A santificação é a única maneira de acabar com a briga entre judeus e católicos sobre Pio XII

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18 Junho 2014

As autoridades do Vaticano vão te olhar nos olhos e dizer que as decisões sobre a nomeação de santos nunca são motivadas pela política, mas a verdade é que essas garantias e mais um euro conseguem pagar um cappuccino em um bar em frente à Praça de São Pedro.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal The Boston Globe, 14-06-2014. A tradução é de Cláudia Sbardelotto.

Qualquer pessoa pode ver que a política muitas vezes entra em cena, especialmente no que diz respeito à velocidade em que o caso se move. Isso pode ser visto bem claramente com o caso do Papa Pio XII, o pontífice durante a Segunda Guerra Mundial, cuja reputação sobre o holocausto continua a ser um ponto de inflamação nas relações entre judeus e católicos.

A sabedoria popular diz que o Vaticano está convencido de que Pio XII merece uma auréola, mas o seu processo de santificação está indo devagar por deferência às sensibilidades judaicas. Um argumento feito frequentemente é que nenhum julgamento deve ser alcançado até que os arquivos do Vaticano dos anos de guerra estejam completamente abertos, permitindo que os pesquisadores explorem o que Pio sabia e o quanto ele sabia a respeito.

De um ponto de vista puramente político, no entanto, há um forte argumento para uma conclusão altamente contra-intuitiva: a melhor coisa para os laços entre católicos e judeus seria canonizar Pio XII amanhã.

Talvez nenhuma figura católica do século XX tem sido objeto de debate mais acalorado do que Eugenio Pacelli, o verdadeiro nome do pontífice que reinou de 1939 a 1958. A vasta literatura inventa muitos termos, inclusive as "guerras de Pio", referindo-se ao polêmico intercâmbio entre os críticos do papa e seus defensores.

Os críticos argumentam que Pio XII permaneceu em silêncio porque ele preferiu proteger os interesses institucionais da Igreja. Os defensores dizem que o papa foi discreto em público, para não piorar as coisas, mas nos bastidores ele salvou muitos judeus.

A causa para a santificação de Pio começou logo após a sua morte. Nesse meio tempo, três pontífices que vieram mais tarde já o ultrapassaram: João XXIII e João Paulo II já são santos, e Paulo VI será beatificado em outubro.

O Papa Francisco recentemente enviou sinais diferentes sobre o seu próprio pensamento.

A bordo do avião papal voltando do Oriente Médio, ele disse que não houve nenhum milagre de Pio XII, e que "o processo é lento".

Na semana passada, o papa deu uma entrevista para o jornal espanhol La Vanguardia e fez uma defesa contundente de seu controverso antecessor, entre outras coisas, alegando que 42 bebês nasceram durante os anos de guerra, filhos de refugiados escondidos no próprio quarto de Pio.

Francisco também disse que a abertura dos arquivos "vai trazer um monte de luz", talvez uma pista de que ele acredita que esperar até lá é o curso prudente (a abertura de arquivos de qualquer Estado é um processo demorado, mas as autoridades disseram que ela poderá acontecer já no próximo ano).

Aqui está por que agir agora pode realmente ser a melhor opção do Papa Francisco.

Em primeiro lugar, é uma fantasia acreditar que a abertura dos arquivos vai magicamente resolver as questões sobre a reputação do papa. O debate sobre Pio XII é em grande parte contrafatual - não diz respeito ao que ele fez, mas ao que ele deveria ter feito, e nenhuma "arma fumegante" histórica pode resolver isso de uma maneira ou de outra.

Em segundo lugar, Pio XII está destinado a permanecer como um câncer nas relações entre católicos e judeus, enquanto o seu caso ainda estiver em aberto.

Uma maneira de quebrar o ciclo seria o Vaticano anunciar definitivamente que Pio XII nunca, nunca será canonizado.

Sob a lei da Igreja, no entanto, isso é uma impossibilidade, porque nenhum papa pode se amarrar as mãos de seu sucessor. Mesmo se Francisco emitisse um edital, ele expiraria ao término de seu papado.

A única outra maneira de tirar Pio XII da jogada é a de declará-lo santo.

Os especialistas ainda poderão se atracar em debates, mas o mundo em geral perderia o interesse uma vez que o drama do "ele será ou não será santo?" estiver acabado.

Há um paralelo com São Maximiliano Kolbe, sacerdote franciscano polonês, e Santa Teresa Benedita da Cruz, mais conhecida como Edith Stein, ambos os quais morreram em Auschwitz.

Quando as causas de ambos os santos estavam em andamento, muitos judeus e católicos protestaram - no caso de Kolbe, porque ele supostamente promovia publicações antissemitas, com Stein porque era uma judia convertida ao catolicismo, e a santificação poderia ser vista como um convite ao proselitismo.

O que quer que as pessoas pensavam sobre esses argumentos, estes em grande parte deixaram de existir em 1982, quando Kolbe foi canonizado, e em 1998, quando Stein foi declarada santa. Naquele estágio, não havia mais nada para bloquear ou apoiar.

O Papa Francisco notoriamente gosta dos judeus e do judaísmo. Sua entrevista ao La Vanguardia foi com um jornalista judeu, Henrique Cymerman, que ajudou a montar a cúpula de oração do domingo de Pentecostes com o presidente palestino e o presidente israelense. Sem dúvida, o pontífice está relutante em fazer qualquer coisa que possa causar mágoa, mas adiar a decisão pode causar mais angústia, a longo prazo, mantendo as tensões em ebulição.

Em última análise, a política não será o único fator na escolha de Francisco. Se ele quer a melhor leitura política sobre a situação, no entanto, isto é provável: se você sabe que vai fazer isso, eventualmente, é melhor fazê-lo agora, porque às vezes a única maneira de contornar um problema é ir diretamente ao seu encontro.

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