Dez anos sem Wojtyla: o que resta do último Papa imperial

Revista ihu on-line

Henry David Thoreau - A desobediência civil como forma de vida

Edição: 509

Leia mais

Populismo segundo Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

Edição: 508

Leia mais

Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

Edição: 507

Leia mais

Mais Lidos

  • Os filhos dos padres: a nova investigação da equipe Spotlight

    LER MAIS
  • A CNBB recolhida em jejum e oração

    LER MAIS
  • 'Estamos frente a um sistema de agiotagem que paralisou o país'

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

07 Abril 2015

A morte foi um evento, milhões de homens e mulheres, católicos, não crentes e seguidores de outras religiões em fila dia e noite para lançar um último olhar na basílica vaticana ao corpo do Pontífice que havia atravessado o mundo como nenhum outro. E depois o funeral envolvente. A doença foi um evento, porque focalizava brutalmente a atenção de todos sobre a dignidade de cada ser humano sofredor e a mensagem, transmitida por um físico chagado, mas amparado por um ideal.

O comentário é de Marco Politi, publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 01-04--2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Dez anos após aquela partida, aos 2 de abril de 2005, João Paulo II já parece assim, para os de vinte anos de hoje, como quem não sabe quase nada dele. Os de trinta anos não têm ideia do que tenha sido o mundo dividido pela cortina de ferro, sua luta contra o totalitarismo soviético, o seu alarme para a hegemonia sonhada pelos ideólogos do “século americano”.

Na passagem entre o século vinte e o início de milênio o Pontífice polaco se destaca como talvez o único grande líder – com suas páginas claras e escuras – daquela estação tumultuosa. João Paulo II foi o último Papa imperial. Soberano absoluto na comunidade católica. Poderoso em sua mensagem que a fé ainda tem um papel significativo a jogar no mundo secularizado, quente e empático com as multidões e especialmente com os jovens, próximo aos condenados da terra dos cinco continentes, inflexível na repressão dos teólogos incômodos silenciados pelo Santo Ofício de Joseph Ratzinger. Um imperador habituado a bispos escolhidos por sua “confiabilidade”, intolerante perante personalidades demasiado independentes como Carlo Maria Martini.

Autoritário no rejeitar a proposta majoritária do Sínodo sobre a Família de 1980, que solicitara estudar o sistema das segundas núpcias nas Igrejas ortodoxas. E, ao mesmo tempo, um “mensageiro de paz e testemunho de esperança”, como foi chamado pelos fiéis. Essencial na sóbria túnica branca, tornada símbolo como o capote cinzento de Napoleão. E napoleônica foi a sua trajetória que – como ocorreu à França de Bonaparte – deixou a Igreja com os problemas encontrados na sua eleição: a crise irrefreável das vocações, o cisma silencioso dos fiéis distantes dos diktat doutrinários, a insustentabilidade de uma ética sexual radicada numa cristandade patriarcal de fundo camponesa, a marginalização das mulheres de posições decisionais na comunidade eclesial, a permanência de uma estrutura eclesiástica monárquica incompatível com a evolução dos tempos (como o cardeal Ratzinger havia intuído pouco antes da morte de Wojtyla).

Dez anos depois, em confronto com um Francisco por nada “pontífice máximo” e caracterizado antes pela simplicidade de um discípulo de Cristo, Wojtyla parece vir de uma época histórica remota. Quase medieval na sua pregnância. No entanto, na história da Igreja há fluxos de impulsos que se transmitem de um pontificado ao outro. Ao findar de sua parábola Wojtyla se concentrara naquela visão do “Jesus misericordioso” aparecido em visão à Irmã polaca Faustina Kovalska, por ele proclamada santa em 2000. E “misericórdia” tornou-se a palavra cardinal do pontificado de Bergoglio e do próximo jubileu.

A intuição das convenções inter-religiosas iniciadas por Wojtyla em Assis no ano de 1986 e a amizade com hebreus e muçulmanos é a base do diálogo constante praticado por Francisco com as outras religiões. O mea culpa solene, pronunciado por João Paulo II no jubileu de 2000 pelos erros e os horrores cometidos pela Igreja nos séculos, é o fundamento sobre o qual se apóia o aguilhão crítico de Francisco na obra de purificação da instituição católica.

E é toda Wojtyla a presença geopolítica do Vaticano no cenário mundial, inspirada por uma tenaz oposição às guerras e pela convicção de que somente a ONU pode conseguir “ordem”. Francisco que segue João Paulo II. Mas, sobretudo se percebe uma robusta coligação na denúncia de ambos contra a “ideologia radical” do lucro, que produz intolerável iniquidade (palavra de Francisco) sobre o planeta. A força da Igreja está também nestas passagens de testemunho.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Dez anos sem Wojtyla: o que resta do último Papa imperial