“Aquele prédio vale ouro”. Assim, o grupo do cardeal Becciu tentou enganar os promotores

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06 Julho 2021

 

Embaralhar as cartas. Enganar os magistrados. Porque os "porcos" - assim chamados pelo cardeal Angelo Becciu - teriam que voltar atrás em tudo. A história na história da incrível fraude contra o Vaticano que convenceu o Tribunal da Santa Sé a indiciar dez pessoas, incluindo o próprio cardeal e vários funcionários da Secretaria de Estado, é toda uma rocambolesca tentativa de despiste que foi engendrada na mente de Becciu, valeu-se das habilidades de negociação de Raffaele MincioneGianluigi Torzi (os financistas indiciados) e encontrou um apoio no meio berlusconiano, onde velhos conhecidos da política italiana ressurgem como fungos após uma longa chuvarada, começando pelos ex-ministros Giulio Tremonti e Franco Frattini até o diplomata, o ex-embaixador da Itália nos EUA, Giovanni Castellaneta.

 

A reportagem é de Daniele Autieri, publicada por La Repubblica, 05-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

As origens do despistamento

 

O fim, nesta história, coincide com o início. No início de maio de 2020, a investigação está em um ponto de virada e os magistrados do Vaticano convocam Gianluigi Torzi, o homem que supostamente teria extorquido 15 milhões de euros do Vaticano para vender o controle acionário da empresa proprietária do prédio de Londres. O advogado de Torzi responde pedindo o adiamento do interrogatório. A motivação oficial (as limitações de deslocamentos impostas pela Covid-19) esconde um segredo: dar tempo para que a operação de despiste possa ser concluída com sucesso. É neste contexto que Becciu entra no jogo e se alia a Mincione e Torzi para que fossem entregues à Secretaria de Estado duas ofertas de compra do prédio de Londres, produzidas artificialmente para demonstrar que o valor do imóvel ultrapassa os 300 milhões de euros.

A intenção é desmantelar a tese do Tribunal que demonstra a enorme perda de dinheiro com a compra de um edifício no valor de 170 milhões de euros e onerado por mais de 124 milhões em dívidas a bancos. Em questão de dias, entre 11 e 30 de maio, chegam as duas propostas: a primeira da empresa londrina Fenton Whelan, que reconhece um valor entre 275 e 300 milhões de libras para o prédio; a segunda do grupo imobiliário Bizzi Partners Development, por um valor que varia entre 315 e 330 milhões de libras (384 milhões de euros).

 

A chegada dos berlusconianos

 

A oferta da segunda empresa foi apresentada, durante um encontro realizado no dia 30 de maio na Secretaria de Estado, por Giancarlo Innocenzi Botti, ex-colaborador de Silvio Berlusconi, deputado da Forza Itália e ex-subsecretário do Ministério das Comunicações e do diplomata Giovanni Castellaneta.

A Gendarmaria do Vaticano, junto com a Guarda de Finanças de Roma, analisa a fundo as empresas e reconstrói uma série de entrelaçamentos esclarecedores. O primeiro é que tanto Innocenzi Botti como Castellaneta (os promotores da segunda oferta) são membros do conselho consultivo da empresa Jci Capital Limited de Gianluigi Torzi. Não só isso. A JCI é uma daquelas miscelâneas corporativas onde há espaço para todos, desde que estejam dispostos a fazer negócios. Lá dentro também estão presentes Giulio Tremonti, Franco Frattini e o presidente da Cruz Vermelha italiana, Francesco Rocca.

 

O "blefe sensacional"

 

Um passo de cada vez, os investigadores do Vaticano reconstroem o que é definido como "um blefe sensacional para tentar iniciar uma negociação que deveria ter demonstrado a falta de fundamentações da iniciativa deste gabinete”. As análises realizadas durante a fase de investigação sobre as intrincadas relações empresariais dos grupos que apresentaram as duas ofertas mostram que, na verdade, por trás das duas fachadas se esconde Raffaele Mincione (o dominus do Operação da Sloane Avenue) e Gianluigi Torzi.

É o próprio Torzi, interrogado em 14 de junho de 2020, que acrescenta uma nova circunstância: a entrada como mediador de um personagem conhecido nos círculos vaticanos, Marco Simeon, empresário, especialista em relações institucionais, que por vinte anos teve cargos da Santa Sé. “Simeon - declara Torzi - havia alertado a Innocenzi Botti que uma eventual venda do prédio ajudaria a Secretaria de Estado a resolver o problema da Sloan Avenue”. Segundo os investigadores, Simeon seria o "inspirador" da manobra e Angelo Becciu "o realizador". Circunstância confirmada por um chat no Signal no qual Simeon escreve a Innocenzi Botti: “Falei com o cardeal, agora preparo duas minutas de carta. Se você aprovar, as envio para ele que as abençoe. Em silêncio absoluto, precisamos vencer com rapidez, porque uma guerra interna está em andamento”.

 

Cecilia Marogna e o cardeal

 

Os "compadres" estão convencidos de que a operação de despiste vai dar certo, tanto que o próprio Becciu - mesmo sabendo da investigação - continua mantendo vínculos muito próximos com Cecilia Marogna, que se apresenta como especialista em geopolítica, acusada de ter utilizado para fins pessoais 575 mil euros da Secretaria de Estado do Vaticano. Em 16 de setembro de 2020, a Gendarmaria do Vaticano documenta a entrada do Marogna no Palazzo del Sant'Uffizio, onde fica a residência particular de Angelo Becciu e onde a mulher passa a noite toda.

A sensação é que a operação de despiste está a um passo do sucesso. Innocenzi Botti escreve a Torzi uma mensagem que é o prelúdio de um brinde coletivo: “Acabou Cda, depois eu lhe conto. Parece positivo para mim. Exceto pela aprovação do homem vestido de branco”. A história nos ensina que o "homem vestido de branco" explodiu o banco.

 

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