“A perspectiva do cuidado implica em nos reconhecermos como vulneráveis”. Entrevista com Natacha Borgeaud-Garciandía

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25 Julho 2020

Apesar da importância dos cuidados no desenvolvimento de todas as pessoas, sua desigual distribuição segundo gênero, classe e etnia evidencia uma problemática cada vez mais presente na agenda acadêmica e social, tal como revisa a coletânea Horizontes del cuidado, que aborda o tema de maneira ampla, considerando seu impacto nas relações de poder e na economia, até seus efeitos no emocional.

Dirigida pela socióloga Natacha Borgeaud-Garciandía, pesquisadora do CONICET e da FLACSO, a coletânea gratuita, publicada pela Fundação Medifé em sua página web com a participação de um Conselho Acadêmico, propõe uma perspectiva transdisciplinar sobre os cuidados, a partir de estudos realizados na América Latina e traduções de autores estrangeiros, que vão de ensaios teóricos a análises de problemáticas situadas.

A questão dos cuidados é um tema a respeito do qual cada vez se escuta mais, não só nos estudos sociais, mas também nas agendas dos movimentos porque, assim como a ideia que sustenta a coletânea, “sem cuidado, não há sociedade”. As estatísticas da Argentina não fazem mais do que revelar de que modo as tarefas de cuidado, remuneradas ou não, impactam de maneira diferencial segundo gênero, classe e etnia. Ser mulher e migrante não é o mesmo que ter acesso a determinado capital econômico e ser homem.

As atividades de cuidado falam de desigualdade porque, por exemplo, para as mulheres de nosso país [Argentina] as principais fontes de emprego são no setor de serviços, isto é: casas particulares, docência e saúde. E, ao mesmo tempo, no plano doméstico, elas dedicam três vezes mais tempo que os homens a essas tarefas, o que também significa mais precarização e menos oportunidades de emprego formal.

A entrevista é de Milena Heinrich, publicada por Télam, 23-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Do que falamos quando abordamos o tema do cuidado?

Embora recorramos ao “cuidado”, prefiro falar em termos de perspectiva do cuidado, que abrange um campo de pesquisa e reflexão multidisciplinar, complexo e dinâmico. O problema não é tanto que abarca uma definição, mas o que exclui. E o que significa ou quais são os efeitos desta exclusão sobre a própria perspectiva. É possível utilizar definições restritas do cuidado, mas a partir do campo de reflexão e pesquisa, amputa sua capacidade de questionamento social e político.

O cuidado não é meramente um objeto de estudo que traz à luz desigualdades, mas, ao contrário, questiona-nos como sociedade (a organização do cuidado, suas bases e seus efeitos), como civilização (nossos valores sociais e suas hierarquias) e como pesquisadores.

O cuidado como trabalho também permite colocar o dedo na ferida das desigualdades sociais. A perspectiva implica reconhecer que somos vulneráveis, que precisamos de cuidados para viver e nos beneficiamos deles sem que se reconheça esta contribuição essencial. É nas costas das mulheres de setores populares e/ou migrantes que recai o maior peso do cuidado, seja remunerado ou não, em empregos precarizados ou os dois.

Em um dos artigos traduzidos da coletânea, a psicóloga francesa Pascale Molinier sustenta que “o cuidado é um trabalho”. O que significa?

Defini-lo como um trabalho permite desnaturalizá-lo, desromantizá-lo e politizá-lo, assim como questionar dicotomias socialmente produzidas entre privado, público e político, entre ética e trabalho, entre razão e sentimentos, entre corpo e emoções, entre autonomia e dependência. Divisões que deslocam algumas atividades e aqueles que as realizam para as margens do que se constrói como “trabalho”.

E, nesse sentido, é preciso ler Pascale Molinier quando defende a ideia do “trabalho de cuidado”: não apela para fazer o cuidado entrar na vestimenta do trabalho, mas, ao contrário, na fenda dos questionamentos das feministas dos anos 1970, questiona essa concepção do trabalho a partir do trabalho de cuidado.

Como entender este crescimento de estudos sociais sobre o cuidado?

O cuidado convida a nos pensarmos como sociedade. O pensamento sobre o cuidado é rico, dinâmico, heterogêneo, em constante discussão. Nasce e se desenvolve nos Estados Unidos, a partir dos anos 1980, desenvolve-se na Europa, nos anos 2000, e na América Latina em torno dos anos 2010, embora existam trabalhos anteriores.

É interessante como a perspectiva se expande em todos os continentes e, apesar das distâncias físicas e sociais, são gerados diálogos e intercâmbios transversais, porque algumas de suas problemáticas são globais: o envelhecimento de muitas sociedades, a “crise do cuidado”, que combina maiores necessidades de cuidados com uma menor “disponibilidade” das mulheres que se inserem no mercado de trabalho, as migrações de cuidados que buscam abrandar os efeitos da crise, a mercantilização. O cuidado sai do privado para se impor como um problema público.

E como problema público, também os movimentos políticos e sociais, os feminismos, demandam seu reconhecimento.

A perspectiva do cuidado implica em nos reconhecermos como vulneráveis. Nesse sentido, integra um movimento mais amplo de questionamento do sujeito autônomo do individualismo moderno. Isto quer dizer que todos e todas necessitamos de cuidados e que a “autonomia” se sinta no cuidado oferecido por outras pessoas, em maior medida, esposas, empregadas domésticas, mães.

Implica relações de poder que permitem, por parte daqueles que se beneficiam, não os reconhecer, nem, em muitos casos, enxergá-los. Por isso, a dicotomia autonomia/dependência perde sua pertinência, mesmo reconhecendo que as necessidades de cuidado variam com as etapas e condições de vida. Vemos isso no contexto da pandemia. Quando as atividades que não resultam essenciais são suspensas, permanecem as atividades de cuidado.

E como essas relações de poder impactam nestas atividades?

O cuidado concerne a todos, mas sua divisão demonstra como se organiza em função de hierarquias sociais inter-relacionadas de gênero, classe e raça/etnia. Em nível de organização social, o peso cai sobre as famílias, que dependerão de seus próprios meios, com consequências nas trajetórias das mulheres e na reprodução da pobreza.

Como o paradigma do cuidado local poderia ser definido e para onde seria mais saudável que fôssemos?

Não temos a possibilidade de nos cuidar por igual, nem sequer de cuidar de todos. As desigualdades afetam o acesso ao autocuidado, tal como afetam o risco de doença ou o acesso à saúde. O sistema argentino de organização dos cuidados é do tipo familista, o que em si penaliza as famílias com menos recursos. Sabemos que recai por razões sócio-históricas nas mulheres e que desempenha um papel central na reprodução das desigualdades. Os empregos associados ao cuidado costumam ser precarizados, mal remunerados e não reconhecidos, e geram situações de subemprego e de multiemprego.

São necessárias transformações profundas em nossa forma de ver e valorizar o cuidado e aos que se encarregam dele, em todos os níveis sociais, começando com o Estado. Questionar a delegação deste trabalho essencial e assumir nossa responsabilidade coletiva reconhecendo que todas e todos precisamos de cuidado. Trabalhar para gerar maior equidade no âmbito familiar e integrar o conjunto de trabalhadores e trabalhadoras, reconhecendo a contribuição de cada um e uma.

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