França. Pedocriminalidade: a Igreja precisa de um verdadeiro 'aggiornamento', afirma editorial do Le Monde

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06 Outubro 2021

 

O relatório da comissão presidida por Jean-Marc Sauvé faz um balanço contundente das violências sexuais cometidas por membros do clero. Seu “caráter sistêmico” põe em causa as próprias estruturas da instituição, seu funcionamento, mas também alguns dos seus dogmas.

Publicamos aqui o editorial do jornal francês Le Monde, 05-10-2021. A tradução é de André Langer.

 

Eis o texto.

 

Durante muito tempo, a imagem do padre tocando crianças foi um clichê, um boato, algo entre o segredo e a piada obscena. Desde que a palavra das vítimas começou a se fazer ouvir na década de 2010, na França, como em muitos outros países, sabemos que essas agressões sexuais foram numerosas, devastadoras e amplamente acobertadas pela hierarquia católica.

Mas o relatório da comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja, tornado público nesta terça-feira, 05 de outubro, dá a essa violência outra dimensão: a de um escândalo em massa envolvendo não apenas o funcionamento das instituições da maior denominação religiosa francesa, mas alguns de seus dogmas. Dois números resumem essa contundente constatação: 216 mil pessoas hoje maiores de idade foram abusadas por padres ou religiosos desde 1950, quando eram menores; cerca de 3 mil clérigos se comportaram como pedocriminosos.

Os resultados são ainda mais impactantes por terem sido elaborados sobre bases sólidas, ao final de um meticuloso trabalho de quase três anos que combinou pesquisa nos arquivos, escuta das vítimas e expertise tanto em direito canônico quanto em ciências sociais e em psicopsiquiatria. Embora encomendado e financiado pelos bispos e congregações religiosas, o relatório da comissão presidida por Jean-Marc Sauvé, ex-vice-presidente do Conselho de Estado, não é suspeito de complacência e fornece uma visão geral dos abusos sexuais na Igreja da França, sem equivalente no exterior. Estabelece que a Igreja Católica é, de longe, o primeiro lugar de socialização onde, na França, tais delitos e crimes foram cometidos, com exceção da família.

 

Criar mais espaço para as mulheres

 

Toda a questão hoje é saber, para além do choque que representa a enxurrada de terríveis testemunhos sobre segredos guardados durante décadas e as vidas marcadas para sempre, quais são os princípios da ocultação e da não denúncia das infrações penais. A comissão Sauvé oferece pistas úteis: a Igreja deve reconhecer sua responsabilidade como instituição, iniciar um mecanismo de “reparação financeira” e modificar sua maneira de governar, seus processos de formação e de prevenção. Ela recomenda que a justiça criminal prevaleça sobre o direito canônico, que ignora as vítimas, questione a “excessiva sacralização da pessoa do sacerdote” e abra mais espaço para as mulheres.

Mas será que essas medidas, mínimas, podem ser suficientes para que a Igreja recupere a confiança perdida e pretenda fazer mais uma vez ouvir a sua voz na sociedade? O fato de quase todos os abusos sexuais constatados terem sido cometidos por homens questiona o lugar das mulheres na instituição. Questiona as próprias estruturas da Igreja que, fundada na dominação masculina e recusando-se a permitir que as mulheres dispensem os sacramentos, questiona um princípio fundamental das sociedades modernas: a igualdade entre homens e mulheres.

O Papa Francisco, ao nomear algumas mulheres para postos de responsabilidade no Vaticano e permitir que as mulheres desempenhem um papel na celebração litúrgica, está mostrando o caminho. Mas será necessário bem mais do que este primeiro passo rumo a um aggiornamento para que a Igreja supere o trauma de trazer à luz esses abusos sexuais, cujo caráter “massivo” e “sistêmico” não levanta apenas a questão da responsabilidade da instituição em relação à sociedade, mas também aquela do celibato imposto aos padres e o lugar que ela reserva às mulheres.

 

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