O escândalo econômico do dom

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05 Dezembro 2011

 

O horizonte do gratuito parece inseparável do da utopia, e a utopia tende inevitavelmente a evocar cenários revolucionários.

A análise é do cientista social e jornalista italiano Carlo Formenti, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 04-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Natal se aproxima, e o pesadelo da corrida pelos presentes de aproxima. Neste ano, o que vai contribuir para torná-la ainda mais angustiante são os bolsos esvaziados pela crise. No entanto, mesmo em tempos de vacas magras, o verdadeiro problema não é dinheiro, mas sim aquela obrigação à reciprocidade que nos induz todas as vezes a adivinhar de quem poderemos receber presentes, para não nos encontrarmos na penosa condição do devedor (talvez por termos recebido algo do qual abriríamos mão de bom grado).

Sobre a ambiguidade do dom, sobre o fundo de agressividade que o ato de doar inevitavelmente esconde, antropólogos, filósofos, psicólogos e sociólogos derramaram rios de tinta (veja-se, dentre outros, o recente lançamento da coleção de ensaios Oltre la società degli individui. Teoria ed etica del dono, editora Bollati Boringhieri, organizada por Francesca Brezzi e Maria Teresa Russo), convergindo em um conceito amplamente compartilhado, isto é, que o doador adquire cada vez mais poder com relação ao donatário: na melhor das hipóteses, o poder de forçá-lo à reciprocidade; na pior, que se realiza quando o donatário não é capaz de retribuir, o de colocá-lo em um estado permanente de sujeição.

Essa ambivalência não impede que o tema do dom e das relações humanas "gratuitas" assuma um peso crescente no debate econômico, político e cultural sobre possíveis alternativas ao modelo "mercadista", amplamente hegemônico nas últimas décadas e hoje objeto de duras críticas pela trágica crise em que ele mergulhou o mundo.

O que favoreceu a reabertura de um horizonte utópico, que o colapso do socialismo real parecia ter definitivamente encerrado, foram, dentre outros, dois fatores: de um lado, aquela cultura do gratuito, que une a grande maioria dos bilhões de usuários da Rede; de outro, o compromisso da Igreja Católica no fronte da "economia social de mercado", conceito que encontrou uma formulação particularmente eficaz na encíclica Caritas in veritate de Bento XVI.

As práticas fundamentadas na cooperação espontânea e gratuita entre comunidades e indivíduos interconectados através da internet – desenvolvedores de software livre, blogueiros, redatores da Wikipédia, movimentos políticos e sociais etc. – confirmaram uma verdade que os antropólogos tinham intuído há muito tempo: o dom não conota necessariamente um espaço "outro" com relação à economia, um parêntese absoluto do interesse individual. A novidade consiste no fato de que, enquanto os fundadores da antropologia como Marcel Mauss concebiam o dom como uma prefiguração arcaica da troca econômica, os teóricos do dom na Rede defendem que, sobre as inéditas formas de reciprocidade "gratuita" mediadas pela internet, é possível fundar uma nova economia capaz de produzir inovação e valor em ritmos muito mais elevados do que a tradicional, evitando, ao mesmo tempo, sacrificar no altar do lucro os princípios e os valores da solidariedade e da reciprocidade humanas.

A atenção da Igreja a essa abordagem é testemunhada pelos muitos escritos que um estudioso como o  Pe. Antonio Spadaro, há pouco tempo na direção da revista Civiltà Cattolica, dedicou ao assunto. Mas o ponto de vista católico sobre o tema brota amplamente do horizonte cultural traçado pela chamada "ética hacker": na encíclica acima citada, por exemplo, é contestada a visão smithiana do mercado como única instituição capaz de garantir democracia e liberdade, enquanto se insiste na necessidade de abrir espaço para a lógica do dom e da reciprocidade em uma economia de mercado que, onde abandonada aos seus automatismos, corre o risco de destruir a si mesma, como a crise em curso está demonstrando. Tomar a "terceira via" de uma economia social de mercado poderia ajudar o mundo a superar as atuais dificuldades através do desenvolvimento de um novo welfare, projetado para além da alternativa entre estatismo e mercadismo.

Quem objeta essas visões, entretanto, não são apenas os teóricos integralistas do livre mercado. No plano filosófico, são repropostas as argumentações sobre a "desmedida" do dom, sobre a sua natureza "escandalosa", irredutível a qualquer racionalização lógica: da concepção do dom como dissipação energética, perda, pura dépense, já defendida por Georges Bataille, à tese de Jacques Derrida sobre a "impossibilidade" do dom, sobre o fato de que dom, para ser "puro", isto é, para se isentar da suspeita de uma implícita expectativa de troca, deveria se autoanular enquanto tal, tornar-se invisível. Para quem assume esse ponto de vista, toda tentativa de "domesticar" o dom, de neutralizar a sua natureza escandalosa, está fadada ao fracasso.

As críticas político-sociais, por outro lado, devem tanto aos teóricos da economia do dom na Rede como aos da economia social de mercado a intenção de expurgar todo valor subversivo e revolucionário da prática do gratuito: os primeiros porque visam demonstrar a sua absoluta compatibilidade com os modelos da New Economy; os segundos porque negam a existência de uma relação de antagonismo entre relações de reciprocidade e busca do lucro.

Quem tem razão? As críticas liberais ao gratuito espelham uma antiga fobia com relação à economia informal: Adam Smith via nas relações impessoais de mercado o pressuposto da emancipação das relações de dependência pessoal ("não é da benevolência do açougueiro que eu devo esperar a solução das minhas necessidades"). Mas a objeção soa anacrônica em uma época em que, graças às novas tecnologias, as relações de gratuidade se despersonalizaram, por sua vez, estendendo-se para muito além das esferas da reciprocidade familiar ou da beneficência.

Mais convincente são as críticas sobre a "não domesticabilidade": a incompatibilidade entre mercado e dom parece ser confirmada pela rapidez com que o primeiro soube submeter à sua própria lógica a cultura da internet da partilha e da cooperação gratuitas; a hipótese da "terceira via" formulada pela Igreja parece ser, portanto, dificilmente praticável. Em conclusão: o horizonte do gratuito parece inseparável do da utopia, e a utopia tende inevitavelmente a evocar cenários revolucionários.

 

Oltre la società degli individui. Teoria ed etica del dono é uma coletânea de artigos recentemente publicada pela Bollati Boringhieri (220 páginas). A editora Il Saggiatore acaba de publicar Il dono. Storia dimenticata di un miracolo americano, de Ted Gup (tradução de Clementina Liuzzi e Daniel Palmer, 316 páginas): uma viagem autobiográfica pela grande depressão norte-americana.

 

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