Enquanto Francisco visita sinagoga de Roma, seis questões tencionam os laços católico-judaicos

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19 Janeiro 2016

Em qualquer lista das maiores histórias envolvendo religião do século XX, a revolução nas relações católico-judaicas que se desdobraram no pós-Segunda Guerra Mundial, acelerando-se depois do Concílio Vaticano II na década de 1960, terá de figurar entre as histórias principais.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 16-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este domingo, 17 de janeiro, traz-nos uma recordação: enquanto o Papa Francisco visita a Grande Sinagoga de Roma, tornando-se o terceiro pontífice a visitá-la na sequência de São João Paulo II em 1986 e Bento XVI em 2010. O local em que a sinagoga se encontra hoje fez, certa vez, parte de um gueto imposto pelos papas; atualmente, os papas vão aí visitar como amigos convidados.

Estas visitas são sempre especiais, dado que, com razão, nenhuma comunidade judaica sentiu tanto a picada do opróbio católico do que a comunidade de Roma. Basta lembrar que, na Idade Média, o rabino romano devia fazer uma homenagem anual ao chefe dos conselhos municipais e, em troca, recebia um chute cerimonial.

Embora a maior parte dos conhecedores dizem que se, hoje, há uma amizade inabalável, existem ainda alguns pormenores. Nesta visita do papa à sinagoga, seis questões nas relações católico-judaicas se fazem presentes.

Missão e conversão

Visto que a “recusa” dos judeus em aceitar Cristo foi, durante muito tempo, motivo para os sentimentos antissemitas, uma prioridade para eles no diálogo com o catolicismo foi o reconhecimento de que a aliança deles com Deus ainda é válida e, assim, não se deveria buscar convertê-los.

A primeira parte desta proposição foi basicamente realizada, na medida em que São João Paulo II declarou que a aliança judaica com Deus “nunca foi revogada”.

Os católicos, na prática, não têm muitos problemas com essa ideia. Conforme um recente documento do Vaticano colocou: “A Igreja Católica não realiza nem apoia qualquer trabalho missionário institucional dirigido à conversão dos judeus”.

No entanto, o cristianismo é uma religião missionária, convencida de que Cristo veio para todos. Como conciliar esta crença com a restrição para com os judeus continua sendo um dilema teológico.

Israel e a Palestina

Teologicamente, alguns judeus gostariam que o catolicismo apoiasse a reivindicação do judaísmo à terra de Israel. Politicamente, eles em geral se contentariam em contar com uma maior simpatia no conflito com os palestinos.

A visita de Francisco à região em maio de 2014 foi vista por alguns como um golpe propagandista a favor dos palestinos, incluindo uma parada não programada na barreira de segurança israelense, perto de uma pichação em que se lia: “Palestina Livre!”. Em junho passado, o Vaticano assinou um tratado com o qual formalmente reconheceu o “Estado da Palestina”.

A realidade sociológica é que a ampla maioria dos cristãos em Israel e na Palestina são palestinos, e a maioria dos bispos são árabes, o que significa que a influência maior sobre qualquer papa quanto ao conflito na região jamais será a favor dos israelenses.

Na era de Francisco, não permitir que os laços católico-judaicos sejam capturados por interesses políticos constitui um desafio.

Acordo econômico

Israel e o Vaticano mantêm relações diplomáticas desde 1993, e desde então eles vêm trabalhando em um acordo em torno dos impostos e da situação jurídica das propriedades da Igreja. 

No lado do Vaticano, uns suspeitam que Israel está dificultando as coisas; no lado israelense, uns acreditam que o Vaticano está tentando usar a sua força para extrair privilégios não dados a outras minorias religiosas.

A maioria dos católicos e judeus envolvidos neste diálogo diria que o impasse é apenas um detalhe dentro de uma relação saudável, mas um detalhe que seria bom ser resolvido rapidamente.

Pio XII

Os debates sobre se o Papa Pio XII, que reinou durante o período da Segunda Guerra, foi suficientemente crítico a respeito do Holocausto ainda se fazem presentes, especialmente porque Pio XII está a caminho de ser proclamado santo.

Um elemento dentro desse debate é a plena abertura dos arquivos do Vaticano dos anos de guerra, o que permitiria os pesquisadores melhor avaliar o histórico do candidato. Em novembro de 2014, Francisco disse que gostaria de ver abertos os arquivos “no momento em que resolvermos questões legais e burocráticas”.

Francisco insistiu que Pio XII não pode ser julgado com base nos padrões de hoje, e que “não entendo quando vejo as pessoas contra a Igreja, contra Pio XII”.

Retórica jubilar

Francisco designou 2016 como um Ano da Misericórdia e, em tese, é difícil ver quem poderia se opor à misericórdia. No entanto, Riccardo di Segni, principal rabino de Roma, manifestou preocupação com que a retórica jubilar pudesse reviver estereótipos antissemitas, principalmente o de que o Deus do Antigo Testamento é severo e vingativo enquanto que o do cristianismo é amoroso e misericordioso.

“Trata-se de uma aberração teológica antiga que continuou existindo como uma espécie de doença infantil do cristianismo”, disse ele.
Di Segni revelou não acreditar que seja isso o que Francisco tenha em mente, porém está preocupado que tal interpretação pode vir a acontecer entre um “público despreparado”.

Chegando até o povo

Embora líderes judaicos digam que a revolução nas atitudes católicas oficiais foi marcante, muitos estão preocupados com que elas não chegaram plenamente no nível paroquial – especialmente nos países ocidentais, onde ainda se podem ver preconceitos antissemitas em certos círculos católicos.

Em Israel, os católicos às vezes se queixam de que o novo espírito não possui um eco na imprensa ou no currículo escolar, onde as representações dos católicos podem girar em torno das cruzadas, da Inquisição e do Holocausto, sem trazer o progresso recente.
Ambos os lados, portanto, precisam se certificar de que a sua amizade chegue até o povo.

***

Um gesto jubilar imaginativo com Santa Maria Goretti

Por falar em Ano Jubilar da Misericórdia, um dos gestos mais imaginativos destinados a concretizá-lo no nível da base veio da diocese italiana de Latina-Terracina-Sezze-Priverno.

O que a faz famosa é ser o lar de Santa Maria Goretti, a santa mais jovem dos tempos modernos.

Ela nasceu em 1890, de uma família de fazendeiros tão pobre que se mudavam de tempos em tempos em busca de trabalho. Quando ela tinha 11 anos, em 1902, a sua família estava vivendo em uma cidadezinha chamada Le Ferriere, em um edifício chamado Cascina Antica ou “antiga casa de fazenda”, a qual partilhavam com uma outra família.

Um dia, Maria foi atacada por um membro adolescente dessa família chamado Alessandro Serenelli. Ele planejou estuprá-la e, quando ela resistiu, ele se enfureceu tanto que a apunhalou com uma faca 14 vezes. Uma cirurgia sem anestesia não conseguiu salvá-la, vindo a morrer 24 horas depois.

Maria perdoou Serenelli em seu leito de morte, dizendo esperar tê-lo com ela no Paraíso, e ele teria mais tarde relatado que ela lhe apareceu em visão para lhe dar 14 lírios, representando o número de vezes que ele a esfaqueou.

Anos mais tarde, depois que fora solto da prisão, Serenelli pediu perdão à mãe de Maria e acabou indo à missa de canonização da santa em 1950. Serenelli se tornou irmão leigo capuchinho, trabalhando como recepcionista e jardineiro em um convento na região de Le Marche, na Itália, até sua morte em 1970.

(Em geral, ele se manteve longe dos holofotes, embora tenha publicado uma nota antes de sua morte chamando Goretti de “minha luz e minha protetora” e dizendo que estava ansioso em estar próximo dela e de sua mãe na vida após a morte. Ele também culpou o seu crime na juventude em parte pela influência negativa da imprensa, incluindo os jornais e o entretenimento popular de seus dias; tenhamos em mente que isso ocorreu em 1902).

O bispo italiano Mariano Crociata conduz a diocese italiana na qual a família de Goretti viveu. Ele declarou a casa de Maria, que se transformou num local de peregrinação, como uma “igreja jubilar” para este ano santo.

Isso significa que as pessoas que atravessarem a sua sua Porta Santa podem obter a mesma indulgência plenária que receberiam ao atravessarem a Porta Santa da catedral local ou da Basílica de São Pedro e executar outros atos prescritos. (Uma “indulgência plenária” é uma remissão da pena devida pelos pecados).

Todo o tipo de pessoa vem a Le Ferriere para prestar homenagem à memória de Goretti, inclusive papas, Madre Teresa e Chiara Lubich, fundadora do movimento Focolares. Supõe-se que muita gente conhecida também virá ao local durante o Ano Jubilar.

Recentemente, Crociata conduziu o rito de abrir formalmente a Porta Santa na presença de um grande grupo de fiéis e de uma delegação de sacerdotes passionistas, ordem com a qual ela esteve ligada, posto que um passionista foi quem lhe deu a Primeira Comunhão. Os seus restos mortais estão localizados em uma igreja passionista em Nettuno, na Itália.

Em geral, as Portas Santas durante os anos jubilares encontram-se nas igrejas, embora a bula que decretou o Ano Jubilar deste ano especifique que os bispos podem autorizá-las em santuários e locais de peregrinação. Esta pode ser, talvez, a única “antiga casa de fazendeiros” a receber a designação de Porta Santa.

É um gesto imaginativo por três razões.

Primeiro, a história de Goretti tem a ver com perdão e o seu poder de cura, parte central da mensagem que Francisco quer que este Ano da Misericórdia traga ao mundo. Poucos exemplos ilustram melhor isso do que a vida de Goretti.

Segundo, este gesto lança luz sobre uma mulher jovem e santa, portanto obviamente não um sacerdote. Mulher, leiga e jovem são todos elementos pouco presentes entre os santos da Igreja Católica.

Terceiro, é um lembrete de que a misericórdia não está disponível somente na Igreja. Ela pode aparecer e mudar as vidas nos lugares mais inóspitos. Em outras palavras, este exemplo lembra a universalidade da misericórdia, sem mencionar que a casta clerical não tem o seu monopólio.

Poder-se-ia pensar que os motivos que levaram o bispo local a decidir pelo local desta Porta Santa sejam interesseiros.

De um lado, designar esta casa um lugar jubilar poderia ser visto como uma forma de atrair turistas numa época em que o medo com a segurança na Europa influenciou negativamente o turismo setor do país.

Por outro, poder-se-ia interpretar a decisão do bispo como uma maneira de aumentar o seu prestígio junto ao Papa Francisco, visto que em dezembro de 2013, quando Crociata se retirou como secretário-geral da poderosa Conferência Episcopal Italiana, o pontífice não o designou para uma diocese que normalmente o colocaria na linha sucessiva para se tornar cardeal. Isso foi tomado como um sinal de que, talvez, Crociata não era um tipo de bispo entre os desejados por Francisco.

(Na verdade, dado a maneira como Francisco lida com os centos de poder na escolha de novos cardeais, este pensamento está equivocado desde o começo. Na Itália, Veneza e Turim não têm cardeais, mas Ancona e Agrigento sim).

Independentemente de quais sejam as razões, o fato continua sendo que a Cascina Antica é um dos lugares santos mais surpreendentes para a transmissão da mensagem associada com o Ano Jubilar.

Aliás, Dom Marcello Semeraro, da Diocese de Albano, onde se localiza Nettuno, também designou a sala onde Goretti morreu como uma “igreja jubilar”, onde indulgências plenárias podem ser obtidas.

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