Julgamento do cardeal Becciu testará as reformas financeiras do papa

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10 Julho 2021

 

A suposta má gestão de milhões de dólares de fundos da Igreja levará vários indivíduos de alto perfil a um tribunal vaticano improvisado, instalado em uma sala multifuncional dos Museus Vaticanos.

A reportagem é de Junno Arocho Esteves, publicada em Catholic News Service, 09-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O anúncio-surpresa do dia 3 de julho de que os promotores vaticanos indiciaram 10 pessoas e entidades, incluindo o cardeal Angelo Becciu, ex-prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, em uma série de acusações relacionadas a má gestão financeira e prevaricação, foi a última reviravolta na aparentemente interminável saga do controverso investimento do Vaticano em uma propriedade no distrito de Chelsea, em Londres.

Os indiciamentos, especialmente de ex-empregados vaticanos, também podem ser um banco de testes para os esforços do Papa Francisco para reformar as finanças do Vaticano, que foram marcadas por escândalos ao longo de décadas.

Essa também é a primeira vez na história moderna que um cardeal está entre aqueles que enfrentam um julgamento criminal no Vaticano.

A maioria dos acusados, incluindo Becciu, reafirmaram a sua inocência e disseram que aguardam pacificamente pelo dia no tribunal.

“Finalmente, o momento do esclarecimento está chegando, e o tribunal poderá encontrar a absoluta falsidade das acusações contra mim e as tramas obscuras que evidentemente as sustentaram e alimentaram”, disse Becciu em um comunicado divulgado pelos seus advogados no dia 3 de julho.

René Brülhart, ex-presidente da agência de vigilância financeira do Vaticano, disse que “sempre desempenhei minhas funções e deveres com correção, lealdade e no interesse exclusivo da Santa Sé e de seus órgãos”.

“Encaro este assunto com serenidade, na convicção de que as acusações contra mim desaparecerão totalmente”, disse ele logo após o anúncio do indiciamento.

“Estou sereno e confiante de que a verdade dos fatos e a minha inocência virão à tona e serão esclarecidas em breve pelas autoridades judiciais vaticanas”, disse Tommaso di Ruzza, que trabalhou com Brülhart como ex-diretor da Autoridade de Informação Financeira do Vaticano, agora conhecida como Autoridade de Supervisão e Informação Financeira.

Mas o documento de indiciamento detalhando a extensa investigação de dois anos do Vaticano sobre o modo como a Secretaria de Estado do Vaticano usou mais de 200 milhões de dólares [1 bilhão de reais] para financiar um projeto de desenvolvimento imobiliário em Londres pinta um retrato grave e complexo.

Durante anos, Becciu defendeu o acordo imobiliário em Londres e insistiu que não havia nada de errado com a compra. Ele negou sistematicamente que os fundos da coleta do Óbolo de São Pedro tenham sido usados. O dinheiro, disse ele, veio de um fundo da Secretaria de Estado.

“Eu quero negar isso, porque nós não usamos esse dinheiro”, disse o cardeal durante a apresentação de um livro em fevereiro de 2020. “O Óbolo de São Pedro não foi afetado. Foi feito um investimento em um imóvel. Era uma ocasião boa e oportuna, pela qual muitas pessoas nos invejam hoje.”

No entanto, de acordo com o indiciamento de 488 páginas visto pelo Catholic News Service, fundos no valor de cerca de 200,5 milhões de dólares mantidos em contas bancárias do Credit Suisse de propriedade da Secretaria de Estado foram transferidos para o Athena Capital Global Opportunities, um fundo de investimento com sede em Luxemburgo de propriedade de Raffaele Mincione, que também foi indiciado.

O investimento, afirma a acusação, “foi feito com recursos do Óbolo de São Pedro”.

Mincione, um financista italiano que mora em Londres e que era dono da propriedade de Londres, é acusado pelo Vaticano de peculato, fraude, abuso de poder, desvio de fundos e lavagem de dinheiro.

Segundo a investigação do Vaticano, o dinheiro destinava-se originalmente a “subsidiar uma operação no setor petrolífero em Angola, patrocinada por um empresário local, Antonio Mosquito, que foi apresentado ao ambiente vaticano” pelo então arcebispo Becciu. Os dois se conheceram quando o prelado italiano atuou como núncio apostólico em Angola de 2001 a 2009.

Entretanto, quando o negócio fracassou, o dinheiro foi usado para investir na propriedade de Mincione em Londres com Gianluigi Torzi, um corretor italiano que atuou como intermediário no negócio de desenvolvimento. Torzi enfrenta várias acusações, incluindo a extorsão de 17 milhões de dólares [89 milhões de reais] do Vaticano como pagamento pelo seu papel na mediação do negócio.

O indiciamento também afirma que o Mons. Alberto Perlasca, ex-chefe do escritório administrativo da Secretaria de Estado do Vaticano, forneceu aos promotores uma reconstrução dos eventos que levou ao investimento imobiliário em Londres.

Perlasca inicialmente foi visto como um possível suspeito depois que a polícia vaticana apreendeu documentos, computadores e até disquetes de sua casa e do seu escritório em 2020. No entanto, o relatório afirma que ele pediu para falar com os investigadores.

Em agosto de 2020, disse o relatório, Perlasca prestou o seu depoimento e ofereceu aos investigadores “uma contribuição preciosa para a reconstrução de alguns momentos centrais relacionados ao caso da propriedade de Londres”.

Além disso, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado vaticano, e o arcebispo Edgar Peña Parra, que atua como “sostituto”, o número 3 na Secretaria de Estado, não são citados como réus no processo, apesar do fato de ambos, assim como Perlasca, terem aprovado várias etapas importantes no negócio fracassado.

De acordo com um resumo do caso pelo Vatican News publicado no dia 3 de julho, “nem o Mons. Perlasca, que assinou o Contrato de Compra e Venda de Ações, nem os seus superiores, o substituto (arcebispo) Edgar Peña Parra e sobretudo o cardeal Pietro Parolin, haviam sido efetivamente informados nem estavam plenamente conscientes dos efeitos jurídicos que surgiriam a partir das diversas categorias de ações”.

Falando com jornalistas em Estrasburgo, na França, no dia 4 de julho, Parolin disse que, neste caso, a Secretaria de Estado “é a vítima” e expressou a sua disposição de testemunhar no julgamento, se solicitado.

“Como instituição, acreditamos que fomos prejudicados por tudo o que aconteceu”, disse o cardeal aos jornalistas. “Temos que defender a nossa posição e a nossa moralidade”, mas também “retomar a posse do dinheiro”.

“Se eles disserem: ‘Você é responsável por tudo o que aconteceu’, sem dúvida eu terei coisas a dizer e respostas a dar”, disse ele, segundo o La Croix, o jornal francês católico diário.

 

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