Novo presidente da Conferência dos Bispos da França diz que é hora de mudar

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01 Julho 2019

Segundo o prelado, é através de uma maior proximidade que podemos tornar a Igreja mais atraente para os nossos contemporâneos que buscam uma forma de crescimento pessoal.

A reportagem é de Bruno Bouvet, Dominique Greiner e Céline Hoyeau, publicada por La Croix International, 27-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O novo presidente da Conferência dos Bispos da França, o arcebispo Éric Marie de Moulins d’Amieu de Beaufort, de Reims, acredita que a Igreja da França deve adotar novas formas de pensar e agir.

Eis a entrevista.

O senhor sente que está liderando uma Igreja em crise?

Seria absurdo negar que estamos em crise. Ela vem durando há algum tempo: as revelações de agressão sexual se somam à queda nas vocações. Ao mesmo tempo, também existe na nossa Igreja uma bela juventude, forças vivas, iniciativas impressionantes. O decisivo é a nossa relação com o Senhor, nosso modo de alimentá-la. A nossa Igreja deve trabalhar para estar sempre a serviço desse vínculo, em vez de se preocupar consigo mesma como instituição.

Como a Igreja pode se posicionar diante dessa perda de “ancoragem territorial” na nossa sociedade?

A proximidade é um desafio. E é por isso que os padres devem estar mais próximos e disponíveis. Redescobrir o que experimentamos no início do cristianismo, uma forma de itinerância. Estar menos na organização do que no encontro com as pessoas. Esse desafio não diz respeito apenas aos padres. Antes de falar sobre a organização de um evento em uma reunião, podemos começar dando notícias uns aos outros! Mas essa mudança de perspectiva não é autoevidente e levará tempo. A queda no número de padres é uma restrição que nos empurra para essa direção.

Certamente é um momento difícil de viver, mas essa fraqueza também é uma força: finalmente, somos obrigados a mudar! Não se trata mais de procurar compensar a ausência de padres através de sucessivas reorganizações, mas sim de nos perguntar o que estamos fazendo com aqueles que Deus nos deu. A restrição será fonte de uma criatividade inesperada. E é através de uma maior proximidade que podemos tornar a Igreja mais atraente para os nossos contemporâneos que buscam uma forma de crescimento pessoal.

O senhor terá força e coragem para dizer: a rede paroquial acabou?

Eu não diria que a paróquia acabou. No futuro, haverá menos locais eucarísticos nas dioceses devido à diminuição do número de padres. Precisamos de entidades locais, que sejam lugares de uma verdadeira fraternidade cristã, que se alimentem de uma oração comum mais determinada e depois por uma ação comum.

O senhor é favorável a uma reflexão como a que será realizada na Amazônia sobre a ordenação de homens casados?

Essa opção não é uma solução para compensar a falta de vocações. Seria até desrespeitoso para com os homens que viéssemos a ordenar. Essa não é uma boa maneira de se pensar. A escolha de ordenar homens celibatários é uma escolha espiritual, feita em um momento da nossa história, que pode ser reavaliada. No entanto, parece-me que a situação da Amazônia é muito diferente da da França. Mas, para além dos viri probati, podemos nos perguntar sobre a capacidade do homem ocidental de viver o celibato. A nossa relação com o corpo, com a sexualidade mudou enormemente no último século.

Precisamos também reformar a nossa relação com o corpo, com a sexualidade?

É toda a sociedade, na relação com o corpo, que se transforma, não apenas os católicos. O nosso corpo não é usado globalmente da mesma maneira hoje porque as tecnologias assumiram o controle. Nós as utilizamos no lazer, nos esportes e no erotismo. Essa é uma grande mudança, e não medimos completamente as suas consequências. De minha parte, eu acho que nós, católicos, temos alguma riqueza de sabedoria e de profundidade, nós temos uma certa ideia do corpo que nos distingue de muitos outros.

A crise dos abusos sexuais não torna o discurso da Igreja sobre o assunto inaudível?

Ela pode privar a nós, bispos e padres, de uma legitimidade para falar e oferece argumentos para aqueles que não querem nos ouvir. Mas, por um lado, o que temos a dizer continua sendo interessante. E, por outro lado, não cabe apenas aos bispos ou aos padres se expressar sobre esses assuntos; cabe também aos leigos, a cada cidadão, falar sobre esses assuntos que dizem respeito a eles em primeiro lugar.

O senhor também é arcebispo de Reims. Como você vê hoje o caso de Vincent Lambert [ex-enfermeiro que ficou paraplégico devido a um acidente rodoviário há sete anos. Agora com suporte vital, sua família e, de fato, a França, estão divididas quanto ao fato de mantê-lo vivo ou, na opinião de alguns, permitir que ele “morra com dignidade”]?

Com muita dor, porque esse caso existe por causa de uma ferida familiar. Além disso, esse caso trágico levantou várias questões: o que significa reanimação? Por que a fazemos e até onde? Seu corpo não parece pronto para morrer, mas vários médicos parecem considerá-lo morto. Essa definição deve evoluir? O que eu não acho justo é considerar isso como um caso de fim de vida. Ele não se enquadra nessa categoria, parece-me.

Sobre as questões bioéticas, como a Igreja deve transmitir a sua mensagem?

Devemos dizer, o mais alegremente possível, que o lugar mais significativo da emergência da vida humana é o abraço de um homem e de uma mulher, que escolheram se doar um ao outro pela vida inteira. Por não poderem curar a infertilidade, a sociedade se lançou na aventura da manipulação genética e escolheu técnicas médicas muito sofisticadas. A cada revisão das leis de bioética, vemos que os políticos são incapazes de resistir a essa corrida tecnológica.

Há alguns anos, o senhor recebeu uma formação sobre liderança. O que isso lhe trouxe?

Esse tipo de sessões nos ensina a não administrar a “queda final”, mas a pensar em uma Igreja em crescimento. Elas oferecem ferramentas muito variadas para que as pessoas trabalhem juntas e obtenham um resultado concreto e eficaz. Desse ponto de vista, é preciso renovar a assembleia dos bispos. Nós temos um modo de funcionamento parlamentar. Cada um dos 100 bispos deve falar com igualdade: no entanto, alguns se sentem desconfortáveis e se expressam pouco; outros, pelo contrário, muito. O trabalho em fóruns já marcou uma evolução, mas ainda há muita perda entre os debates e os seus retornos.

As respostas dos leitores do La Croix e The Pilgrim à operação “Reparemos a Igreja” nos fazem ouvir um clamor: escutem-nos! Como se suas experiências de vida não fossem levadas em conta, integradas. O que o senhor pensa a esse respeito?

É preciso progredir, é verdade. Mas o nosso papel como bispos, por sua vez, é ajudar os fiéis a se estimarem mutuamente. Isto é, reconhecer-se como discípulos de Cristo, quaisquer que sejam as suas opções sociais e políticas. Aceitar que o julgamento pertence somente a Deus. São Paulo diz em sua Carta aos Filipenses: “Cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Essa deve ser a regra entre os cristãos, quaisquer que sejam os assuntos sobre os quais falemos. O nosso catolicismo na França talvez seja um pouco ideológico demais. Tanto em um sentido quanto no outro.

 

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