Uma ética da responsabilidade ambiental para toda a terra

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17 Outubro 2011

É necessária uma ética da responsabilidade que se preocupe com o futuro da espécie humana e da Terra. Se, tempos atrás, a responsabilidade significava responder pelos próprios atos passados e presentes, agora ela também o é para com o futuro do planeta e do universo.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado na revista italiana Jesus, 10-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Depois de séculos em que a natureza era mais forte do que a humanidade, e o homem tinha que se defender dela, hoje é justamente o ambiente que se tornou frágil, muitas vezes vítima do homem, a tal ponto que o homem agora, com o seu poder nuclear, é capaz de destruir a Terra. Então, nos tornamos, no maior grau, responsáveis pela Terra e pelo nosso poder: sob essa ótica, o mais difícil é não ceder ao excesso e à desmesura. O desafio ético nos pede que adquiramos o domínio do nosso poder técnico-científico, pondo um limite às nossas ações e aos nossos projetos e reconhecendo que existem direitos da natureza, do ambiente, de todos os nossos coinquilinos sobre o planeta.

É preciso dar esse passo no nível da consciência social, até expressar esses direitos mediante instituições e legislações jurídicas. E, se o ambiente é titular de direitos, nós, humanos, temos deveres, uma responsabilidade específica que, se não for assumida ou violada, nos torna transgressores da lei necessária para o habitar a Terra, para o construir um mundo mais sinfônico e mais bonito.

Portanto, é necessária uma ética da responsabilidade que se preocupe com o futuro da espécie humana e da Terra. Hans Jonas assim a formulou: "Age de modo que as consequências da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra". Se, tempos atrás, a responsabilidade significava responder pelos próprios atos passados e presentes, agora ela também o é para com o futuro do planeta e do universo. É o futuro em que os habitantes da Terra serão as novas gerações, os nossos filhos, os nossos netos, que requer a minha responsabilidade hoje, porque hoje o homem pode destruir a Terra: desse poder, nascem obrigações e deveres.

Assim como chegamos a elaborar um "contrato social", assim também hoje devemos ir além do social e do político para elaborar um "contrato natural", um contrato com o ambiente! Isso sem nunca se esquecer de que questão ecológica e questão social são dois aspectos da mesma desordem provocada por nós, dois frutos da mesma vontade de poder, da mesma exploração que não conhece deveres nem limites, do mesmo hedonismo que pensa só em si mesmo, sem os outros e contra os outros.

Quando se chega a tratar as pessoas só em função da sua capacidade de produzir e de possuir, também se acaba tratando a natureza e os seres vivos só em função de sua possível exploração, do seu valor de mercado...

Mas, ao lado da responsabilidade, há uma outra necessidade para uma ética respeitosa da Terra: a sobriedade. Palavra detestada, muitas vezes ridicularizada, mas hoje estamos mais conscientes do que nunca do fato de que os recursos da Terra não são infinitos, que o desenvolvimento não está em constante crescimento, que a produção não é ilimitada, que o consumo não pode ser desenfreado. Por isso, é preciso retornar a essa palavra atestada com grande frequência na Regra de Bento: mensura, medida. Medida dos alimentos, do consumo, do tempo livre, do trabalho... Medida, isto é, sobriedade, moderação, atitudes por meio das quais nós, humanos, reconheçamos o nosso limite de terrestres. Medida, em sentido ecológico, significa abandonar as pretensões não relacionadas às necessidades fundamentais, mas induzidas ou até impostas como exigências alienantes da sociedade do consumo.

É preciso que nos libertemos dos desejos supérfluos para adquirir também uma capacidade crítica, uma liberdade, e não nos deixarmos curvar às demandas prepotentes do mercado. Às vezes também é preciso uma renúncia ou, para usar outro termo banido da nossa linguagem, um sacrifício, isto é, a disponibilidade de nos privarmos de alguma coisa, no caso de que a nossa satisfação passageira provoque dano ao ambiente e às criaturas com as quais somos coinquilinos, a outras pessoas ou a outros povos.

Integrar a nossa situação no mundo é fundamental para conhecer a nossa identidade terrestre e para saber viver a nossa relação com a terra, este "terceiro satélite de um sol destronado da sua sede central, que se tornou astro-anão errante entre bilhões de estrelas em uma galáxia periférica de um universo em expansão" (Edgar Morin). A Terra é o único planeta sobre o qual, pelo menos por enquanto, sabemos que existe essa espécie de animais biológicos, mas também seres culturais, os animais humanos: humanos no sentido de que o homem não é plenamente realizado se não pela cultura e na cultura; humanos no sentido de que eles sabem se sentir responsáveis pelos outros coinquilinos animais, vegetais e minerais, responsáveis por todos; humanos porque são capazes de com-paixão, de sofrer com esta Terra, capazes de sim-patia com todas as criaturas; humanos porque adaptados para habitar a Terra, procurando e buscando a paz: uma paz não só entre homens, mas cósmica, isto é, a "shalom", a vida plena para toda a Terra.

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