Processo do cardeal Becciu mostra que as reformas de Francisco serão difíceis de reverter

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29 Julho 2021

 

Francisco entende que, para mudar uma subcultura entrincheirada como a da Cúria do Vaticano, precisa mudar procedimentos e políticas, às vezes a equipe, mas acima de tudo, tem que mudar de direção”, escreve Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 28-07-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Há um velho ditado entre os hierarcas da Igreja Católica: Roma é conhecida como a Cidade Eterna porque qualquer coisa é eterna na Cúria Vaticana. Mas, em oito anos de pontificado, a determinação de Francisco para reformar a Cúria está demonstrando sinais de sucesso.

O repórter investigativo Jason Berry publicou uma reportagem profunda no NCR ontem sobre os problemas em torno do julgamento do cardeal Giovanni Angelo Becciu. Esse julgamento iniciou nesta semana e é, por si, um evento marcante.

Os cardeais não são chamados de “príncipes da Igreja” por nada, e Becciu adquiriu mais poder que isso: em seu antigo papel como sostituto na Secretaria de Estado do Vaticano, ele trabalhou como um chefe de gabinete da Casa Branca. No papel, ambos os papéis não parecem tão consequentes como são, mas, na prática, ambos trabalham em diversos pontos para tomadas de decisão.

Em pontificados anteriores, o barrete do cardeal Becciu teria sido o suficiente se proteger das acusações. Se, antes de Francisco, Becciu fosse pego fazendo algo ilegal ou mesmo terrivelmente errado, ele deveria ser deslocado para um trabalho diferente, e dada uma sinecura, da forma como o cardeal Bernard Law foi nomeado arcipreste de Santa Maria Maggiore depois que renunciou ao cargo de arcebispo de Boston em 2002.

Agora Becciu está sendo julgado. Todos os outros cardeais receberam a mensagem: ser cardeal não o protegerá das consequências de suas próprias ações.

O julgamento não é a única evidência dos esforços de Francisco para arrastar a Cúria Romana chutando e gritando pelo menos até o século XX. Na semana passada, a Administração do Patrimônio da Santa Sé (APSA) publicou não só um relatório fiscal para o Vaticano, mas, pela primeira vez, uma lista dos imóveis de propriedade do Vaticano, mais de 4.000 propriedades na Itália e outras 1.200 no exterior. A luz é inimiga da corrupção.

Além desse novo nível de transparência sobre suas finanças, também aprendemos como a Igreja navegou na pandemia em seu papel de proprietária de terras. Os aluguéis foram reduzidos e adiados para ajudar os inquilinos a sobreviver às consequências econômicas das paralisações. O presidente da APSA, dom Nunzio Galantino, disse que as reduções resultaram nas contas da Santa Sé no vermelho no ano passado, mas também em “um resultado positivo no sentido de que revelou a vontade de ser e continuar a ser e a se comportar” como uma Igreja, “mesmo em um momento de séria crise para todos”.

Um dos aspectos negativos do aumento do envolvimento dos leigos na tomada de decisões eclesiais, pelo menos nos Estados Unidos, foi a introdução do pensamento empresarial. Muitos bispos lhe dirão que seus conselheiros leigos frequentemente reclamam das decisões do bispo, dizendo: “Você não poderia dirigir um negócio como esse”, e o bispo tem que apontar que a Igreja não é, afinal, um negócio.

Além desses dois sinais recentes e particulares de mudança na maneira de se conduzir do Vaticano, todos aguardamos a publicação do Praedicate Evangelium, a constituição apostólica que remodelará a estrutura do Vaticano. Será o resultado de uma consulta sem precedentes e, com sorte, concretizará algumas das mudanças de atitude que o Santo Padre tem buscado em seus esforços para implementar mais plenamente a visão do Concílio Vaticano II: menos clericalismo e sigilo, mais sinodalidade e transparência. Pode se chamar esses esforços diferentes de “reforma da reforma” de Francisco.

O objetivo que Francisco busca não é apenas um Vaticano menos atormentado por intrigas, lutas internas e escândalos, mas um Vaticano que está modelando para a Igreja universal o impulso evangelizador que emerge de uma leitura do Evangelho.

O papa não é um primitivista, com certeza. Ele busca exatamente o mesmo tipo de reforma genuína da qual o papa Bento XVI falou em seu discurso muitas vezes mal citado em 2005 à Cúria, que envolve elementos de continuidade e descontinuidade com o passado imediato, recuperando as percepções e inspirações da Igreja primitiva enquanto enfrenta diretamente os problemas de nosso próprio tempo.

Nós, humanos, somos criaturas de hábitos. Quando você combina aquele desejo humano de constância com uma fé que está enraizada em uma tradição apostólica, você obtém uma organização que é necessária, e muitas vezes útil, resistente à mudança.

Francisco entende que, para mudar uma subcultura entrincheirada como a da Cúria do Vaticano, precisa mudar procedimentos e políticas, às vezes a equipe, mas acima de tudo, tem que mudar de direção – fazer a organização avançar para novos objetivos, para os quais seus antigos hábitos e métodos já não funcionam, de modo que as pessoas façam seus novos procedimentos próprios.

Nos últimos dias, vimos evidências das mudanças tectônicas que Francisco vem colocando em movimento. Uma vez em movimento, será muito mais difícil voltar atrás.

 

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