Perceber a essência da técnica para poder enxergá-la

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07 Setembro 2013

Foto: Mariana Staudt

“Será que alguém olha para um rio sem pensar na questão energética ou na exploração turística? A floresta não tem nenhuma verdade em sí mesma. A verdade dela é cama e guarda roupa. Essa objetivação da técnica, ao estilo cartesiano, prolonga a natureza como disposição ao nosso dispor. Ou seja, a floresta se transforma em condição de produção de alguma coisa. Nos colocamos diante da natureza para a sua transformação técnica”, explica o professor doutor em filosofia Franklin Leopoldo e Silva. A reflexão levava em conta a concepção moderna de técnica em contraposição ao conceito da antiguidade, em que o homem não agia como imperativo em relação a natureza, mas em consonância.

Franklin Leopoldo e Silva proferiu a conferência “Heidegger e a questão da essência da técnica” na noite da quinta-feira, às 19h30, 05-09-2013, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. O evento integra o II Seminário preparatório para o XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Técnica e razão

O professor chamou a atenção para uma questão elementar da técnica logo no início de sua apresentação. “A técnica é o uso racional da razão”, disse. Nesse sentido, foi avançando para pensar a capacidade humana de organizar relações e formar redes. O modo perfeito de formar tais relações seria o emprego harmônico entre ciência (no sentido de racionalidade) e técnica, entretanto, a técnica se inseriu em nossa vida em tantos aspectos que demarcar as fronteiras não se tornou somente nebuloso, como não somos mais capazes de percebermos isso, como aponta Franklin. “O processo que levou a hegemonia da técnica produziu um fenômeno de interiorização de seus critérios que não conseguimos perceber sua subjetivação nem mesmo naquilo que ela tem de peculiar”, frisa.

Progresso

A visão contemporânea de progresso está calcada na possibilidade inquestionável de desfrutar das vitórias da técnica. Ao contrário do que acontecia no século XIX, por exemplo, a ideia de inovação não comporta mais nem expectativa, nem surpresa. “A expectativa e a surpresa foram transferidas para a certeza rotineira das inovações. Hoje sabemos da inovação e da obsolescência, mas houve um momento em que a inovação era uma coisa fascinante. A inovação não é mais extraordinária, mas faz parte da realidade. O novo nunca nos faltará”, destaca Franklin.

A questão da técnica

Fazendo aproximação com o texto de Heidegger, o professor lembrou que “a técnica é aquilo que se coloca como questão, como algo que suscita um questionamento, não temos como aplicar à própria técnica uma técnica que a definiria e solucionaria”, sustenta. “A técnica não é a mera aplicação do conhecimento e isso se torna perceptível quando temos que usar uma técnica para resolver d si própria. O texto do Heidegger é uma interrogação e uma meditação. É, sim, uma atitude interrogante de aprofundar a resposta. A interrogação para Heidegger nada tem a ver com o intervalo onde se pré-constitui uma resposta. A própria interrogação constitui um caminho a percorrer e não uma tática de saberes e respostas. O ato de interrogar é sempre uma reposição da questão”, esclarece.

Para Franklin, o fato de a técnica estar nas nossas vidas não significa que já temos as respostas. Ele destaca que essa familiaridade contém certo ocultamento, envolvendo, também, certo riso de trivialidade. “A técnica está presente de uma forma avassaladora em todos os aspectos de nossa vida. Não passamos um instante sem pensar a técnica. Ela nos afasta das coisas com as quais convivemos sem percebermos. É a extensão e a intensidade da técnica que nos exige esse pensamento”, avalia.

Técnica e essência

Foto: Ricardo Machado

A técnica não é a mesma coisa que a essência da técnica. O que domina toda a árvore enquanto árvore não é aquilo que podemos perceber em todas as árvores”, foi desta forma que o professor sintetizou a problemática da técnica e da essência.

Avançando na discussão, ele reiterou que a questão da técnica é o problema da essência e não das manifestações mais imediatas e superficiais dela. “A essência está tão longe de nós quantos os efeitos imediatos estão próximos. Por isso é necessário a meditação, que pode ser considerada, como exercício de pensamento que prepara a apreensão de algo especial. Na raiz das meditações de Descartes, é preciso ultrapassar tudo aquilo que oculta o que deve ser pensado”, explica Franklin. “É nesse sentido que a meditação supera as representações, o mundo prático faz com que a representação que temos dele seja reestruturada. Heidegger chama isso de representação calculante. Isso não é o pensar, é aquilo que nos faz representar a estrutura da realidade que nos permite uma relação teórica e prática frutífera”, complementa.

Libertar-se da técnica

O professor considera, na perspectiva heideggeriana, que enquanto nos detivermos no que é técnica não seremos capazes de experimentarmos a relação com a essência dessas questões. “Se a recusa da técnica provém de uma relação de quem está atado a ela, não é livre, porque não há condições de se libertar do contexto dela. Não é possível pensar a técnica no interior dela mesma”, ressalta.

A liberdade postulada pelo conferencista, diz respeito a pensar a técnica sem ser um objeto, um fenômeno físico, mas, sim, um modo de vida. “A técnica reifica tudo, mas se reificamos a técnica, reificamos nosso modo de vida técnico. Trata-se de criar uma divisão para que vejamos o que nos vincula à técnica e porque ela é tão importante. Se vamos ou não nos livrar do vinculo é outro problema, mas não para objetivá-lo e sim para pensar com objetividade”, resume o professor. “O produto técnico e suas formas de elaboração não nos permitem o domínio técnico naquilo que ela tem de evento. A instrumentalização não passa por um meio, mas por um acontecimento da técnica. Se isso acontece estamos presos e impossibilitados de pensarmos livremente. Conhecer a essência da técnica não nos faz abandoná-la, mas nos permite se aproximar dela”, sugere o conferencista.

Desvelar a verdade

A possibilidade de definir a técnica pela técnica era um aspecto em que Heidegger desejava se afastar. É por essa razão que o alemão se refere a pensar a técnica como caminho, recuperando o sentido grego do termo, que tem a ver com método, ou seja, caminho para desvelar, desabrigar a verdade. “O Heidegger pega a teoria das causas do Aristóteles para pensar a problemática. O nosso modo habitual de compreender nos leva a pensar como a causa opera para entendermos seu efeito. A causa eficiente seria a única que interessa, pois mostra como o lado operativo aparece, produz resultado. Porém é isto que faz com que Heidegger venha questionar essa operação para obter o resultado. O real é um constante efetuar-se, disse Hegel, será que a efetuação dá conta disso que entendemos como causalidade?”, provoca Franklin.

O problema da causa

“Qual o problema da causa final?”, pondera Franklin. Ele explica que no plano da teleologia não há operacionalidade direta para esta questão. “A causalidade é comprometimento, não um fazer, é o que circunscreve um fim que ao objeto. A causa final, portanto, inicia um processo, é a partir daí que um vaso cumpre sua função. Depois de esgotado o processo, é que ele começa a ser o que ele é”, explica. “O sentido teleológico é aquilo que compromete uma coisa com determinado fim. Assim, poiesis pode significar também o desabrochar da flor, por isso transpõe a fabricação. Aquilo que não estava presente aparece e como presença se desvela e mostra a sua verdade, daí a palavra grega alétheia, o desvelamento do esquecimento, que na sua concepção original corresponde à verdade. Há, portanto, uma distancia para pensar a noção de verdade entre o surgir e a exatidão da representação no sentido cartesiano”, explica.

O que sobra à essência

Franklin lembra que Heidegger preocupou-se com a questão da essência da técnica e acabou descobrindo aspectos relativos à verdade. “A essência da técnica é um modo de desabrigar, onde acontece a alétheia. O próprio Heidegger é o primeiro a considerar que essa concepção é decepcionante, pois se esperava que a essência fosse uma coisa a mais”, avalia o professor. Ter esse entendimento significa consideramos que devemos aos gregos a essência da técnica, o que parece conter certa contradição quando pensamos a técnica como uma das expressões mais eminentes da modernidade. “Como podemos dever isso aos gregos? Tem que haver uma diferença muito significativa. Nós fazemos muito mais do que isso, pois uma bomba nuclear é muito mais que um vaso grego”, provoca o professor.

Na sequencia, ele explica. “Do ponto de vista histórico não há dúvida que existem diferenças e os exemplos são vários. A técnica antiga acompanha e se cerca da natureza muito mais que a domina e destrói. O moinho de vento é uma adapatação das necessidades humanas a um fenômeno natural, o vento. Nós dispomos de máquinas que são capazes de inverter a relação das coisas, por isso parece muito mais autônomo. Na antiguidade era um desabrigar em consonância com a natureza. Reconhecida essa diferença histórica, ela não é suficiente para superar a essência da técnica, que é desabrigar, desvelar. No homem moderno esse desvelar é ordenante, ele diz o que a natureza deve fazer”, conclui.

Técnica e liberdade

Heidegger, explica o professor, vê o uso da essência da técnica como um ato de exercer a liberdade. “Dasein é o seu destino, é o que ele tem que revelar. Ao aceitar esse destino o homem encontra a sua liberdade, superando a dicotomia de ser contra ou a favor. Quando um homem cumpre seu destino ele exerce sua liberdade”, aponta.

“A técnica tem um perigo de outra natureza, que é a do ente que pensa o mundo como tecnicamente calculável. O mundo é pensado dessa forma e isso não é errado, falso. É historicamente explicável, mas traz o perigo da instrumentalidade, ou seja, só a conexões objetivas no mundo calculável e tudo o que há para saber são conexões objetivas”, ressalta o professor. Por outro lado, contrapõe que “ali onde está o perigo, está a salvação”.

Por fim, Franklin destaca. “O que temos ao final do texto de Heidegger é a configuração da questão, que faça dela um problema, sem ser uma peça, um dispositivo técnico que fatalmente nos aprisionará. O lugar da liberdade nos faz retornar ao lugar do poder da técnica”, conclui.

Foto: Ricardo Machado

 

 

Quem é Franklin Leolpoldo e Silva

Franklin Leopoldo e Silva é graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP, universidade onde lecionou desde a década de 1970 e está aposentado. Atualmente dá aulas em outras três faculdades em São Paulo – São Bento, São Judas e Carmelianos. É autor de dezenas de artigos e publicou seis livros, entre eles, o intitulado “O Outro”, publicado pela editora WMF Martins Fontes (São Paulo: 2012).

 

 Para ler mais:

- A universidade e a formação cidadã. Um divórcio. Entrevista especial com Franklin Leopoldo e Silva publicada nas Notícias do dia, de 05-09-2013, no sítio do IHU.

- Democracia na universidade católica. Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto publicada nas Notícias do dia, de 20-12-2012, no sítio do IHU.

- A Banalidade da ética e da política. Entrevista com Franklin Leopoldo e Silva publicada nas Notícias do dia, de 14-09-2006, do sítio IHU.

- A transformação da universidade num campo de missão a partir do conhecimento. Entrevista com Carlos Eduardo Procópio publicada na Revista IHU On-line da edição 307, de 08-09-2009. 

Galimberti e o ser humano na idade da técnica. Confira nas Notícias do dia, de 13-05-2013, no sítio do IHU. 

 (Reportagem de Ricardo Machado)

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