O processo de acusação do Vaticano contra o Cardeal Becciu, 486 páginas. 90 milhões em danos ao Óbolo de São Pedro e 200 milhões ao Vaticano. O papel do 'arrependido' Perlasca

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05 Julho 2021

 

Quatrocentos e oitenta e seis páginas que são uma bomba e que provam quatro anos de investimentos do Vaticano no famoso prédio londrino da Sloane Avenue por centenas de milhões de euros que desvaneceram no ar e dos quais se aproveitaram os financistas Raffaele Mincione e Giancarlo Torzi. No final, eles desempenharam "dois papéis na comédia", mas como o "Gato e a Raposa" de Collodi, se conheciam bem há anos.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 03-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mincione com o dinheiro do golpe "agravado" (assim escrevem o Promotor de Justiça Gian Piero Milano, o adjunto Alessandro Diddi e o auxiliar Gianluca Perone) contra a Secretaria de Estado do Vaticano (que no processo que começará em 27 de julho próximo constitui-se como parte civil, assistida pela advogada Paola Severino) financiou algumas das suas campanhas italianas: desde a subida ao Banco Carige, a Retelit, à BPM, devolveu parte do dinheiro à ENASARCO e ao fundo dos Contadores, que haviam intimado a restituição dos fundos que lhe foram confiados e em grave diminuição, cobriu as perdas de investimentos que terminaram mal no Monte dei Paschi de Siena.

Centenas de milhões de euros, com uma perda líquida de 90 milhões apenas no Óbolo de São Pedro e um prejuízo total de 200 milhões para a Santa Sé.

Um verdadeiro assalto ao trem pagador pelo qual é responsável segundo a acusação, em conjunto com os demais funcionários públicos do Vaticano, o cardeal Angelo Becciu, privado em setembro de 2020 dos privilégios ligados ao seu cargo pelo Papa e indiciado pelo Tribunal ordinário presidido por Giuseppe Pignatone, com o consenso explícito de Francisco, em 19 de junho, e com base na reforma do código penal vaticano de 30 de abril último.

Becciu - que se proclama vítima de uma maquinação - em virtude do cargo que ocupou (nos 'anos dourados' 2014-2018), o de substituto da Secretaria de Estado, não responde por responsabilidade objetiva, mas por ter atuado ativamente a favor do investimento do prédio de Londres. Com o acompanhamento de pequenos (dezenas de milhares de euros) e grandes (centenas de milhares de euros) crimes de peculato de funcionários públicos, incluindo a autodenominada especialista em inteligência Cecilia Marogna que gastou uma fortuna em compras de grifes do luxo, com uma acusação também de lavagem de dinheiro pelas autoridades da Eslovênia onde as suas empresas estão sediadas. E, além disso, com as acusações pelos serviços de carpintaria contratados do irmão do Becciu, mal feitos e bem pagos, pelo investimento na cerveja Cipollina, e assim por diante.

Ex-braço direito de Becciu, monsenhor Alberto Perlasca contou tudo aos Promotores da Justiça: fez uma reconstrução pontual dos acontecimentos, forneceu esclarecimentos, explicações, ofereceu sua memória histórica completa da seção administrativa da Secretaria de Estado. Seu nome não está entre os incriminados. Provavelmente obteve a garantia do perdão pela ajuda prestada à justiça, em qualquer caso será a testemunha da Coroa.

Graças ao que resultou das investigações, o Papa teve oportunidade de modificar as leis internas do Vaticano que até poucos meses atrás não previam um código de licitação, normas estritas contra a corrupção, favoritismo familiar e nepotismo, o conflito de interesses. Os documentos mostram que não só Tirabassi, mas também Crasso, durante trinta anos o gestor do fundo da Secretaria de Estado foi autorizado por escrito em 2013 por Becciu a receber comissões do Credit Suisse (do qual era então empregado) para negócios com o Vaticano.

Mas é inacreditável ler no pedido da acusação como o próprio Cardeal Becciu tenha se colocado sob investigação. Em suma, até a primavera de 2020, Becciu não estava entre os investigados. Quando os cinco funcionários da Secretaria de Estado envolvidos foram "afastados" (em 1º de maio de 2020), o cardeal começou a se inquietar, tentou arrumar duas improváveis ofertas de recompra do imóvel de Londres (também por meio de Marco Simeon), tudo para evitar que Torzi (que estava prestes a ser interrogado pelos promotores do Vaticano) delatasse tudo.

Depois, quando os representantes do Ministério Público chegaram aos financiamentos para Cecília Marogna, ele começou a disparar verdadeiros insultos contra os promotores. Escreveu em um chat a Perlasca que eles eram "porcos". Finalmente, em março passado (2021), ele tentou silenciar Perlasca. Fez isso intervindo sobre o Bispo de Como, superior hierárquico do monsenhor, depois de ter tentado afastá-lo da residência da Casa Santa Marta onde mora. Perlasca se assustou e percebeu naquele momento que não tinha alternativa a não ser cooperar totalmente.

A AIF, a Autoridade de Inteligência Econômica (criada em 2011 e agora se chama Asif e é presidida pelo ex-Banco da Itália Carmelo Barbagallo, ex-chefe de vigilância) saiu destruída. O ex-presidente René Brulhart indiciado por abuso de poder, com uma medida que se somará aos outros nove co-réus, na primeira audiência do processo argumentou que no caso dele tratava-se de um equívoco, que iria desvanecer como a neve ao sol. E o ex-diretor geral Tommaso Di Ruzza também foi a julgamento por estelionato por despesas pessoais injustificadas. Em particular, Di Ruzza - de acordo com a acusação - abusou de seus poderes ao autorizar o pagamento de 15 milhões de dólares a Torzi, considerado uma extorsão pelos Promotores da Justiça.

A colaboração internacional de muitos países envolvidos nas transações financeiras foi maciça e levou à apreensão de dezenas e dezenas de milhões de euros nas contas dos principais réus, apesar de campanhas de imprensa orquestradas em página inteira destinadas a demonstrar que as autoridades de outros estados tinham batido a porta na cara do Vaticano.

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