A crise nas instituições de saúde católicas e o desafio de ser um hospital de campanha. Entrevista especial com Leo Pessini

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Por: Patricia Fachin | 07 Janeiro 2018

Em sua Mensagem para celebrar o XXVI Dia Mundial do Doente, o papa Francisco alertou os hospitais católicos a não se submeterem à lógica do mercado. Esta mensagem chega num momento oportuno, já que “este é o risco real que toda instituição de saúde, principalmente hospitais de grande porte nas grandes megalópoles, hoje tem pela frente”, diz Leo Pessini, Líder Mundial dos Religiosos Camilianos, Ordem Religiosa da Igreja Católica que está presente nos cinco Continentes, atuando no âmbito da saúde, em 41 países.

Segundo ele, “as políticas públicas de saúde estatais são sempre mais hostis em relação a instituições confessionais, o que dificulta seu funcionamento e oferta de serviços com qualidade”. Na Itália, onde reside atualmente, afirma, vive-se “uma crise terrível nas instituições de saúde católicas. (...) Nós camilianos já vendemos três grandes estruturas hospitalares e estamos em negociação para nos livrar de outras que somente acumulam dívidas e prejuízos. Não somos os únicos, não, existem muitas congregações e associações católicas nesta situação”. E adverte: “A época das grandes obras, de congregações religiosas, seja na área da saúde ou da educação, está passando, se já não passou, em muitas regiões de nossos país”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pessini também reflete sobre o tema bíblico-teológico escolhido pelo papa Francisco para sua mensagem pelo dia Mundial do Doente de 2018. “Neste ano o tema se desenvolve a partir das palavras de Jesus na Cruz, nos momentos finais de sua vida, dirigida a sua mãe, Maria, e ao discípulo amado, João. ‘Eis o teu filho! (...) Eis a tua mãe!’ E, dessa hora em diante, o discípulo acolheu-a em sua casa’ (Jo 19,26-27)”.

Para Pessini, a mensagem do papa apresenta quatro momentos significativos. “O primeiro é a motivação bíblico–teológica, que apresenta o tema do dia mundial do doente: estamos no Calvário ao pé da Cruz com Maria e João, como vimos na pergunta anterior. Num segundo momento, Francisco se volta para a história de dois mil anos de serviço da Igreja no cuidado dos doentes. E diz que ‘esta história de dedicação não deve ser esquecida” (...) e nos ajuda a projetar bem o futuro’. (...) Num Terceiro momento, o Papa ressalta os desafios que hoje as instituições de saúde católicas têm pela frente para preservar sua identidade e valores evangélicos e cristãos. Francisco denuncia a tendência crescente ‘em todo o mundo, de uma mentalidade empresarial, que coloca o cuidado e tratamento de saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres’. (...) E, finalmente, no quarto momento, o Papa chama a atenção a respeito da importância da Pastoral Saúde na comunidade eclesial. Através deste serviço a Igreja continua no tempo histórico de hoje, o testemunho e mandato de Jesus em relação aos doentes, de ‘pousar o mesmo olhar rico de ternura e compaixão de seu Senhor’. E afirma que ‘a Pastoral da Saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de ver com o ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência’”, resume.

Leo Pessini | Foto: Arquivo pessoal

Leo Pessini é graduado em Filosofia pelo Centro Universitário N. Sra. da Assunção e em Teologia pela Pontifícia Universidade Salesiana de Roma. É mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e doutor em Teologia Moral pela mesma universidade. Realizou, ainda, pesquisa pós-doutoral em bioética pelo Centro de Bioética James Drane, da Edinboro University of Pennsylvania, nos EUA. Foi professor no Programa de Bioética do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, e professor colaborador da Universidade do Vale do Sapucaí - Univás.

Entre suas obras, destacamos a trilogia sobre bioética de final de vida: Distanásia: até quando investir sem agredir (Loyola, 2a.ed., 2007), Eutanásia: por que abreviar a vida (Loyola, 2005) e Humanização e cuidados paliativos (Coord., 6a.ed., 2014). Para uma visão geral da bioética, escreveu ainda Problemas atuais de bioética (Ed. Loyola, 11a.ed., 2014).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Poderia nos contar como se iniciou a celebração do dia do doente na Igreja?

Leo Pessini - O Dia Mundial do Doente foi instituído pelo Santo João Paulo II em 1992. É celebrado sempre na data de 11 de fevereiro, dia em que a Igreja celebra a festa de Nossa Senhora de Lourdes. O primeiro dia Mundial foi celebrado no Santuário de Lourdes (1993 - França), local onde acorrem diuturnamente milhões de peregrinos. Estes, acorrem junto à Mãe de Deus, movidos por uma fé inquebrantável, agradecem a Deus pela vida e suplicam sua intercessão junto ao Pai, para uma cura especial (“milagre”), proteção, cuidado divino da vida frente a situações de doenças e sofrimentos. A peregrinação do povo humilde ao santuário da Mãe é sempre uma peregrinação em busca de saúde e salvação, em todos os santuários marianos do mundo católico.

Neste ano de 2018 estamos celebrando o XXVI Dia Mundial do Doente. Desde o primeiro instante o Papa João Paulo II ligou esta celebração a Nossa Senhora, da qual era devotíssimo. Todos sabemos que ele atribuiu à intercessão de Nossa Senhora de Fátima a preservação da sua vida, quando do atentado que sofreu na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 13 de maio de 1981, justamente no dia de N. Sra de Fátima. Ele solicitou que a bala que quase tirou sua vida e que se alojou no interior de seu corpo, quando extraída no procedimento cirúrgico, fosse incrustada na coroa da imagem Nossa Senhora de Fátima. E assim foi feito por sua solicitação.

João Paulo II foi um Papa que fez muito pela Pastoral da Saúde na Igreja. Era alguém muito sensível ao sofrimento humano. Sabemos que sua história de vida pessoal e familiar foi profundamente marcada por inúmeras situações de sofrimento. Era filho de um país da cortina de ferro, a Polônia, cujo regime comunista oficialmente ateu perseguiu ferozmente a Igreja!

Tem outras iniciativas dignas de registro nesta área da pastoral da saúde. Gostaria de lembrar duas, pelo menos, a saber. 1) A publicação da carta apostólica Salvifici doloris: sobre o sentido cristão do sofrimento com a data de 11 de fevereiro de 1984, dia de Nossa Senhora de Lourdes. Uma belíssima síntese da teologia cristã sobre o sofrimento humano de grande atualidade, que todos os cristãos deveriam conhecer e meditar diariamente. 2) 2) Criação do Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde através do motu próprio Dolentium Hominum, em 11 de fevereiro de 1985. Como se observa do dia de Nossa Senhora de Lourdes, é sempre a data escolhida pelo Papa. Esse Conselho Pontifício, neste ano passado, deixou de existir, e as questões de saúde e pastoral da saúde foram absorvidas pelo novo Dicastério sobre o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que também abrange a questão dos migrantes e Cor Unum.

IHU On-Line – Qual é o tema da mensagem do Papa para o dia Mundial do Doente de 2018?

Leo Pessini - A cada ano o Papa sempre escolhe um tema bíblico- teológico diferente. Neste ano o tema se desenvolve a partir das palavras de Jesus na Cruz, nos momentos finais de sua vida, dirigida a sua mãe, Maria, e ao discípulo amado, João. ”Eis o teu filho! (...) Eis a tua mãe!” E, dessa hora em diante, o discípulo acolheu-a em sua casa” (Jo 19,26-27).

As palavras de Jesus iluminam o mistério da Cruz e dão origem à vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade. Maria será a mãe dos discípulos do seu filho e cuidará deles. O sofrimento inenarrável de ver a morte de seu amado Filho na cruz não a paralisa, mas é justamente na cruz que para Ela começa um novo caminho de doação, como Mãe do Senhor. Jesus, agonizando na Cruz, se preocupa com a igreja e com toda a humanidade e associa Maria a partilhar este mesmo cuidado. Em Pentecostes, na efusão do Espírito Santo sobre os discípulos, Maria estava presente nesta primeira comunidade, em sua missão de cuidado.

João, o discípulo amado, representa a Igreja, povo messiânico, que deve reconhecer Maria como sua própria mãe. Ela é o modelo do seguimento a Jesus, e como Mãe, ama e gera filhos capazes de amar segundo o coração de Jesus. A vocação materna de Maria, de cuidar dos seus filhos, passa para João e toda a Igreja. A Igreja continua na história o mandato do Senhor de cuidar (e também de curar fisicamente) dos doentes, anunciando o Evangelho do Reino, a todos, indistintamente, quando todas as lágrimas serão enxugadas. Eis a chamada vocação materna da Igreja de servir os mais necessitados e doentes.

IHU On-Line - Quais são os aspectos fundamentais desta mensagem?

Leo Pessini - Podemos dividir o conteúdo desta mensagem em quatro momentos. O primeiro é a motivação bíblico – teológica, que apresenta o tema do dia mundial do doente: estamos no Calvário ao pé da Cruz com Maria e João, como vimos na pergunta anterior.

Retorno à história

Num segundo momento, Francisco se volta para a história de dois mil anos de serviço da Igreja no cuidado dos doentes. E diz que “esta história de dedicação não deve ser esquecida” (...) e nos ajuda a projetar bem o futuro”. Temos lições a aprender deste glorioso passado histórico, perante o testemunho de heroísmo de tantos cristãos, que na sua generosidade deram a própria vida na missão de cuidar dos pobres e doentes. Estão aí os inúmeros santos (as) fundadores (as) de inúmeras congregações religiosas que nasceram para se dedicar ao cuidado dos doentes. Eles(as) souberam viver com intensidade e integridade” a criatividade da caridade”!

Desafios das instituições de saúde

Num terceiro momento, o Papa ressalta os desafios que hoje as instituições de saúde católicas têm pela frente para preservar sua identidade e valores evangélicos e cristãos. Francisco denuncia a tendência crescente “em todo o mundo, de uma mentalidade empresarial, que coloca o cuidado e tratamento de saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres”. Os hospitais católicos devem se preservar disto e colocar em ação “a inteligência organizativa e a caridade e exigem que a pessoa do doente seja respeitada na sua dignidade e sempre colocada no centro do processo de cuidado”, afirma o Pontífice.

Pastoral da Saúde

E, finalmente, no quarto momento, o Papa chama a atenção a respeito da importância da Pastoral Saúde na comunidade eclesial. Através deste serviço a Igreja continua no tempo histórico de hoje, o testemunho e mandato de Jesus em relação aos doentes, de “pousar o mesmo olhar rico de ternura e compaixão de seu Senhor”. E afirma que “a Pastoral da Saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de ver com o ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência”. Francisco lembra e louva os trabalhos dos verdadeiros samaritanos anônimos que se dedicam neste âmbito pastoral: familiares de doentes que prestam cuidados em suas residências, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, entre outros.

IHU On-Line - Qual é a especificidade dos hospitais religiosos, especialmente os católicos, em relação a hospitais públicos, por exemplo?

Leo Pessini - O que vai distinguir um hospital católico (ou confessional: protestante, ou israelita) de um hospital público, é basicamente os valores que as diferentes tradições de fé (cristãs e não cristãs) procuram implementar na prática dos cuidados de saúde, em suas instituições. Num contexto pluralista, estas instituições precisam ter presentes, na elaboração de seus planejamentos estratégicos, para além de seus orçamentos econômico-financeiros, muito bem claro e definido sua visão, missão e valores.

O Papa Francisco na mensagem deste ano afirma em relação às instituições de saúde católicas, que estas devem “primar por cuidados médicos de qualidade, procurar colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico e desenvolver a pesquisa científica no respeito da vida e dos valores mais cristãos”. Situações lamentáveis de desumanização de cuidados ocorrem quando estes valores não são levados a sério e colocados em prática. Este discurso sobre a necessidade de cuidados humanizados é muito atual e necessário nos países desenvolvidos.

Responsabilidade Social

Em países em desenvolvimento, pobres, onde os sistemas de saúde são deficientes ou simplesmente inexistentes, o Papa Francisco chama atenção de que não podemos nos fechar nas quatro paredes do hospital, cuidando apenas dos doentes que chegaram até o hospital. Em muitas situações os hospitais dos missionários e dioceses são as únicas instituições de saúde que fornecem cuidados de saúde à população. A responsabilidade social cresce ainda mais. As nossas instituições de saúde têm que assumir um compromisso com a saúde pública na prevenção das doenças e promoção da saúde. Diz o Papa que “a igreja se esforça por oferecer as pessoas o máximo possível de cuidados de saúde, por eliminar a mortalidade infantil e debelar algumas pandemias”. Nunca abandonar a pessoa, nem mesmo quando a cura não seja mais possível.

IHU On-Line - O Papa Francisco retoma na mensagem sobre o Dia Mundial do Doente uma afirmação da Enciclica Evangelium Gaudium (n.49) definindo a Igreja, por comparação, como um “Hospital de Campanha”. O Senhor poderia comentar esta afirmação?

Leo Pessini - Trata-se de uma nova e belíssima imagem de eclesiologia, de alguém que tem os pés no chão concreto do sofrimento da humanidade. Como discípulos missionários do Senhor, somos igreja “em saída”, para encontrar o outro vulnerabilizado pela doença, sofrimento ou carência de bens essenciais de sobrevivência. A Igreja “como hospital de campanha acolhe a todos os feridos pela vida”, lembra Francisco na Mensagem. Ele é muito corajoso, profético, ao afirmar que prefere “uma Igreja acidentada, ferida e suja por ter saído pelas estradas ao encontro dos doentes, acidentados e sofredores, antes que uma Igreja doente e fechada nas suas comodidades e agarrada nas suas próprias seguranças (EG no.49).

O hospital hoje se transformou num verdadeiro “areópago”, que desafia nossa criatividade humana e cristã, no processo de evangelização.

IHU On-Line - Em sua mensagem pelo dia Mundial do Doente, o papa Francisco afirmou que os hospitais católicos “precisam se preservar do risco duma mentalidade empresarial que coloca o cuidado e tratamento de saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres”, como o senhor mesmo comentou anteriormente. Como interpreta e reage a essa afirmação?

Leo Pessini - Este é o risco real que toda instituição de saúde, principalmente hospitais de grande porte nas grandes megalópoles, hoje tem pela frente. Em muitas situações, para simplesmente conseguir sobreviver, acaba literalmente se vendendo ao mercado! Isto é um pecado mortal, isto é, que causa a morte dos pobres, que são expulsos “com gentileza” e não encontram mais possibilidade de tratamento para seu problema de saúde.

Um hospital “humanizado”, bem administrado, com ciência (competência) e sapiência (sabedoria), sempre procurará colocar “a pessoa humana e sua dignidade no centro dos cuidados”.

Os recursos materiais e financeiros, os instrumentos terapêuticos e equipamentos de diagnóstico e prognóstico de última geração, serão sempre instrumentos necessários para um cuidado competente e humano, que profissionais da saúde, conscientes de sua missão e humanizados, procuraram proporcionar aos doentes. São Camilo de Lellis (1550-1614), nosso santo inspirador, já há quatro séculos bradava aos cuidadores quando estes não cuidavam com esmero dos pacientes: “mais coração nas mãos irmão”! Este grito de Camilo é de uma atualidade incrível!

IHU On-Line - O papa Francisco quando fala dos hospitais católicos, diz que esses devem colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico, oferecer cuidados médicos de qualidade e desenvolverem a pesquisa científica respeitando a vida e os valores morais cristãos. Poderia explicar essa última característica? O que significa desenvolver pesquisas científicas que respeitem os valores morais e cristãos?

Leo Pessini - Aqui estamos entrando numa nova área de conhecimento humano de valores que denominamos de bioética. E no caso de bioética de inspiração crista e católica, procura-se “defender, cuidar e proteger a vida do ser humano desde o momento da concepção até o momento da morte natural”. Em outas palavras mais práticas, nessas instituições não se pratica o abortamento, a eutanásia, a procriação medicamente assistida, procedimentos de esterilização sem razões médicas de saúde dos envolvidos, a pesquisa em embriões humanos, dentre outros procedimentos científicos.

Atuar nesta área como agente de pastoral da saúde qualificado ou Capelão, exige de quem se dedica a essa exigente missão, para além de preparação humana, teologia, espiritual, uma capacitação e treino em ajudar as pessoas a resolver conflitos de ordem ética e bioética. Além disso, é necessário fazer parte de comitês de ética e bioética institucionais, onde são discutidas estas questões éticas conflitivas. Exatamente nesse fórum pluralista de visões e valores éticos, temos que ser capazes de “darmos as razões de nossa esperança com mansidão, respeito e consciência limpa” (1 Pedr. 3,15). Agir perspectivamente exige de nós muita sabedoria para que possamos juntos com as pessoas fazermos o discernimento ético correto.

Temos que aprender a lidar com documentos humanos viventes, em situações extremas de vulnerabilidade, que clamam por ajuda, para encontrar sentido e esperança de viver. Não é à toa que Jesus dedicasse grande parte de seu ministério curando doentes, proclamando a libertação do mal, do sofrimento e anunciando o Reino da boa nova da vida.

IHU On-Line - Como os hospitais dos Camilianos tentam levar adiante esta filosofia humanista cristã de cuidados e ao mesmo tempo procuram oferecer o melhor cuidado médico-científico disponível?

Leo Pessini - Não é uma missão simples, mas profundamente complexa e difícil, que exige a atuação de gestores competentes e éticos, quer dizer, honestos e vacinados contra a “corrupção”, as famosas “fraudes na Saúde”! Nossas entidades são todas filantrópicas, não visam ao lucro e todo o resultado que ocorrer é sempre investido na entidade para aprimoramento das qualidades dos serviços. Isto está previsto na legislação da área.

Temos uma enorme responsabilidade social, que nos assusta quando paramos para pensar um pouco, e buscamos auto sustentabilidade institucional. Conseguimos levar adiante esta missão porque somos uma rede de 49 hospitais no Brasil (de grande e, médio porte nas grandes cidades e pequenos nos interiores do país), com aproximadamente 6 mil leitos e 24 mil funcionários. Temos também dois Centros Universitários em São Paulo (Capital) e Cachoeiro do Itapemirim (ES) especializados em cursos na área da saúde. Os melhores estudantes ao se formarem entram nas fileiras de prestação de serviços camilianos.

Os recursos gerados nos grandes centros, como São Paulo, que operam com convênios de Saúde, por exemplo, são distribuídos para áreas mais carentes, norte-nordeste, onde estão os nossos hospitais. Em algumas cidades ou vilarejos este hospital é única instituição de saúde para a população daquela região.

Relação com o SUS

Nossas instituições, sendo filantrópicas, trabalham em parceria com o governo, isto é, com o SUS – Sistema Único de Saúde, que requisita 60% dos leitos da entidade. Todos sabemos que trabalhar com o SUS é sempre prejuízo certo e aqui é que começam os problemas, quando buscamos a auto sustentabilidade das instituições. Os constantes atrasos dos repasses, glosas das contas apresentadas, preços aviltantes pagos por determinados procedimentos, somente para lembrar alguns fatores, fazem com que, o que se recebe, praticamente, não cubra os custos dos cuidados e procedimentos.

No Brasil vivemos um equilíbrio dinâmico ainda um pouco favorável, que classificaria como “instável”, que ainda nos permite atuarmos na área, procurando cuidar da saúde de muita gente carente e pobre via SUS, mas não sabemos até quando será mantido. Isto gera em nós muita apreensão e preocupação. Por vezes somos criticados por sermos muito profissionais, comerciais e administrativos, escondendo nossa identidade de religiosos. Temos pela frente, como responsabilidade, honrar nossa história e tradição de valores camilianos e samaritanos. São Camilo ao fundar a Ordem Camiliana criou “uma verdadeira escola de caridade”, afirmou Bento XIV, na bula de canonização em 1746. Sempre repito pelo mundo camiliano: nossas obras têm sua razão de existir se zelarem pela sua dimensão evangelizadora. Hoje temos que ser criativos e ousados em traduzir o perene valor da caridade evangélica com os direitos humanos, fundamentalmente o direito à saúde que o Estado brasileiro prometeu cumprir em relação a cada cidadão brasileiro, na Constituição de 1988.

IHU On-Line - Em relação à Pastoral da saúde, que o Papa diz que “permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial da comunidade eclesial”. O que isto significa concretamente? Qual a sua visão?

Leo Pessini - A Pastoral da Saúde, como uma das Pastorais organizadas da CNBB, passa a existir a partir de 1976. O que entendemos por Pastoral da Saúde? É a ação evangelizadora e humanizadora da Igreja no mundo da saúde. Esta ação acontece em três dimensões, dependendo das necessidades da realidade, a saber:

a) a solidaria ou samaritana - os doentes estão aí, e não podemos ficar indiferentes, algo precisa ser feito. A Indiferença mata.

b) Comunitária - lida com as questões de saúde pública, valorização da sabedoria das populações indígenas quanto ao aproveitamento das plantas para a saúde, educação para a saúde preventiva.

c) político- institucional - atua junto às instituições públicas e privadas de saúde, zelando por um atendimento digno e humano; se faz presente nas escolas e Universidades, onde se formam os profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros), vigilando para que além da formação técnica também se tenha formação humana e ética, e também vigia o governo na elaboração de políticas públicas de saúde. Aqui é importante ressaltar o papel da educação dos agentes da pastoral da Saúde qualificados, para que possam ser uma voz ativa na participação dos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde. Educar para a vigilância da cidadania, para que as pessoas, os cidadãos brasileiros, sejam respeitados no seu direito fundamental à vida e à saúde.

O que dá credibilidade à Igreja na evangelização do mundo da saúde é o testemunho de fé e doação gratuita de tantos samaritanos anônimos, que são os leigos, agentes da Pastoral da Saúde (os voluntários da Pastoral da Saúde). Claro estes necessitam de preparação especial e específica.

Pastoral da Saúde na América Latina

No Brasil, a realização das Campanhas da Fraternidades tem ajudado muito na organização e desenvolvimento da Pastoral da Saúde. Lembramos da CF de 2012, que teve como tema Fraternidade e saúde pública e lema: “Que a saúde se difunda sobre a terra” (cf. Eclo 38,8). A Igreja retomou esse tema depois de 31 anos (CF de 1981 - “Saúde para todos”).

Uma conquista importante da Pastoral da Saúde para toda a América Latina e Caribe, foi a elaboração das diretrizes de ação para a Pastoral da Saúde para todo este continente, no ano 2000. Atualmente estas diretrizes, que foram revistas a partir do Documento de Aparecida de 2007, estão sendo atualizadas com os ensinamentos do Pontificado de Papa Francisco e devem ser aprovadas pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe - CELAM, no início deste ano. Este documento intitula-se Discípulos Missionários no Mundo da Saúde: Guia para a Pastoral da Saúde na América Latina e no Caribe.

Importante ressaltar que este Guia da Pastoral da Saúde está sendo utilizado nas 23 Conferências Episcopais da América Latina e Caribe. É um caso único no mundo Católico. Isto não acontece ainda na Europa, nem na África e muito menos na Ásia.

Sempre digo que é um “santo orgulho” termos conseguido implantar diretrizes comuns da Pastoral da Saúde para todos os países da América Latina e Caribe. Isto é fruto de um trabalho de nada menos que 23 anos de caminhada juntos, participando de eventos, seminários e congressos, enfim lutando pela causa, como membro que sou da Equipe de assessoria e apoio do “Departamento de Justicia e Solidariedad” do CELAM.

IHU On-Line - E em relação ao futuro na área da saúde, quais suas expectativas?

Leo Pessini - Cada época histórica tem seus desafios a serem enfrentados, “os sinais dos tempos”, numa linguagem de Vaticano II. A época das grandes obras, de congregações religiosas, seja na área da saúde ou da educação, está passando, se já não passou, em muitas regiões de nossos país.

Na Itália hoje estamos vivenciando uma crise terrível nas instituições de saúde católicas. Políticas públicas de saúde estatais são sempre mais hostis em relação a instituições confessionais, o que dificulta seu funcionamento e oferta de serviços com qualidade. Nós camilianos já vendemos três grandes estruturas hospitalares e estamos em negociação para nos livrar de outras que somente acumulam dívidas e prejuízos. Não somos os únicos, não, existem muitas congregações e associações católicas nesta situação.

O Vaticano, preocupado com a situação, criou uma comissão ad hoc coordenada pelo Secretário de Estado, Cardeal Parolin, para estudar esta situação e ajudar as congregações que estão com dificuldades nesta área, e também procurar manter estas instituições permaneçam no âmbito católico, em casos de venda. Estamos diante de um momento crítico, em busca de melhores dias.

Se olharmos na África, e mesmo em alguns países da Ásia, onde atuamos, um simples hospital ou ambulatório, ou uma escola que forma profissionais da saúde (Taiwan por ex.), seja enfermagem ou medicina, milhares de vidas humanas são salvas. Somos testemunhos de compromisso evangélico com os mais pobres da terra, e por isso temos muita credibilidade e somos respeitados e amados pela população, que na sua grande maioria são muçulmanos e budistas.

O futuro da Vida religiosa no âmbito da saúde deverá ser de maior leveza, isto é, sem grandes estruturas que aprisionam o Espírito e que depois engessam nossa missão profética de sermos “sal da terra e luz do mundo”. A condição de nossa sobrevivência é cultivarmos a esperança, na certeza de que em tudo existe um sentido maior. E preciso “esperançar”… As novas gerações de religiosos(as) que estão chegando não desejam e não se deixam “institucionalizar” tão facilmente.

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