Vaticano, acerto de contas após 10 anos de segredos

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27 Julho 2021

 

No Vaticano é hora de acertar as contas: com a justiça e com os balanços. Para a primeira cuidará o tribunal terreno do Papa, que a partir de amanhã processará, entre outros, um cardeal: Giovanni Angelo Becciu. É a primeira vez na história. Os diversos crimes imputados aos 10 réus são fraude, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção. Sobre os balanços pesam as demonstrações financeiras em vermelho e a utilização inescrupulosa, no passado recente, dos fundos da Secretaria de Estado. Um "sistema podre, predatório e lucrativo", segundo os magistrados do Papa, onde sujeitos "improváveis, senão impensáveis" valeram-se dos recursos da Santa Sé graças também a "limitadas, mas bastante incisivas cumplicidades e conivências internas".

A reportagem é de Milena Gabanelli, Mario Gerevini e Fabrizio Massaro, publicada por Corriere della Sera, 26-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Os réus

 

Diante de um tribunal (de leigos) e da opinião pública de todo o mundo, serão apresentados, analisados e julgados dez anos de gestão secreta das finanças do Vaticano. Além de Becciu, estão no banco dos réus seu ex-secretário Monsenhor Mauro Carlino, a autodenominada agente secreta "engajada" por Becciu, Cecilia Marogna, o histórico banqueiro do Vaticano Enrico Crasso, o contabilista que tinha as chaves da caixa do Papa, Fabrizio Tirabassi, os ex líderes do combate à lavagem de dinheiro do Vaticano René Brülhart e Tommaso Di Ruzza, o advogado de negócios Nicola Squillace, o financista que recebeu a gestão de 200 milhões de ofertas dos fiéis Raffaele Mincione, e o corretor de valores encarregado pelo Secretariado de Estado de proteger aquele patrimônio, Gianluigi Torzi, depois preso sob a acusação de extorsão contra a Santa Sé.

 

Os bastidores

 

Pela primeira vez, as escolhas financeiras, os investimentos, a lógica de seleção de consultores e banqueiros pela Secretaria de Estado serão examinados em público. Talvez os pontos obscuros também possam ser esclarecidos: por exemplo, por que motivo o Vaticano negociou durante meses com um suposto extorsionário e por que depois o bonificou com 15 milhões; ou os bastidores do confronto entre o IOR e o Secretário de Estado, Pietro Parolin, por um empréstimo (não concedido) de 150 milhões de euros; e também quanto o Vaticano realmente perdeu com as apostas financeiras imprudentes dos vários Becciu, Perlasca e Tirabassi "assistidos" por Mincione, Crasso, Torzi e outros réus.

Há um aspecto muito delicado da imagem e de reputação: os fundos da Secretaria de Estado, mais de 600 milhões de euros, provêm das ofertas dos fiéis ao Papa, o chamado "Óbolo de São Pedro" que é arrecadado todos os anos no 29 de junho nas igrejas de todo o mundo. É uma entrada fundamental: os papas sacam daquele tesouro todos os anos para compensar as perdas da máquina operacional do Vaticano. Apenas 10% é usado pelos papas para a caridade; a maior parte é utilizada para custear as despesas da Cúria Romana, das embaixadas (nunciaturas), da comunicação, dos jornais, da uniformidade do rito em todos os países, até os tribunais eclesiásticos.

 

O Óbolo recapitaliza a empresa

 

Mas o quanto soma o furo do Vaticano? Durante três anos, até 2018 inclusive, as demonstrações financeiras da Santa Sé não foram publicadas, mas sempre fecharam com prejuízo. Em 2016, o balanço do Vaticano perdeu 3 milhões, no ano seguinte 32 milhões. Em 2018 queimou 75, em 2019 outros 11 e finalmente 66 no ano passado. De fato, em 2020, a Covid se somou ao déficit estrutural: com os Museus do Vaticano (os mais visitados do mundo) fechados por quase um ano e aluguéis menores arrecadados de inquilinos, houve uma queda de cerca de 100 milhões de receitas. No total, entre 2016 e 2020, o déficit acumulado foi de 187 milhões. Se somarmos as estimativas para 2021, o furo varia entre 237 e 276 milhões de euros. Nos últimos dez anos, as ofertas ao Óbolo caíram constantemente. E assim contribuíram cada vez menos para compensar o déficit: de 68 milhões de euros em 2014, as doações caíram em 2020 para 44 milhões. “Entre 2015 e 2019 a arrecadação do Óbolo de São Pedro diminuiu 23%, e em 2020 foi 18% inferior. É provável que a crise ligada à pandemia se faça sentir novamente este ano”, disse o Prefeito de Economia, Juan Antonio Guerrero Alves. A lição parece ter sido aprendida: no sábado, 24 de julho, apresentando as contas de 2020, ele admitiu: “Aprendemos que a transparência nos protege mais do que o sigilo”.

 

As perdas com os investimentos

 

O caso do prédio da Sloane Avenue, em Londres, é emblemático: custou cerca de 350 milhões, segundo os promotores. Quanto o Vaticano perdeu? Por enquanto, só pode ser estimado: entre 73 e 166 milhões, segundo Monsenhor Nunzio Galantino, presidente da Apsa (uma espécie de fundo soberano do Vaticano). O único dado certo sobre o prédio emerge das demonstrações financeiras de 2019, recém-publicadas e inéditas, da empresa que o possui, a London 60 Limited. A propriedade perdeu quase 49 milhões. Mas de onde vem a maxi perda? Nos papéis, não há uma linha sobre o andamento da gestão. Aprovar com 19 meses de atraso apenas um balanço superficial do "famigerado" prédio de Londres, que continua sendo um dos ativos patrimoniais mais importantes de toda a Santa Sé, não corresponde à transparência pedida pelo Papa Francisco.

 

O espião do Monsenhor

 

Enquanto isso, quem administra o famoso prédio? O polêmico arquiteto Luciano Capaldo, que chegou ao Vaticano quase por acaso, é um empresário que há anos trabalha com o acusado Torzi. Mas o lado mais surpreendente da estranha relação Capaldo-Vaticano só agora está emergindo de alguns documentos judiciais. Acontece, de fato, que por conta de Monsenhor Carlino ele espiava seu antigo empregador (Torzi, justamente) através do sistema de vídeo-vigilância do escritório da corretora em Londres, do qual o próprio Capaldo tinha as chaves de acesso. Carlino também contava com agentes secretos para conseguir informações sobre Torzi e sempre andava acompanhado por um guarda-costas.

Não é bem o que se espera de um monsenhor da cúpula da Secretaria de Estado, por muito tempo secretário de Becciu. Outros negócios opacos emergem das 29.000 páginas dos documentos da investigação, como o dinheiro perdido nos quatro imóveis, também em Londres, da empresa Sloane & Cadogan, onde o Secretariado investe 67 milhões de libras em 2015, sem qualquer avaliação independente; no final de 2017 já perdia mais de 14, segundo cálculos do auditor. Quem vendeu? Quatro empresas offshore de Jersey, que escondem os nomes de quem realmente ficou com o dinheiro. Depois, há os 5 milhões queimados em 2017 nas ações da Astaldi, já à beira da falência. Ou o fracasso da produção do último filme da saga Men in Black, quase 3 milhões perdidos.

 

O dinheiro que poderia voltar para a caixa

 

Já foram apreendidos 64 milhões de euros dos acusados. Mas as Mãos Limpas do Vaticano poderia conseguir muito mais das duas novas linhas de investigação abertas pelos promotores da justiça. Uma diz respeito ao IOR da antiga gestão e ao seu investimento temerário num edifício na Hungria, antiga sede da Bolsa de Valores de Budapeste: um caso complicado, já objeto de processos cíveis em Malta e que vale pelo menos 42 milhões de euros. Outra investigação está ligada à coleta do Óbolo na Itália e ao seu site, e à coleta do dinheiro. Durante anos, esses fundos foram administrados por Monsenhor Alberto Perlasca, agora o grande arrependido que está delatando anos de bastidores e por isso foi agraciado pelos magistrados (e pelo Papa). Mas muito provavelmente serão os outros réus que irão processá-lo, para se defender. Enquanto isso, Francisco já emitiu a sua sentença de fato, com uma espécie de justiça paralela que afastou e tirou poder dos personagens centrais dessa história. Em fevereiro passado, ele mandou fechar todas as contas na Suíça, retirou o dinheiro da Secretaria de Estado e a transferiu para a APSA. Que só agora, depois de mais de 50 anos, divulgou uma síntese de balanço.

 

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