“O líquido amniótico do filantrocapitalismo é a desigualdade.” Entrevista com Nicoletta Dentico

Foto: Wikimedia Commons

23 Novembro 2020

Com as suas fundações, elas dominam o mundo. São cada vez mais poderosas as fundações dos “filantropos” modernos, mas seria melhor defini-los como “filantrocapitalistas”. Seus nomes? São os habituais Gates, Tuner, Zuckerberg. Sem esquecer os Rockefellers. Assim, o “turbocapitalismo” encontra outros espaços de dominação.

 

Mas quais são os novos âmbitos em que eles exercem o seu poder de influência política e social? Conversamos sobre isso com Nicoletta Dentico, jornalista investigativa, autora de um livro muito documentado que acaba de chegar às livrarias: “Ricchi e buoni? Le trame oscure del filantrocapitalismo” [Ricos e bons? As tramas obscuras do filantrocapitalismo] (Ed. Emi, 288 páginas).

 

Ricchi e buoni? Le trame oscure del filantrocapitalismo

 

Nicoletta Dentico é especialista em cooperação internacional e direitos humanos. Ela coordenou na Itália a Campanha pela Proibição das Minas, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1997, e dirigiu na Itália a organização Médicos Sem Fronteiras, com um papel importante no lançamento da Campanha pelo Acesso aos Medicamentos Essenciais.

 

Cofundadora do Observatório Italiano sobre a Saúde Global (OISG), ela trabalhou em Genebra na Drugs for Neglected Diseases Initiative e depois na Organização Mundial da Saúde. De 2013 a 2019, foi conselheira de administração da Banca Popolare Etica e vice-presidente da Fondazione Finanza Etica. Ela dirige o programa de saúde global da Society for International Development (Sid).

 

A reportagem é de Paolo Mieli, publicada por Confini, 22-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Seu livro é realmente muito interessante. É uma autêntica radiografia do turbocapitalismo contemporâneo. De fato, sob a “filantropia”, há um projeto econômico-cultural preciso e, portanto, também político... É isso mesmo?

Eu distinguiria entre a filantropia tout court e o filantrocapitalismo, que é o tipo de estratégia filantrópica que o meu livro quer iluminar. O que é o filantrocapitalismo? É um modelo operacional com o qual os ricos empresários do mundo industrializado conseguem entrelaçar a sua ação empresarial com a ação humanitária, ou seja, a idealização de uma “ação do bem”, digamos assim, que basicamente serve para lubrificar as engrenagens das empresas, na sua maioria indústrias multinacionais, para favorecer a sua progressiva penetração e influência nos locais da decisão política, em nível internacional.

Na lógica do filantrocapitalismo, desaparece a linha divisória entre mundo com e sem fins lucrativos ou, melhor, a luta contra a pobreza se torna uma abordagem nova e eficaz para assegurar a maximização do lucro. Os ricos filantrocapitalistas estão convencidos, de fato, de que o mercado é a única solução para os desafios do planeta e para as exigências de melhoria social que dizem respeito a grande parte da população mundial. Como vencedores da globalização, em uma ordem econômica que divide o mundo cada vez mais entre submersos e salvos, os ricos filantropos passaram a gerir até mesmo os pobres com trajetórias que quase nunca afetam – pelo contrário, às vezes até reforçam – as dinâmicas de injustiça que governam o mundo. Mas o poder do seu dinheiro tem uma capacidade de sedução sem igual, mesmo em relação à política.

Vejamos as origens do fenômeno. Sabemos que, em si mesma, a “filantropia” expressa “amor pela humanidade”. Mas é no contexto estadunidense do fim do século XIX e início do século XX, com Carnegie e Rockefeller, que a filantropia realiza a sua mutação “genética”: torna-se “amor” calculado. Como a “filantropia” deles se desenvolve?

 

O costume do “dom” como mecanismo social de relações remonta aos primórdios da história humana, como nos explicou o sociólogo francês Marcel Mauss, e é uma ação social que investe sobre muitos âmbitos da vida, desde o afetivo e religioso ao econômico. O nascimento da filantropia organizada, por sua vez, desde as primeiras fundações que estruturam e profissionalizam a beneficência, remonta à primeira fase da industrialização nos Estados Unidos, que coincide com a construção de uma nação de natureza profundamente oligárquica. O novo capitalismo industrial do fim do século XIX favorece o repentino desenvolvimento de grandes fortunas ligadas à construção de ferrovias e estradas, à extração de petróleo, ao nascimento da indústria do aço. Os Rockefellers e os Carnegies – apesar da diferença das suas histórias – são os dois grandes plutocratas pioneiros.

Enriquecidos graças aos seus monopólios industriais – nos setores de petróleo (Standard Oil) e do aço (Carnegie Steel Company) respectivamente – os dois magnatas decidiram pôr em campo uma parte das suas fortunas para compensar a imagem de empresários inescrupulosos, mas, acima de tudo, para neutralizar os impulsos de renovação social que pressionavam as classes sociais exploradas e mal pagas. Em suma, uma nova forma de bipolaridade entre o capitalismo desenfreado em busca de lucros e a beneficência paternalista com dinheiro acumulado impiedosamente. “O Evangelho da Riqueza”, o livro de Carnegie de 1889 que explica essa estratégia, é uma verdadeira obra-prima nesse sentido e também serviria para entender os filantropos mais modernos.

 

Voltando ao filantrocapitalismo, você diz que na base está o otimismo do “win-win”. O que isso significa?

O otimismo do “win-win” [“ganha-ganha”, todos ganham] deriva da convicção de que o método empresarial é o melhor veículo para a melhoria humana. Com os desembolsos e sobretudo os investimentos em favor dos pobres, é possível que as fundações filantrópicas aterrissem suas empresas de referência em países que ainda não foram colonizados e, portanto, são promissores, graças a muitos incentivos fiscais ou até mesmo com recursos públicos, quando se trata de programas internacional de desenvolvimento. Ganham os pobres e ganham os ricos. A lógica do “ganha-ganha” é simples: se os pobres forem transformados em consumidores, não serão mais marginalizados, porque, no fim, também estarão no mercado. E, como clientes, podem reconquistar a sua dignidade.

 

Uma das frases mais importantes do seu livro é: “A desigualdade é o líquido amniótico do filantrocapitalismo”. Esta, na minha opinião, é a chave de leitura de todo o livro. Afinal, a obra do filantrocapitalismo é a perpetuação das grandes diferenças sociais. É isso mesmo?

Certo. Essa forma de filantropia estratégica, e eu diria hegemônica, é ao mesmo tempo um efeito da desregulamentação da economia e das finanças e, portanto, um sintoma de um sistema capitalista geralmente inadequado e indisponível para redistribuir as riquezas, por um lado. Mas é também uma garantia de manutenção do poder financeiro, em um campo sem regras. Sabemos que o dinheiro fala. Sabemos que a concentração da riqueza nas mãos de pouquíssimas pessoas – um fenômeno que atingiu níveis nunca antes vistos na história – implica a afirmação de um poder capaz de suplantar até mesmo a esfera política. Além disso, não esqueçamos que a ação filantrópica, especialmente quando se fala de grandes fundações bilionárias, é uma das mais escamoteadoras de redução de impostos mais robustos que se possa imaginar. E, portanto, o paradoxo é que são os cidadãos que pagam os impostos que subsidiam os filantropos sem ter uma palavra a dizer sobre as suas escolhas, em vez de destinar esse dinheiro para o fisco geral dos Estados.

 

Citemos alguns nomes: Gates, Turner, os Clintons, Zuckerberg, Soros etc. Eles dizem respeito aos EUA e à Europa?

Na verdade, tenho me ocupado principalmente de filantropos estadunidenses, porque é lá que o fenômeno do filantrocapitalismo se afirmou com maior vigor e capacidade de ramificação nos últimos 20 anos. Mas o fenômeno filantrópico está se espalhando por toda a parte. Contam-se mais de 200.000 fundações no mundo, 85.000 das quais estão estabelecidas na Europa. Algumas das realidades mais consagradas do filantrocapitalismo com tempero europeu são as das fundações empresariais (corporate foundations), que nasceram nos últimos anos, com base nos Objetivos do Milênio e agora com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Estou pensando na Fundação Stiching INGKA, criada em 1982 por Ingvar Kamprad, o bilionário sueco que fundou a Ikea; na Fundação Nestlé, que também abriu seu próprio departamento de saúde (Nestlé Health Service); o Welcome Trust na Grã-Bretanha, que lida com pesquisas científicas; o Robert Bosch Stiftung; a Fundação Vodafone, ramificada em quase todos os países europeus.

 

Você fala muito sobre Gates e um pouco sobre Soros. Em que Soros se diferencia dos outros?

Soros não segue uma agenda filantrocapitalista no sentido técnico do termo. George Soros, com a sua Open Society Foundation, busca uma agenda de promoção dos direitos civis, não participa dos processos internacionais das Nações Unidas, e a sua filantropia não traz consigo a interação estrutural com o setor privado, como fazem Gates, Zuckenberg, Clinton e outros. Soros é um filantropo iconoclasta, e não é à toa que os setores que ele mais apoia dizem respeito aos fenômenos migratórios e a questões sobre a propriedade intelectual. Em suma, Soros é outra história!

 

Com o poder do dinheiro, eles conseguem condicionar Estados e organizações internacionais (ONU). Um exemplo é a presença tentacular da Fundação Gates. Aqui também você mostrou seu faro... Onde se desenvolve o seu projeto filantrópico? Existe algum conflito de interesse com a Microsoft?

Pegando emprestado de Umberto Eco, poderíamos definir Bill Gates como o Ur-filantropo. O mais icônico, o mais rico, o mais poderoso, o mais intrusivo. Mesmo quando a OCDE faz o mapeamento da filantropia, ela deixa Gates de lado, porque a história da sua fundação é um capítulo à parte. Gates desenvolve o seu projeto filantrópico em todos os âmbitos da vida humana. A sua jornada começou no campo da saúde, e eu me confrontei com a sua fundação nesse âmbito. Mas ele se ocupa com nutrição e agricultura com o projeto Revolução Verde na África, do qual eu falo no meu livro. Junto com a Fundação Rockefeller, se ocupa com mudanças climáticas, com modelos de inclusão financeira, de educação (especialmente nos Estados Unidos), com pesquisa científica, com políticas no campo da energia. É praticamente impossível escapar do seu raio de ação. A história da Microsoft e da sua fundação caminham de mãos dadas há algum tempo. Especialmente no campo da agricultura na África, esse entrelaçamento se fortaleceu muito, como eu tento contar no meu livro. O impulso à digitalização que a Covid-19 impôs ao mundo só vai acelerar e fortalecer os fenômenos de interação entre as atividades da Microsoft e as da Fundação Gates.

 

Continuamos falando sobre Gates. Sabemos que ele está muito interessado na pesquisa sobre a vacina anti-Covid-19. Como as coisas se entrelaçam?

Em 2015, após o surto de Ebola na África, Bill Gates reuniu importantes expoentes da comunidade científica em Seattle para a definição de cenários de saúde. Naquela ocasião, foi anunciado que um patógeno muito contagioso chegaria mais cedo ou mais tarde, e era apenas uma questão de tempo. Desde aquele momento, a sua fundação fortaleceu os investimentos nas indústrias farmacêutica e especialmente de biotecnologia. Nos Estados Unidos, na Europa, na China. Assim, no momento da chegada da Covid-19, Gates provavelmente era o homem mais bem preparado para organizar a rede internacional de indústrias das quais é um grande investidor. Até porque foi Gates também quem criou as entidades público-privadas mais credenciadas até agora na orquestração da pesquisa e da produção de vacinas no mundo: a Global Alliance for Vaccine Immunization (GAVI) e a Coalition for Epidemic Preparedness Innovation (CEPI). Portanto, podemos dizer que ele é o fazedor de reis do jogo que diz respeito às vacinas e à sua distribuição nos países do Sul do mundo.

 

Aprofundemos um pouco mais a história das vacinas anti-Covid-19. As grandes multinacionais, como a Pfizer, por exemplo, estão envolvidas. Uma das batalhas é a da vacina como bem comum. Não será fácil para os Estados imporem esse status. O que você acha?

Certamente, o jogo das vacinas depende de muitíssimos projetos de pesquisa – nunca se viram tantos em um único período de tempo –, mas de poucas realidades industriais. Não devemos esquecer que, antes da Covid-19, 85% da produção de vacinas dependia de quatro a cinco empresas no máximo. Os governos ocidentais financiaram a pesquisa da vacina com enormes subsídios públicos (a Comunidade Europeia com 16 bilhões de euros, os Estados Unidos com 11 bilhões de dólares), mas sem impor qualquer condição para a indústria farmacêutica quanto a preços, estratégias de acesso, transparência dos estudos clínicos. E, enquanto os líderes políticos continuam falando sobre a vacina como bem comum, as empresas patenteiam as inovações de know-how e produtos descobertos graças também a um financiamento público sem precedentes.

A emergência sanitária produzida pelo novo coronavírus exige – como nunca antes – condições de acesso rápido a todos os instrumentos médicos, incluindo produtos farmacêuticos como diagnósticos, vacinas e medicamentos, para a prevenção do contágio e o tratamento das pessoas doentes. A persistente escassez de produtos médicos que afeta sobretudo – mas não apenas – os países de baixa e média renda coloca em sério perigo a vida dos trabalhadores da saúde no mundo, determina a morte de um número significativo de trabalhadores essenciais, prolonga a pandemia.

Por isso, nestes dias, estamos comprometidos com uma campanha de coleta de assinaturas que pede ao governo italiano que apoie o pedido da Índia e da África do Sul junto à Organização Mundial do Comércio para suspender todos os direitos de propriedade intelectual em matéria de produtos farmacêuticos e médicos, durante o pandemia da Covid-19. Será uma batalha muito dura. As empresas privadas e os governos ocidentais se opõem e não querem ouvir histórias, mas mover as águas nesse âmbito poderia abrir a vau para o “novo normal” que teremos que construir assim que o contágio acabar.

 

Voltemos ao filantrocapitalismo. Qual é a sua relação com a democracia?

O filantrocapitalismo, por natureza e por cultura, não se ocupa com a democracia, no máximo usa o poder do dinheiro para desviá-la e neutralizá-la. As histórias que contei no livro dizem isso de forma inequívoca. Os políticos estadunidenses do fim do século XIX entenderam bem a relação de tensão e de contraste entre democracia e filantropia. É uma pena que as classes políticas do mundo contemporâneo não tenham a mesma consciência de si mesmas e da sua responsabilidade em relação às constituições democráticas.

 

Para os soberanistas, Gates e Soros são os grandes inimigos. No entanto, eles também, os soberanistas, têm suas próprias fundações. É isso?

Certamente, os soberanistas também têm as suas fundações e as suas fileiras filantrópicas que os sustentam. Nas suas encarnações contemporâneas, as fundações respondem às vezes quase exclusivamente ao exercício do poder. Por exemplo, ouvimos investigações jornalísticas sobre os bilhões de euros que chegaram aos soberanistas europeus a partir de uma conjuntura de doações de fundações de extração rigidamente conservadora estadunidense, em aliança com financiamentos de bilionários russos próximos a Putin, ambos interessados em erodir o estado de direito no nosso continente. Fundações que também encontraram apoio em círculos muito conservadores da Igreja Católica e que, apenas para ficar nas nossas vizinhanças, permitiram que Steve Bannon exercesse a sua ação de influência estratégica a partir de uma abadia no centro da Itália. Coisas do outro mundo!

 

Chegamos ao fim da nossa conversa. É possível uma verdadeira filantropia?

Acho que a verdadeira filantropia, ou seja, em sentido etimológico, o único verdadeiro amor pela humanidade é aquele que passa pelo caminho da igualdade, da liberdade e da democracia. É aquele que reconhece a mesma dignidade a todos e a todos.

 

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