Presidente dos bispos franceses prevê mulheres cardeais no futuro

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14 Julho 2020

O arcebispo de Reims acredita também que as mulheres devem ter direito a voto no Sínodo dos Bispos.

A reportagem é de Claire Lesegretain, publicada por La Croix International, 10-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Dom Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal FrancesaCEF, diz imaginar um dia em que haverá mulheres no Colégio Cardinalício.

E em uma longa entrevista concedida a Noosphère, revista da Associação Francesa dos Amigos de Pierre Teilhard de Chardin, e na qual trata de vários temas, o arcebispo admite ter ficado “completamente perplexo” com que irmãos religiosos não ordenados tenham podido votar nas assembleias do Sínodo dos Bispos, mas as mulheres não.

A entrevista, realizada em 18 de maio, só recentemente foi tornada pública.

O arcebispo, de 58 anos, nomeado pelo Papa Francisco para liderar a Arquidiocese de Reims há quase dois anos, falou sobre uma variedade de temas.

Quanto à governança eclesial, ele diz que a Igreja “não pode agir como se os seres humanos fossem crianças que devem ser seguradas pela mão”.

“Esse é o modo como a Igreja funcionou no passado”, admite de Moulins-Beaufort, que recentemente completou o primeiro ano de um mandato de três anos na presidência da CEF.

Mas, continua ele, algo desse tipo não é mais possível “em uma sociedade onde uma maioria das pessoas tem formação superior, onde a fé religiosa é grandemente escolhida ou livremente abraçada”.

Isto é particularmente verdade desde que, segundo a teologia católica, todos os batizados “encontram-se em pé de igualdade diante da Revelação, visto que os bispos e os padres não estão, em princípio, mais pertos de Deus do que os leigos, nem são mais sabedores do que eles”.

“A voz de todos os batizados, desde o momento que eles tentam abraçar o cristianismo, deveria poder contar tanto quanto a voz do clero”, diz na entrevista o arcebispo.

Sobre a questão do lugar da mulher na Igreja, o religioso considera que “nada as impede de ocupar funções muito mais importantes nos trabalhos da instituição, com tudo sendo uma questão de competência”.

Além disso, o arcebispo não se opõe ao reestabelecimento do diaconato feminino, sob a condição de que ele leve a uma organização de Igreja “mais descentralizada e mais fraterna”.

Sinodalidade e fraternidade

“O desafio da reforma da Igreja é que nós vivemos a sinodalidade em todos os níveis, e esta deve ter origem na fraternidade”, insiste ele.

“Os nossos organismos de governo deveriam sempre se modelar por uma fraternidade concreta na qual vemos homens e mulheres, sacerdotes e leigos”, acrescenta o arcebispo na entrevista.

“Até que haja um progresso no sentido da fraternidade, receio que lidar com a questão dos ministérios ordenados acabe tornando a estrutura mais complicada e impeça o progresso”, argumentou.

No entanto, de Moulins-Beaufort disse pessoalmente imaginar “que a Santa Sé um dia seja liderada pelo papa cercado por um colégio de cardeais no qual há mulheres”.

“Mas se não lidarmos com a forma como homens e mulheres devem trabalhar juntos nas estruturas religiosas constituídas em fraternidades, tudo isso será em vão”, advertiu.

“Em um formato sinodal completo, devemos ouvir mais a voz das mulheres, visto que a sucessão apostólica é reservada aos homens”, continuou o presidente da CEF.

Também na entrevista o prelado admite achar incompreensível que as mulheres tenham sido convidadas a participar das assembleias sinodais em Roma, porém sem o direito a voto.

“Dizer que apenas os bispos irão votar parece lógico. Mas a partir do momento em que os padres e os irmãos religiosos não ordenados estão autorizados a votar, eu não compreendo por que as religiosas não podem ter direito a voto”.

“Fico completamente perplexo com isso”, exclamou o arcebispo.

De Moulins-Beaufort empregou palavras ousadas em referência ao Islã, observando, antes de mais nada, que a disseminação desta religião “se baseia, em grande parte, no crescimento populacional”.

“Eles têm um monte de filhos. Bom pra eles”, disse.

Mas acrescentou que o Islã há tempos “tem estado em uma situação de grande crise”, com um dos sintomas sendo a sua “politização através de movimentos islamistas”.

Enfraquecimento dos dogmas

O arcebispo, que focou sua tese de doutorado nos escritos do teólogo jesuíta Henri de Lubac (d. 1991), mostrou-se particularmente preocupado com o fato de que parece quase impossível o Islã empreender uma exegese de seus textos fundacionais.

“É inevitável que isto venha a acontecer dentro do próprio Islã, considerando que, hoje, essa tarefa é realizada por estudiosos islâmicos de origem cristã ou agnóstica”, observou Dom Eric de Moulins-Beaufort.

“Quando os muçulmanos cultos, refinados se puserem à exegese do Alcorão, uma série de dogmas irão se enfraquecer, em particular o do caráter incriado do Alcorão, o qual impacta grandemente na ideia da revelação no Islã”, salientou.

E mais, segundo o arcebispo os muçulmanos nos países ocidentais “fatalmente experimentam uma liberdade pessoal, o que eu duvido que o Islã tenha a capacidade de levar plenamente em consideração”.

Ele disse que este tipo de liberdade pessoal “pode corroer as estruturas familiares, sociais e religiosas que são defendidas no Islã”.

De Moulins-Beaufort disse que “vai ser muito difícil” o Islã aceitar estas experiências de liberdade.

E, por isso, o arcebispo teme uma “tentação mais que patológica em construir um estado islâmico, o qual, na melhor das hipóteses, é um retorno ao califado; na pior das hipóteses, a constituição de um império baseado em pilhagem, escravidão, força e violência”.

Palavras duras sobre a China

O presidente da CEF falou com candura e coragem sobre outros temas, desde as variadas crises que o mundo enfrenta atualmente (financeira, climática, de covid-19) até a governança global, bem como a democracia e o nacionalismo.

Ele inclusive citou a China...

“Há tempos sabemos que a China não respeita, na realidade, as regras da Organização Mundial do Comércio”, disse.

“Os organismos internacionais deveriam ser capazes de dizer isso, mas eles não são”, lamentou o arcebispo.

“Se quisermos evitar a ascensão do nacionalismo, é essencial que os países que concordam com as regras internacionais as respeitem”, insistiu.

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