O rabino e o não crente. O Deus dos judeus é um Deus de misericórdia. Artigo de Riccardo Di Segni

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12 Março 2014

A oposição entre justiça e amor, em que o Papa Francisco representa o amor, torna-se o sinal da revolução cristã permanente. Contra quem? Simples, contra o Deus dos judeus, do Antigo Testamento, aquele severo e vingativo.

A opinião é do rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 07-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Acontece cada vez mais frequentemente de encontrar delegações judaicas de todo o mundo que vão a Roma para encontrar o papa. Há uma tal presença de visitantes judeus no Vaticano que algumas vezes eu penso ironicamente que seria preciso abrir uma sinagoga ali. Esse também é um sinal do novo clima criado por Francisco. Não que primeiro não houvesse visitas e diálogos com os judeus; mas agora se acrescentam outros dados: a experiência pessoal de Bergoglio como amigo e colaborador de alguns rabinos argentinos, o seu caráter e uma abordagem doutrinal que parece mais aberta. Ainda é cedo para dizer aonde isso levará, mas há, da parte judaica, otimismo no plano teológico, enquanto no político (as relações com Israel) está tudo em aberto.

Em geral, as aberturas de Francisco, a mensagem pastoral e humana, a carga pessoal de simpatia e modéstia, a vontade reformadora de estruturas consideradas envelhecidas suscitaram aprovação até mesmo entusiástica no mundo dos fiéis católicos e fora dele. As igrejas se enchem, e os chamados "não crentes" observam admirados. Para um observador externo, como um judeu, seria inoportuno comentar esses fatos ocupando-se de assuntos internos da Igreja, senão no que diz respeito às suas relações com o judaísmo; mas a revolução de Francisco não se limita ao seu mundo, propõe questões universais que investem sobre outras realidades e, por isso, merece atenção.

Um exemplo importante desse impacto é o diálogo que se desenvolveu nas páginas do jornal La Repubblica entre o papa e Eugenio Scalfari, ao qual foram dedicados repetidos e longos artigos. Scalfari está fascinado com a disponibilidade dialógica de Francisco, expõe e comenta as suas posições, que considera excepcionais e inovadoras, em particular sobre o tema do pecado. Para quem lê de fora essa discussão, à parte das perplexidades sobre uma correta interpretação – expressadas também por porta-vozes vaticanos – continua havendo dúvidas sobre a essência do problema.

Com relação à imagem proposta de uma Igreja pobre, à vontade do papa de luta contra a corrupção, ao seu apelo à honestidade não há dúvidas. Mas o que há de substância na sua abertura ao tema do pecado? Porque, para dar exemplos, uma coisa é dizer que há acolhida para os divorciados, outra é reconhecer o divórcio; uma coisa é exaltar o papel da mulher, outra admiti-la ao sacerdócio; uma coisa é ser compreensivo diante da homossexualidade, outra é reconhecer legalmente as uniões.

São problemas do mundo católico, mas o mundo judaico também tem os seus análogos problemas conflituais com as durezas do sistema. Certamente, a abordagem compreensiva e a atitude de abertura diminuem as tensões e purificam a atmosfera, mas não resolvem os problemas doutrinais na raiz. A tradição judaica fornece um esquema interpretativo forte e sedutor para esse tipo de tensões. Começando pelo plano divino, admite-se que existem duas qualidades ou atributos contrapostos: de um lado, a justiça, a severidade e o rigor; de outro, o amor e a misericórdia.

O primeiro projeto criativo do mundo, dizem os rabinos, estava baseado na justiça, mas, vendo que o mundo não poderia resistir, o Criador optou pelo plano "B", o da misericórdia unida à justiça. Para os seres humanos, para as suas estruturas organizativas, para os seus líderes, vale a mesma contraposição. Com uma consciência precisa: que nenhuma das duas qualidades se sustenta sozinha, não há justiça sem misericórdia, não há misericórdia sem justiça.

Olhando para as vicissitudes vaticanas recentes e para o seu impacto universal, vem a tentação de aplicar essas duas categorias aos dois pontífices coexistentes. O primeiro parece ter encarnado a alma doutrinal, e o segundo, a do amor. Mas se trata de uma leitura superficial e arriscada, injusta e limitadora para os dois protagonistas. O fato é que, no fenômeno religioso, assim como ele é vivido na nossa época, as grandes massas buscam, acima de tudo, acolhida, inclusão, proteção e compreensão, enquanto a fé e a doutrina vêm depois.

A personalidade de Francisco responde à demanda e chama novamente as multidões, mas seria enganoso pensar que, por trás do seu amor, não há a justiça e a doutrina. É por isso que os entusiasmos de crentes e "não crentes" deveriam ser um pouco acalmados. Aliás, seria melhor evitar a expressão "não crentes" sem especificar em que não se crê; senão, o parâmetro da fé se torna a verdade católica, e quem não a aceita é inserido em um limbo cinzento, quaisquer que sejam as suas convicções filosóficas ou religiosas.

Nessa oposição de símbolos ou sistemas e na representação idealizada e esquematizada do novo curso, quem pagou a conta, de algum modo, foi o judaísmo. Porque a oposição entre justiça e amor, em que Francisco representa o amor, remetendo-se à mensagem original de Jesus contra as incrustações doutrinais e de aparato, torna-se o sinal da revolução cristã permanente. Contra quem? Simples, contra o Deus dos judeus, do Antigo Testamento, aquele severo e vingativo.

Nenhum teólogo sério dos nossos dias – começando pelos dois papas de hoje – levariam a sério essa antiga oposição, que foi uma das bandeiras do antijudaísmo cristão por séculos. Essa doutrina tem um nome preciso, marcionismo, do herege Marcião, que fez dela um dos pilares do seu ensinamento. Marcião foi condenado pela Igreja, mas a oposição por ele dramatizada entre duas divindades foi acolhida e transmitida pela Igreja, que só há poucas décadas se separou dela oficialmente, reconhecendo-a não só como erro, mas também como instrumento ilícito de pregação de antagonismo e de ódio.

O Deus da Bíblia judaica (sem falar no da tradição rabínica) é justiça e amor, como podem atestar inúmeras fontes, que não há espaço aqui para citar. É o Deus misericordioso (Ex 34, 6), que perdoa quem não obedeceu à sua lei. Nada teria sentido no judaísmo sem o perdão. E a exortação "ama o teu próximo como a ti mesmo" também é evangélica, mas vem da lei mosaica, Levítico 19, 18. É preciso provar totalmente, além disso, que Jesus de Nazaré é só amor e não justiça, em uma insossa representação de cômodo "bonismo" imperante.

Reiterar esses conceitos neste âmbito pareceria fora de lugar e sem sentido, mas é justamente neste âmbito que as velhas teorias, banal lugar-comum, foram desempoeiradas e repropostas para explicar a essência da revolução de Francisco. Que evidentemente não consiste nisso. E é paradoxal que, justamente enquanto se busca captar o bom de uma novidade, seja justamente o judaísmo que encarna o velho e o negativo, ele que, ao invés, deveria ser, pela riqueza da sua tradição, um companheiro ideal dos novos percursos.

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