“Devemos alcançar um equilíbrio entre mercado, estado e sociedade civil”, avalia Joseph Stiglitz

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12 Novembro 2020

No último domingo, dia 8 de novembro, o Festival Puerto Ideas encerrou sua décima edição com um entrevistado de luxo: Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, economista e professor na Universidade Columbia. De Nova York, Stiglitz se conectou por meio de uma videochamada com a jornalista chilena Consuelo Saavedra, que de Londres dirigiu a conversa que girou em torno do mais recente livro do economista - “Povo, poder e lucro: Capitalismo progressista para uma era de descontentamento” -, a recuperação econômica em uma era pós-pandemia, e as medidas em relação ao mercado à luz das últimas eleições nos Estados Unidos.

A reportagem é de Mónica Garrido, publicada por La Terceira, 10-11-2020. A tradução é do Cepat.

Pandemia e recessão econômica

“Não haverá recuperação econômica enquanto não nos recuperarmos da pandemia”, sentencia Stiglitz, quando questionado a respeito dos efeitos do coronavírus no mercado global. “Penso que controlar a pandemia é a prioridade nacional. E isso significa testar e rastrear, criar normas sobre o uso de máscaras e distância social... muitas coisas que nos Estados Unidos não fizemos bem. Outros países agiram melhor. Os países que controlaram a pandemia, muitos na Ásia, já estão se recuperando economicamente, sendo assim, isso é a primeira coisa”, disse o renomado economista.

“A segunda é que muitos países, incluindo os Estados Unidos, agiram corretamente ao gastar muito dinheiro para diminuir os números da pandemia. Grande parte dos países construiu meia ponte para o mundo pós-pandemia. Mas nos Estados Unidos, embora isso tenha começado a ser feito, se abandonou no meio caminho. Ao menos os republicanos deixaram de construir a ponte. E como você sabe, meia ponte é um caminho para lugar algum. Você precisa construir a ponte completa. Caso contrário, haverá muito sofrimento, a segunda onda será pior, os negócios irão à falência, os balanços das empresas serão afetados, assim como a moradia, o que tornará a recuperação difícil”, antecipa quem já foi Presidente de Conselheiros Econômicos de Bill Clinton.

“Por isso, penso que a nossa prioridade deve ser gastar o que for preciso gastar, planejar melhor. A ênfase deve estar, em terceiro lugar – e é o slogan da campanha de Biden -, em reconstruir para que fique melhor. Descobrimos que há muitas coisas que não foram bem feitas. E na economia de 2020 tínhamos desigualdade, nossa economia não era resiliente, nem ecológica. Por isso, queremos que o dinheiro renda o dobro, o triplo ou quatro vezes mais do que rendeu, para que na medida em que nos ajude a nos recuperar da pandemia, favoreça a construção do caminho para uma economia pós-pandemia, que esteja em maior concordância com o que virá no mundo futuro”, acrescentou como diretrizes a serem aplicadas.

Consuelo Saavedra lhe perguntou, na sequência, pelos milhões de pessoas que não tem recursos suficientes para chegar ao fim do mês, versus os empresários que estão se esquivando e preferem não investir, considerando a incerteza econômica destes tempos.

“Chamamos isto de Comportamento precavido, quando em meio à Grande Depressão, o presidente Roosevelt disse algumas palavras famosas: A única coisa que devemos temer é o próprio medo. Nesta crise, temos que contar com algo além do próprio medo, que é o adoecer. E isso afeta tudo o que fizermos. Mas, além disso, existe a incerteza em relação ao que o governo possa fazer. Quanto mais incerteza existe, mais precauções tomamos. E o que acontece com as poupanças não tem precedentes.

Em geral, nos Estados Unidos a taxa de poupança é próxima a 0%, ou seja, 2-3%. Agora, temos 25%, e isso é a média, com aqueles de estratos mais baixos gastando tudo porque precisam sobreviver. Ou seja, aqueles que mais têm, realmente estão poupando, e como não estão gastando, a economia se fragiliza e dá origem a um círculo vicioso”, explicou Stiglitz.

Joseph Stiglitz menciona que um dos eixos centrais de seu livro, “Povo, poder e lucro”, é a importância da ciência. “A duração e impacto da recessão dependerá do que fizermos, refiro-me aos Estados Unidos e a outros países. Há um velho ditado. ‘Um pouco de prevenção equivale a muita cura’. Os economistas dizem o mesmo. Fala-se do efeito da histerese, ou seja, uma vez que você quebra não consegue retomar. Quando a doença terminar, demora um longo tempo para se recuperar, caso você atravesse certo limiar. Por isso, enfatizo que não se atravesse esse limiar. Mas nos Estados Unidos os republicanos dizem que não. Se não recebermos apoio suficiente agora, a recuperação exigirá muito mais”, expressou o Nobel de Economia.

Os efeitos? Segundo Stiglitz, serão acelerados muitos processos de mudança que já estavam em curso e alguns deles apresentarão dificuldades no caminho.

Por exemplo, as compras online tiveram um alto crescimento nestes meses. Assim como a robotização de certos trabalhos humanos. “Da mesma forma, aqueles que podem conduzir seus negócios pelo Zoom, ficarão bem, mas os que trabalham em outros setores enfrentarão dificuldades”.

Em relação à geopolítica, aponta que os países asiáticos que demonstraram melhor controle da pandemia, terão maior crescimento, como é o caso da China, Coreia do Sul, Vietnã e Taiwan. “A diferença entre o crescimento chinês e a recessão nos Estados Unidos será acentuada”, prevê.

Mas além da economia, outro aspecto que o preocupa é a democracia. “A vigilância ajuda a controlar o vírus, mas permite que os países com tendências autoritárias caiam em totalitarismos, e isso é preocupante. Especialmente em um mundo onde já existem muitas tendências autoritárias, como Bolsonaro, no Brasil, Trump, nos Estados Unidos, Modi, na Índia, Putin, na Rússia...”, avaliou.

“Não precisamos de regimes autoritários para controlar a pandemia. A Nova Zelândia está fazendo um trabalho fantástico. Quando há coesão social e confiança na ciência, os cidadãos confiam nos outros e se respeitam. Quando há boa liderança, há um mundo de diferença. Há um compromisso com a democracia”, explicou Stiglitz.

A era Trump e os efeitos no mercado

Após o triunfo de Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020, nos Estados Unidos, Trump deverá deixar o comando no dia 20 de janeiro de 2021, com isso, será possível deixar para trás as políticas econômicas que se instaurou em um país historicamente dividido entre democratas e republicanos.

“Está muito claro que há divisões muito profundas, quase em todas as dimensões, como a geográfica, que se nota nos mapas com as zonas azuis [democratas] e vermelhas [republicanos]. Os estados azuis tendem a estar na costa, nas zonas urbanas, ao passo que os vermelhos estão no interior, nas zonas rurais. Também há divisão entre mulheres. A maioria votou em Biden, e a maioria dos homens brancos votou em Trump. É uma divisão racial, étnica, relativa ao salário, educação...”, descreve o economista estadunidense.

“Em muitas dimensões, estas divisões nos acompanham há muito tempo. Mas Trump aprofundou estas divisões que, devido às eleições, adquirem maior relevância”, sentenciou, antes de afirmar que a administração do atual Presidente dos Estados Unidos foi deficiente.

“Você tem um presidente que fala em termos populistas. Vou ajudar os trabalhadores, vou dar voz aos silenciados. Reduziu impostos, o que significou um aumento de déficit de trilhões de dólares, muito dinheiro. Mas foi muito astuto em ocultá-lo, porque reduziu os impostos para as empresas e os milionários, que receberam grande parte do dinheiro. As pessoas mais pobres receberam muito pouco dinheiro, mas será cobrado delas novamente, retroativamente, até 2025”, disse Stiglitz, dando um exemplo concreto da divisão.

“Aumentou os impostos nos estados azuis, mais do que nos vermelhos. Isto é algo nunca antes visto. Uma política que beneficia uma parte do país à custa da outra. Mas, ao olhar os resultados, surtiu efeito. Os estados vermelhos o apoiaram mais e os azuis menos”, explicou, comentando os resultados refletidos nos votos contabilizados até aquele momento.

Stiglitz considera que, na realidade, a democracia estadunidense não é “uma pessoa, um voto”, como se prevê em uma democracia, mas, ao contrário, “um dólar, um voto”.

“As empresas dão dinheiro aos partidos com o objetivo de criar leis que beneficie seus interesses. [...] O que temos é uma regulamentação que aumenta a desigualdade econômica, mas depois essa desigualdade se traduz em poder político. Estamos em uma situação nos Estados Unidos em que temos uma minoria, não uma maioria, manipulando os políticos, sem reconhecer os direitos da maioria. [...] O sistema de representação está desvirtuado, opera com dinheiro do sistema para se fortalecer”, disse a respeito do sistema estadunidense.

“Ninguém se questiona: “De que maneira um processo político manipulado irá legislar contra a manipulação eleitoral?’. Temos uma agenda política horrível e é uma tendência nos Estados Unidos. A desconfiança em nossa Constituição e nossos processos democráticos”, acrescentou.

Citando o neoliberalismo que adquiriu popularidade nos anos 1980, destacou que – tanto democratas como republicanos – acreditaram que “apenas gerando crescimento econômico, todos estariam melhor”, mas avalia que não se fez muito para crescer em igualdade. “E como isto não ocorreu, as pessoas disseram: ‘prometeram que todos nós estaríamos melhor e erraram. Por que deveríamos confiar, agora?’”.

Ideias que são recorrentes em seus ensaios e livros publicados anteriormente. Em “O grande abismo: sociedades desiguais e o que podemos fazer sobre isso”, explica:

“As desigualdades começaram a aumentar nos Estados Unidos há 30 anos, ao mesmo tempo dos cortes de impostos para os ricos e o relaxamento das regras do setor financeiro. Não é uma coincidência. A situação piorou na medida em que diminuíram os investimentos em infraestruturas, educação, saúde e nas redes de proteção social. A desigualdade, quando cresce, reforça a si mesma mediante a corrosão de nosso sistema político e nosso sistema democrático de governo”.

Em 2020, cinco anos após tal publicação, Stiglitz afirma que Donald Trump causou mais danos. “As coisas pioraram na saúde. Melhoraram algumas condições a curto prazo por estes cortes nos impostos que estimularam a economia a curto prazo, mas conduziram a uma grande dívida que não é possível ser sustentada ao longo do tempo”.

“Devemos avançar para uma economia baseada no conhecimento e centrada nos serviços. Devemos nos distanciar dos combustíveis fósseis, já que a mudança climática é real. É preciso avançar em opções sustentáveis, aí está o futuro dos Estados Unidos. Aí está a força dos Estados Unidos, no Vale do Silício, em nossos centros de conhecimento. Contudo, ele atacou nossos centros de conhecimento, nossas universidades, obrigou a pagar impostos... Todos os outros países apoiam as universidades porque percebem a relevância que possuem”, argumentou.

Suas conclusões finais, em vista do futuro pós-pandemia: “Devemos alcançar um equilíbrio entre mercado, estado e sociedade civil”, declarou Joseph Stiglitz.

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