandes desafios que o mundo hoje deve enfrentar. É o de uma ecologia integral já é uma prioridade, e como cristãos e judeus podemos e devemos oferecer à humanidade a mensagem da Bíblia sobre o cuidado da criação. Conflitos, guerras, violências e injustiças abrem profundas feridas na humanidade e chamam-nos a fortalecer o compromisso com a paz e a justiça".

"A violência do homem contra o homem - lembrou Francisco - está em contradição com qualquer religião digna desse nome, e em particular com as três grandes religiões monoteístas. Cada ser humano, como uma criatura de Deus, é nosso irmão, independentemente da sua origem ou religião". E "ali onde a vida está em perigo, somos chamados para protegê-la ainda mais. Nem a violência nem a morte nunca terão a última palavra diante de Deus, que é o Deus do amor e da vida. Devemos pedir insistentemente a Ele para nos ajudar a praticar na Europa, na Terra Santa, no Oriente Médio, na África e em cada parte do mundo a lógica da paz, da reconciliação, do perdão e da vida".

Para concluir, Bergoglio recordou o extermínio dos judeus: "Seis milhões de pessoas, só porque eles pertenciam ao povo judeu, foram vítimas da mais desumana barbaridade, cometida em nome de uma ideologia que pretendia substituir o homem no lugar de Deus. Em 16 de outubro de 1943, mais de mil homens, mulheres e crianças da comunidade judia de Roma foram deportados para Auschwitz. Hoje eu quero lembrar deles de modo particular: seus sofrimentos, suas angustias, suas lágrimas que jamais devem ser esquecidas. E o passado deve-nos servir de lição para o presente e para o futuro. O Holocausto ensina-nos que é necessária sempre a máxima vigilância para poder intervir oportunamente em defesa da dignidade humana e da paz. Eu gostaria de expressar minha proximidade a cada testemunha do Shoah ainda vivo, e dirijo a minha saudação especial a todos os (sobreviventes) que estão presentes aqui hoje. Shalom alechem!".

O Papa na Sinagoga: "De inimigos e estranhos a amigos e irmãos"


"O passado nos deve servir de lição para o presente e para o futuro. O Shoah nos ensina que se necessita sempre a máxima vigilância para poder intervir oportunamente em defesa da dignidade humana e da paz". Papa Francisco conclui seu discurso na Sinagoga de Roma, com uma memória das vítimas e sobreviventes do extermínio nazista. É o terceiro papa a entrar no Grande Templo da capital italiana, a cidade da qual é bispo.

 

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

 

Bergoglio chegou dez minutos antes, sem comitiva ou acompanhantes, no Ford Focus azul de sempre. Foi recebido pela presidente da Comunidade hebraica romana, Ruth Dureghello, pelo presidente da União das Comunidades hebraicas Italianas (Ucei), Renzo Cattegna, e pelo presidente da Fundação do Museu de Shoah, Mario Venezia. Francisco deixou uma grande cesta com flores brancas sobre a lápide que recorda a deportação dos judeus romanos em 1943. Em seguida, ele andou na Via Catalana e repetiu a homenagem em frente à lápide que recorda a Stefano Gaj Taché, a criança assassinada durante o ataque terrorista de 1982, e ele permaneceu um momento com suas famílias.

 

Poucos minutos depois, ele abraçou o rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, e entrou na Sinagoga. Por quase meia hora, sem qualquer pressa, Francisco percorreu todo o templo, apertando as mãos e abraçando os presentes, destacando assim o mais característico desta terceira visita: a cordialidade e amizade.

 

A presidente da Comunidade hebraica romana Ruth Durighello não escondeu sua emoção: "hoje escrevemos uma vez mais a história". Ela lembrou das palavras de Francisco contra o antissemitismo e contra os que negam a Israel o direito de existir. Ela advertiu que "a paz não se conquista semeando o terror com facas na mão, não se conquista derramando sangue nas ruas de Jerusalém, de Tel Aviv, de Ytamar, Beth Shemesh e de Sderot... Todos nós devemos dizer ao terrorismo que se detenha. Não só o terrorismo em Madrid, Londres, Bruxelas e em Paris, mas também esse que atinge todos os dias a Israel. O terrorismo nunca pode ser justificado". A Presidente também lembrou que o terrorismo islâmico já atacou Roma, pois em 1982 matou o pequeno Stefano Gaj Taché. Disse que não é possível permanecer indiferente ao derramamento de sangue. Ela concluiu, expressando a certeza de que "A fé não gera ódio, a fé não derrama o sangue, a fé pede diálogo" e "esta consciência, que não pertença exclusivamente a nossas religiões, que possa ser encontrada também a colaboração do Islã".

 

Em seguida, o Rabino Di Segni explicou que na "tradição jurídica rabínica, um ato repetido três vezes torna-se hábito 'chazaqà', costume fixo. É decididamente sinal concreto de uma nova era". Um evento "cujo alcance irradia em todo o mundo com uma mensagem benéfica". Também lembrou o Jubileu na traição hebraica, indicando que não passou desapercebido o momento inicial em que, ao abrir a Porta Santa, foi recitada a fórmula litúrgica "abram as portas da justiça": "para o hebreu que escuta, é algo conhecido e familiar, é uma citação dos Salmos" que "citamos na nossa liturgia festiva". Um sinal de como "os caminhos divididos e tão diferentes dos dois mundos religiosos compartilham como sendo uma parte do patrimônio comum que ambos consideram sagrado". Todos nos "esperamos - disse o Rabino - um momento quem sabe o quão longe na história em que as divisões se resolverão". "Aclamamos ao Papa - concluiu - para insistir em que as diferenças religiosas, que devem ser mantidas e respeitadas, não devem ser justificativa para o ódio e a violência, mas que deve existir, pelo contrário, amizade e cooperação, e que as experiências, os valores, as tradições, as grandes ideias que nos identificam devem estar a serviço da coletividade".


Ao tomar a palavra, o Papa agradeceu em hebraico, "Todá rabbá", pela recepção calorosa. Bergoglio lembrou que "já em Buenos Aires costumava ir às sinagogas e encontrar as comunidades ali reunidas, seguir de perto os festivais e comemorações hebraicas". A "ligação espiritual" que "favoreceu o nascimento de amizades genuínas e também inspirou um diálogo comum". Bergoglio citou o "vínculo único e distinto" entre judeus e cristãos, que "devem sentir-se irmãos, unidos pelo mesmo Deus e por um rico patrimônio espiritual em comum".


Francisco retomou a expressão criada por João Paulo II para os judeus: "Irmãos mais velhos". "De fato - ele disse - vocês são nossos irmãos e irmãs mais velhos na fé. Todos nós pertencemos a uma única família, a família de Deus, que acompanha e protege-nos como seu povo".

 

Juntos, como judeus  e como católicos, somos chamados a assumir as nossas responsabilidades para esta cidade, oferecendo nosso apoio, principalmente espiritual, e favorecendo a resolução dos diversos problemas atuais". Citando o documento conciliar "Nostra aetate", o Papa insistiu no "não" para "qualquer forma de antisemitismo" e condenou "qualquer injúria, discriminação e perseguição que dela derivam". Também recordou a importância do trabalho de aprofundamento teológico: "Os cristãos, para compreenderem a si mesmos, não podem deixar de se referir às raízes hebraicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação pela fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel".


O Papa convidou a não "perder de vista os grandes desafios que o mundo hoje deve enfrentar. É o de uma ecologia integral já é uma prioridade, e como cristãos e judeus podemos e devemos oferecer à humanidade a mensagem da Bíblia sobre o cuidado da criação. Conflitos, guerras, violências e injustiças abrem profundas feridas na humanidade e chamam-nos a fortalecer o compromisso com a paz e a justiça".

 

"A violência do homem contra o homem - lembrou Francisco - está em contradição com qualquer religião digna desse nome, e em particular com as três grandes religiões monoteístas. Cada ser humano, como uma criatura de Deus, é nosso irmão, independentemente da sua origem ou religião". E "ali onde a vida está em perigo, somos chamados para protegê-la ainda mais. Nem a violência nem a morte nunca terão a última palavra diante de Deus, que é o Deus do amor e da vida. Devemos pedir insistentemente a Ele para nos ajudar a praticar na Europa, na Terra Santa, no Oriente Médio, na África e em cada parte do mundo a lógica da paz, da reconciliação, do perdão e da vida".

 

Para concluir, Bergoglio recordou o extermínio dos judeus: "Seis milhões de pessoas, só porque eles pertenciam ao povo judeu, foram vítimas da mais desumana barbaridade, cometida em nome de uma ideologia que pretendia substituir o homem no lugar de Deus. Em 16 de outubro de 1943, mais de mil homens, mulheres e crianças da comunidade judia de Roma foram deportados para Auschwitz. Hoje eu quero lembrar deles de modo particular: seus sofrimentos, suas angustias, suas lágrimas que jamais devem ser esquecidas. E o passado deve-nos servir de lição para o presente e para o futuro. O Holocausto ensina-nos que é necessária sempre a máxima vigilância para poder intervir oportunamente em defesa da dignidade humana e da paz. Eu gostaria de expressar minha proximidade a cada testemunha do Shoah ainda vivo, e dirijo a minha saudação especial a todos os que estão presentes aqui hoje. Shalom alechem!".

 

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