“A ética do cuidado é um contrapeso ao neoliberalismo”. Entrevista com Helen Kohlen

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14 Outubro 2019

A pesquisadora alemã Helen Kohlen (Mönchengladbach, 1963) é uma referência em bioética e ética do cuidado em ambientes hospitalares. Ela é professora na Philosophical and Theological University of Vallendar (Koblenz), na Alemanha, onde também é responsável pela cátedra Política de cuidados e ética. Atualmente, dirige o projeto de pesquisa Diversidade cultural e conflitos na assistência à saúde. Desde 2010, está à frente de outro sobre ética clínica. Recentemente, foi convidada pelo Collegi Oficial d’Infermeres i Infermers de Barcelona (COIB) e pela Fundação Víctor Grifols i Lucas para falar em um seminário sobre sua especialidade.

A entrevista é de Beatriz Pérez, publicada por El Periódico, 07-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que é a ética do cuidado?

É um conceito nascido nos anos 1980, em pleno debate sobre justiça. A justiça pensa apenas no que está certo ou errado, mas o cuidado tem mais a ver com o contexto, com a relação com os outros, em prestar atenção ao que você está fazendo, à situação. Agora, existem diferentes campos de trabalho sob a égide da ética do cuidado. Na Alemanha e nos Estados Unidos, por exemplo, colocamos o foco no fato de que o cuidado significa não somente estar conectada consigo mesma, mas também com a outra pessoa, instituição, inclusive com o mundo. Contudo, é claro, também existem poderes e interesses políticos.

A ética do cuidado não é assunto apenas de médicos ou enfermeiras, também há muitos cientistas políticos refletindo sobre ela. O que isso quer dizer? Que a moral deve estar integrada à política e, quando falamos de moral, temos que considerar também aspectos como o cuidado. O cuidado implica interesse pela justiça, pelas desigualdades, pela economia, pelo ambientalismo... É algo necessário para a democracia.

O cuidado está relacionado ao feminismo?

Historicamente, compartilham raízes, sim. A feminista Carol Gilligan enfatizou a necessidade de incluir as experiências das mulheres na teoria moral e política, historicamente associada aos homens. É importante que a experiência das mulheres conte com a ética do cuidado. O feminismo versa sobre a busca de alternativas, busca integrar as pessoas cada vez mais e fazer com que outras coisas que não importavam, sim, tenham importância. Tem a ver com a fraternidade.

Como você começou a estudar a ética do cuidado?

Fiz diferentes pesquisas sobre a história dos comitês de ética dos hospitais. E descobri que as pessoas que estão nesses comitês usam uma linguagem baseada no principialismo [termo cunhado pelos críticos do modelo de bioética baseado nos princípios de autonomia, não-maleficência, beneficência e justiça]. Realizam seu trabalho em função destes princípios, deixando de fora os assuntos do cuidado. O cuidado tem sua própria linguagem e se você é cuidador – como as enfermeiras ou assistentes sociais - e tem conflitos em sua prática diária, deve falar sobre isso. A linguagem do cuidado permite falar acerca dos conflitos que acontecem no seio do trabalho, algo que o principialismo, que é mais abstrato, não pode fazer.

O cuidado tem seu foco no princípio da responsabilidade. O principialismo, não. É necessário mostrar a assimetria que se dá entre um médico ou enfermeiro e seu paciente para mostrar quem é o dependente e o vulnerável. Nesse caso, o paciente. Essa assimetria está sempre presente e acredito que o cuidado é importante para repensá-la. A ética do cuidado é a única aproximação ética que faz com que a reflexão sobre essa assimetria seja importante. As pessoas dizem que os médicos sabem tudo - e sabem! -, mas nem sempre são competentes no momento de se comunicar com os pacientes e suas famílias.

As enfermeiras se comunicam melhor que os médicos?

Diria que, frequentemente, estão mais envolvidas nas práticas do cuidado. Precisam estar muito atentas, próximas, quando tratam os pacientes. Contudo, o desafio é que as enfermeiras falem sobre o que estão fazendo e que façam isso, principalmente, quando ocorrer algum conflito. Estou certa que as enfermeiras sabem como cuidar, mas não estou certa que sempre assumem o tempo e o espaço necessários para refletir e fazer comentários apropriados ao médico. O desafio é tornar importantes as práticas diárias de cuidado, e isso passa por cuidar bem do paciente, mas também que seus familiares estejam bem informados.

Você tem um novo projeto de pesquisa chamado ‘Diversidade cultural e conflitos na assistência à saúde’.

Sim. A ideia nasceu como resultado de uma pesquisa em 2015, quando os refugiados começaram a chegar na Alemanha. É muito importante se comunicar bem com eles para cuidar bem deles. Este novo projeto está baseado nas ideias desenvolvidas a partir daquele ano. O objetivo é obter ferramentas sobre como tratar, por exemplo, mulheres que têm ideias diferentes sobre como dar à luz. Isto não é apenas um problema do idioma, mas também de saber ouvir seu ‘background’, histórias e vulnerabilidades, e entendê-las.

Neste projeto, trabalham observadores que vão aos centros e veem como se lidam com os conflitos com esses pacientes. Fazemos entrevistas com os diretores dos hospitais e lhes perguntamos como veem o futuro. E também conversamos com os membros dos comitês de ética para ver quais problemas encontram quando tratam desses pacientes que procedem de diferentes contextos culturais. O objetivo é encontrar soluções e pensamos que os trabalhadores, geralmente, têm boas ideias, mas ninguém fala ou escreve sobre elas. Eu quero ouvir e dar voz a eles.

Apresenta um exemplo prático de como aplicar os princípios da bioética em um hospital.

Nos hospitais, existem pessoas que estão em situações realmente desesperadoras. Por exemplo, uma mulher que é intubada na UTI que sabe, com certeza, que terá uma vida ruim, mesmo se sobreviver. E não falo sobre qualidade de vida, porque acho que esse julgamento depende dela, não de mim. Ela não pode falar, mas respira, e seus familiares acreditam que, se estivesse consciente, não gostaria de receber todas essas terapias. O que podemos fazer? Nessa situação, é importante que alguém do comitê de ética do hospital explore a situação médica, a perspectiva das enfermeiras, dos familiares e pense o que a paciente realmente gostariam de ter ou não para chegar a uma boa conclusão. Eu acho que é um exemplo muito bom do que a bioética trouxe para o sistema de saúde: o poder sentar juntos e obter diferentes perspectivas para chegar a uma conclusão sólida sobre o paciente.

Os ambientes hospitalares, em geral, estão pouco humanizados?

As instituições são as instituições, certo? E é muito difícil que não se tornem fábricas (risos). Geralmente, estão focadas nos lucros, no dinheiro, e isso obviamente é perigoso na hora de manter a humanidade. Os hospitais - e em geral o sistema de saúde – priorizam cada vez mais a economia, algo que tem a ver com o capitalismo. Contudo, há ainda muitas pessoas trabalhando nas instituições. E outras muitas que entram em um hospital, depois voltam para casa sozinhas, e ninguém cuida delas: médicos e enfermeiras precisam ser humanos e estar presentes. E outra coisa: a ética do cuidado é um contrapeso ao neoliberalismo.

Por quê?

Porque o neoliberalismo está muito focado no individualismo, é muito estratégico e nada comunitário. A ética do cuidado está muito baseada na comunidade, é algo muito diferente da ideologia neoliberal. A ética do cuidado defende um mundo no qual cuidar das pessoas é o mais importante.

Existem desigualdades na saúde?

Sim. Há desigualdades étnicas, de gênero e sociais, mas a maior de todas é a de gênero, segundo minha pesquisa. Se você tem um baixo nível de estudos, vem de um país diferente, é mais velho e além do mais é mulher, está na pior situação de desigualdade.

Você foi enfermeira?

Tenho formação em enfermagem, mas não trabalhei muito como enfermeira. Trabalhei durante os fins de semana, quando estudava literatura inglesa e ciência política. Estudei a literatura de escritoras negras. Fui professora durante 14 anos. E foi a melhor parte da minha vida. Contudo, depois, pareceu-me que não era boa o suficiente para ser professora de literatura.

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