Mega Processo no Vaticano. Era um sistema predatório e lucrativo podre. As acusações dos promotores contra a Camarilha

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05 Julho 2021

 

As roupas sujas são lavadas na Praça São Pedro diante de mais de um bilhão de católicos. Hoje com as acusações, amanhã com o julgamento e depois de amanhã com condenações ou absolvições, o Vaticano enfrenta de cara aberta um dos últimos escândalos. É a transparência tão almejada pelo Papa Francisco. Assim aparecem, na reconstrução dos magistrados vaticanos após dois anos de investigações, as acusações contra o cardeal Angelo Giovanni Becciu e a congregação de "sujeitos estranhos à estrutura eclesial - muitas vezes improváveis senão inadmissíveis - atores de um sistema predatório e lucrativo podre" favorecido por "cumplicidades e conivências internas". Por anos, teriam usado e muitas vezes abusado do Óbolo de São Pedro, ou seja, das oferendas dos fiéis, a começar pelos investimentos imobiliários em Londres na Sloane Avenue. Segundo a denúncia, “emerge a exploração sistemática, por parte dos diversos funcionários da Secretaria de Estado, da posição assumida no mais importante aparato administrativo do Estado para proveito próprio”.

A reportagem é de Mario Gerevini e Fabrizio Massaro, publicada por Corriere della Sera, 04-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

As interferências de Becciu

O cardeal, escrevem os promotores da justiça Gian Piero Milano, Alessandro Diddi e Gianluca Perone, é "autor de gravíssimas iniciativas para interferir nas investigações". Em janeiro de 2020 escreveu ao gestor do fundo Centurion, Enrico Crasso: “No momento certo teremos que fazer uma boa campanha de imprensa!! Aliás, você poderia começar isso imediatamente. Pergunte ao seu advogado se é o caso de desacreditar logo os nossos magistrados!”. Becciu também teria se valido de "jornalistas complacentes".

 

O grande acusador

Por anos homem encarregado dos investimentos do Vaticano, monsenhor Alberto Perlasca, de braço direito se transformou no primeiro acusador de Becciu e dos demais. E se salva (talvez também por isso) do processo. “Não surgiram elementos para confirmar que o comportamento de Mons. Perlasca tenha sido marcado por infidelidade e inspirado à realização de interesses pessoais”. Em 30 de agosto de 2020, ele fala do pedido de Becciu para liberar 100 mil euros para uma cooperativa da Sardenha: "Como ele não me disse nada, era um sinal de que eu não precisava saber, ensinaram-nos assim: se o superior não lhe fala nada, é sinal de que você não tem que saber (nem perguntar)”. Para contornar os controles de combate à lavagem de dinheiro, Becciu propôs enviá-los à Caritas de Ozieri com o objetivo de "obras de caridade do Santo Padre". Mas eram destinados à Spes (produtora de cerveja) de um irmão de Becciu.

 

"Os magistrados, que porcos!"

Em abril de 2020 chega ao Vaticano a sinalização suspeita de 575 mil euros transferidos na Eslovênia para a empresa Logsic de Cecilia Marogna. Os magistrados pedem comprovação a Perlasca e ele o relata a Becciu. "Ele ficou muito perturbado que esse assunto tivesse sido tratado (disse: que porcos!) e me repreendeu duramente por ter arquivado no celular as mensagens que havia me enviado e que eu deveria ter apagado em vez disso." Becciu sugeriu a Perlasca que usasse o chat criptografado Signal. “Disse-lhe que não via o motivo, considerando que ele me tinha dito que a operação fora solicitada pelo Santo Padre e por isso eu pensava que estava agindo corretamente. Naquela ocasião, ele me disse que conhecia aquela mulher, que era do Dis”. Sobre Marogna também há vídeos que atestam sua presença no Vaticano no prédio onde fica o apartamento privado de Becciu entre 16 e 17 de setembro de 2020.

 

"Falso testemunho"

"Temendo condenações por falso testemunho", Perlasca supostamente teria sofrido pressões de Becciu, por meio do bispo de Como Oscar Cantoni, "para retratar o que foi declarado aos magistrados". O próprio Cantoni confirmou o pedido de Becciu. O cardeal, por meio de seus advogados, declarou-se "inocente e vítima de uma maquinação".

 

Petróleo e café

Das 486 páginas da investigação despontam também negócios estranhos, apenas planejados, por trás da Secretaria e das atribuições do cargo. O alto funcionário Fabrizio Tirabassi, por exemplo, junto com os financistas Raffaele Mincione e o gestor Crasso “tentaram desenvolver nada menos que um negócio vinculado à construção de um sistema de transporte fluvial de petróleo na Colômbia e Miami”. Tirabassi com outro funcionário da secretaria “queriam até montar uma empresa de torrefação de café”.

 

O gorila do monsenhor

Resultam também detalhes preocupantes, além das denúncias penais, sobre um alto prelado como o monsenhor Mauro Carlino: ele estava em contato com Giovanni Ferruccio Oriente, dono de uma firma de investigações que em nome do monsenhor teria feito investigações e levantamentos sobre pessoas internas e externas à Santa Sé. Além disso, Carlino esteve em contato com "pessoas encarregadas de lhe oferecer proteção", entre as quais um sujeito que teria sido preso na Itália anos atrás por lavagem de dinheiro. Parece um cenário da Chicago dos anos 30.

 

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