Papa Francisco, a igualdade de gênero e a ideia de machismo. Artigo de Michelle A. Gonzalez

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30 Setembro 2013

Ao evocar a palavra machismo, Francisco não está apenas tomando uma postura crítica contra a hierarquia social; ele também está rejeitando a compreensão patriarcal e essencialista das mulheres que limita a sua plena humanidade, e a plena humanidade dos homens também, reduzindo-as a estereótipos de gênero.

A opinião é da teóloga norte-americana Michelle A. Gonzalez, professora de estudos religiosos da Universidade de Miami. É autora de Created in God’s Image: An Introduction to Feminist Theological Anthropology (Orbis Books, 2007) e Embracing Latina Spirituality: A Woman’s Perspective (St. Anthony Messenger Press, 2009). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 26-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 13 de março, eu estava junto com a multidão na Praça de São Pedro, esperando para participar da história. Era muito difícil de ser cínica em tal exuberante multidão, mas vou confessar que eu estava nervosa e desconfiada enquanto esperávamos pelo "nome" que seria lido. Quando Jorge Mario Bergoglio foi anunciado, o som se abafou; muitos de nós só ouviram o nome Francisco. Uma sensação de pavor penetrou em mim, tentando digerir a eleição de outro papa europeu. Então, lentamente, a multidão percebeu quem era o novo papa estava e começou a gritar de alegria pela Igreja latino-americana.

O mesmo ceticismo tem me acompanhado ao longo dos últimos meses. Como uma cubano- americana que concentra a sua pesquisa sobre o catolicismo latino-americano e latino, eu senti uma grande alegria pessoal e profissional na eleição do nosso primeiro papa latino-americano. No entanto, enquanto eu observava os muitos gestos de humildade do Papa Francisco, eu não podia deixar de querer mais. Esses momentos foram importantes, mas eu, assim como alguns outros, queríamos uma mudança. Eu não tive que esperar por muito tempo.

Com a sua entrevista publicada na semana passada, Francisco revelou que esses momentos de transformação pessoal andam de mãos dadas com um chamado por uma transformação social mais ampla da Igreja como um todo.

Muitas declarações dessa entrevista se destacam para mim. Quando Francisco reviveu a imagem do "povo de Deus" em sua compreensão da Igreja, ele nos lembrou da interconexão de toda a humanidade. Nós não encontramos o sagrado sozinhos, mas sim dentro da comunidade, e Deus nos encontra através da participação nessa comunidade. Essa comunidade inclui leigos de todas as idades, dos jovens que ele encontrou no Brasil aos idosos como a sua abuela Rosa.

Essa imagem se associa à sua rejeição da imagem da Igreja como uma pequena capela que só reúne uma pequena elite. Porque a Igreja não é apenas para as elites; a hierarquia, até mesmo o próprio papa, deve entrar em diálogo com o povo de Deus. Todos são igualmente convidados, e não apenas especialistas teológicos e clérigos.

Francisco não apenas rejeita uma Igreja elitista, mas também rejeita a redução do catolicismo às candentes questões morais. Ele não quer reduzir a Igreja a discussões sobre o aborto, o casamento gay, a contracepção e a homossexualidade. Em seus comentários, ele faz uma distinção entre ensinamentos dogmáticos e morais, lembrando-nos de que eles não têm o mesmo peso.

No entanto, talvez seja por causa do meu trabalho anterior sobre religião e gênero, ou por causa do fato de que eu nunca pensei que viveria para ler um papa dizer a palavra machismo, mas os seus comentários sobre o "machismo feminino" destacaram-se como a sua declaração mais provocante. Francisco rejeita um machismo feminino fundamentado em uma visão essencialista de homens e mulheres. Machismo é a palavra espanhola usada para descrever a encarnação particular do sexismo nas comunidades latinas e latino-americanas. Ela é muitas vezes mal traduzida no sentido de "macho" ou "viril". Não é esse o caso. Embora ela tenha uma história no sentido de evocar cavalheirismo e bravura, hoje, em espanhol, ela é mais frequentemente usada para descrever a estrutura patriarcal da vida na América Latina.

Ao evocar a palavra machismo, Francisco não está apenas tomando uma postura crítica contra a hierarquia social; ele também está nos lembrando das suas raízes latino-americanas. Ele está rejeitando essa compreensão patriarcal e essencialista das mulheres que limita a sua plena humanidade, e a plena humanidade dos homens também, reduzindo-as a estereótipos de gênero.

Francisco não toma uma atitude indiferente com relação ao coro de mulheres de base, pastorais e acadêmicas que, durante décadas, imploraram que a Igreja fosse mais aberta à noção de autoridade das mulheres na Igreja. Rejeitar o machismo é uma rejeição do patriarcado e da sua construção limitada da voz e da autoridade das mulheres. Francisco nos chama a uma conversa mais profunda sobre a autoridade das mulheres baseada em uma teologia das mulheres. Isso vai levar – ele parece implicar – a encontrar um papel de autoridade para as mulheres.

Eu tenho ouvido o coro de vozes céticas – algumas na minha cabeça, devo admitir – que dizem que mesmo isso não é suficiente. Algumas argumentam que Francisco não está dizendo nada de essencialmente novo. Ele está meramente reiterando o que a tradição contém. A mudança é apenas de ênfase. Outras afirmam que isso não é suficiente depois que as mulheres têm sido marginalizadas durante séculos na Igreja Católica Romana. Não é nenhuma revolução. E mesmo assim é. Francisco está nos chamando a entrar em um diálogo e a entrar nele humildemente. Quando ele se descreve como um pecador no início da sua entrevista, ele está lembrando a todos nós que somos pecadores também.

Eu estava discutindo a entrevista do papa com alguns amigos algumas noites atrás, particularmente à luz dos meus próprios pontos de vista teológicos. Eu perguntei: "O que uma teóloga católica feminista deve fazer quando concorda com o papa sobre gênero?". Uma gama de respostas se seguiu, a maioria bem-humoradas no tom. No entanto, brincadeiras à parte, o que perdurou foi esperança.

Eu espero que isso seja um novo amanhecer na história da Igreja, em que todos somos convidados ao diálogo juntos. É uma conversa entre teólogos, leigos, bispos, o papa, abuelas e jovens, pois nós somos o povo de Deus.

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