Esta não é a Shoah, mas o Mal pode voltar

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09 Setembro 2015

“Numerosos escritos nos braços dos migrantes, idosos e jovens, homens, mulheres e crianças? Devo realmente dizê-lo – com todas as diferenças históricas entre eles, quando sobreviventes e hoje – que memórias estas notícias-choque de Praga evocam no meu ânimo?” O professor Elie Wiesel, um dos máximos intelectuais da comunidade hebraica mundial, prêmio Nobel da Paz, responde perturbado e, no entanto simultaneamente frio e lúcido na análise.

O Professor Wiesel, como sabe a polícia checa, começou a escrever números de identificação e registro nos braços de migrantes que de trem ou de outra forma passam para o território cego dirigindo-se à Alemanha ou Áustria. O que diz sobre isso? “Realmente sucede isto? Está gracejando? Deus, a minha primeira reação é o choque absoluto, quase citando o Papa Wojtyla, que definiu o nazismo e a Shoah como o Mal absoluto. Entenda-me bem, a Shoah não é comparável a nenhum outro crime na história da humanidade”. 

Mas, tomando conhecimento daquelas notícias de Praga, confirmadas por Mlada Fronta [autorizado cotidiano checo, ndr], me pergunto: mas por que jamais o fazem? E por que jamais o fazem ainda precisamente na Europa? ”Insisto, como se sente ante as novas ondas de hostilidade e ódio contra os migrantes, no Leste e alhures? Os mais obscuros e antigos da Europa voltam vivos? “Quero precisamente esperar que não. E acrescento, estejamos atentos: não comparemos a Shoah a outros horrores, embora chocantes. Mas todos deveriam recordar aquela expressão de Wojtyla, “mal absoluto”, também para evitar que aconteça todo mal menor. E todos os europeus e os outros cidadãos do mundo globalizado deveriam recordar sempre que somos e temos sido todos estrangeiros quase sempre, há séculos. Eu me sinto por toda vida como estrangeiro eterno enquanto hebreu, e aprendi a sentir-me bem. Porque no exterior nós, da intelligentsia hebraica – mas há séculos a pensam e a tem pensado assim como milhões e milhões de cidadãos europeus – o estrangeiro é alguém que te enriquece porque te traz outra cultura, uma visão a mais. As sociedades mais abertas aos estrangeiros e sua integração são frequentissimamente aquelas que nos ganham a mais, adquirindo mais cultura e mais talentos. Tais êxitos não se conseguem escrevendo números nos braços dos migrantes”. 

Entrevista é de Andrea Tarquini, publicada por La Repubblica, 03-09-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista. 

A Europa, uma vez mais, tem medo dos migrantes econômicos, os Estados Unidos não. Por quê?

Os EUA sempre souberam cresce como nação de estrangeiros que aprendem lentamente a crescer juntos como nós, o povo. Os europeus deveriam saber, como Angela Merkel e as estatísticas ONU recordam, que o mais numeroso grupo de migrantes são sírios. Fogem da guerra, das perseguições da ditadura, do terrorismo do Estado Islâmico e são pessoas muito qualificadas.

Quanto teme pelo futuro da Europa?

Esta nossa conversação me faz tomar uma decisão: nos próximos dias ou semanas me dirigirei à Hungria e outros lugares na Europa, para fazer-me honesta e diretamente uma ideia da situação e falar claro a respeito. E, para narrar como cresci como fugitivo e como estrangeiro: escapado dos Later nazistas, acolhido na França com outras crianças hebreias, tive da França as chaves de uma cultura aberta. Exemplos de mão estendida de então deveriam não ser esquecidos, diversamente do que números sobre os braços.

Mas, na França o partido hoje em voo é o Front National...

Eu sei, me preocupa, no entanto continuo confiando no país do Iluminismo, onde o sobrevivente da Shoah descobriu como criança e como jovem a cultura multiétnica do mundo. Sua razoabilidade futura será vital.

No Leste, quanto é alarmante o novo racismo? Antes contra hebreus, depois contra Roma, depois contra migrantes...

É muito alarmante. Na Hungria, nos países Bálticos, na România, ou alhures, é preciso fazer clareza com o grave peso da História e entender que integrar os estrangeiros é nacionalizá-los, não timbrá-los. E depois, considero chocante que Orban reabilite Horthy, ideador das primeiras leis raciais e cúmplice do Holocausto. Imagine Merkel reabilitando alguém que não quer nomear? E que serviços jamais teria prestado o antissemita Horthy ao seu país e ao mundo? Repito, quero voar àquelas terras o quanto antes, para procurar entender melhor o que está na cabeça dos políticos e do povo e dizer de modo claro e forte como o penso, em nome da humanidade. Dizer, por exemplo, que cada um deve repensar e não remover da Memória o papel de cada país na Segunda Guerra mundial.

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