Uma entrevista com Gilles Kepel, especialista em movimentos fundamentalistas islâmicos. Sinais de esperança

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08 Novembro 2019

Meio século de história no Oriente Médio, uma região em perpétuo conflito - desde a guerra de Kippur de 1973, marcada nos últimos anos pelas Primaveras árabes, a devastação no Iraque, o longo conflito na Síria e a ascensão da Turquia - onde, no entanto, vislumbram-se sinais de esperança: é o que é abordado no último livro de Gilles Kepel, cientista político especialista no mundo árabe-muçulmano, intitulado Uscire dal caos — La Crisi nel Mediterraneo e nel Medio Oriente (Sair do caos – A crise no Mediterrâneo e no Médio Oriente, em tradução livre, Milão, Raffaello Cortina, editora, 2019 , p. 416, euro 24,65).

Entrevistado pelo L'Osservatore Romano por ocasião da apresentação do livro na Itália, o autor também evoca a questão do Islã na França, enquanto o presidente Emmanuel Macron solicita à comunidade muçulmana um maior empenho na luta contra o extremismo religioso e o papel que o cristianismo pode desempenhar na integração das minorias na sociedade.

A entrevista é de Charles de Pechpeyrou, publicada por L'Osservatore Romano, 02 e 03-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Seu livro não é apenas uma descrição de uma situação que há mais de quarenta anos está se degenerando no mundo árabe-muçulmano: você também vislumbra sinais positivos. Pode nos falar sobre isso?

Um ponto positivo é o que acontece hoje na Argélia: há cerca de quarenta semanas estão se realizando toda sexta-feira marchas pacíficas, sem cair em violência nem com manifestações de extremismo religioso. Temos a impressão de testemunhar uma segunda onda da Primavera Árabe, que, porém, teria tirado lições dos erros do passado.

Além disso, o Ocidente deve favorecer a reconstrução da região de Levante, após o colapso do autodenominado Estado Islâmico, porque essa região permanece fundamental como uma ponte entre a Europa e o Oriente Médio, justamente graças à comunidade cristã, que em parte deixou o Líbano ir para viver no exterior. Agora, é uma questão de movimentos e reivindicações sociais que fazem prevalecer princípios universais, como a justiça, o padrão de vida e até a ecologia, sobre a ordem de líderes religiosos extremistas ou sectários. O que impressiona no Líbano e no Iraque é a falta de confiança no poder que até agora sempre se apresentou como defensor do povo, dado que alguns líderes políticos são acusados de corrupção. Ainda no Líbano, deve-se notar que essas reivindicações são encontradas em todas as confissões: dos sunitas e cristãos no norte, mas também agora no sul, onde os xiitas se levantam contra o Hezbollah.

Vamos para o outro lado do Mediterrâneo, na França, onde se reacendeu o debate sobre o véu islâmico, trinta anos após o primeiro caso das duas estudantes do ensino médio que chegaram à escola usando o véu em Creil, na periferia de Paris.

É muito interessante observar que o caso das meninas de Creil ocorreu há trinta anos, em 1989, na época da queda do muro de Berlim em 9 de novembro, um evento que não poderia ter sido realizado se o poder soviético não tivesse sido derrotado no Afeganistão e obrigado a se retirar da Europa Oriental. Naquele momento, a grande narrativa antiocidental não era mais comunista, mas jihadista. O ano crucial dessa virada é justamente 1989, em nível internacional como dentro dos países. Depois, os casos sobre o véu islâmico voltaram à ribalta periodicamente e novamente este ano. Hoje, em alguns bairros isolados, foram criadas inclusive escolas muçulmanas não paritárias que incentivam a sharia e o abandono dos valores da República. Assim, se criam ecossistemas nos quais se desenvolve o jihadismo de quarta geração, do qual o autor do ataque à Prefeitura de Paris é um exemplo.

Para resolver as situações de tensão ligadas ao Islã na França, você acha que a Lei de 1905 sobre a separação do Estado e da Igreja deve ser reformada?

Os fundamentos da lei de 1905 não mudaram, o texto foi modificado algumas vezes, como acontece com todas as leis humanas, mas não acredito que deva ser alterado para uma religião em particular. Hoje, não apenas na França, mas também na Alemanha, por exemplo, um dos desafios mais importantes a enfrentar é o surgimento de reações de fechamento sobre si mesmo que fragmentam a sociedade: de um lado a expansão dos salafitas, de outro a extrema direita: eles se alimentam uns dos outros, tomando como refém as franjas da população que estão no meio. Esse é um verdadeiro problema e estou convencido de que as autoridades espirituais, começando pela Igreja, têm um papel a desempenhar para lembrar a coisa mais importante, ou seja, a humanidade do homem, e não a exacerbação da identidade própria.

Que papel o cristianismo pode desempenhar na questão de integração do Islã à sociedade?

Na Europa, na minha opinião, o aspecto que a comunidade islâmica imigrada considera essencial é a igualdade de oportunidades, na esfera política e social. Nesse sentido, a ação social da Igreja é fundamental, principalmente com ajuda aos menores e mais fracos. Até o início dos anos 1980, os dois atores mais presentes nos bairros populares eram a Igreja e os sindicatos. Estes últimos estão desaparecendo com a desindustrialização, então hoje cabe essencialmente à Igreja interagir com os jovens. Isso se traduz em respeito mútuo, mas também conversões em ambas as direções.

Este ano é comemorado o 800º aniversário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão do Egito. Que significado esse evento pode ter hoje e que lições podemos tirar dele?

A relação de amizade entre Francisco e Malik-al-Kâmil de alguma forma representa uma parábola sobre a relação entre cristianismo e islamismo ao longo da história. Hoje, parece que essa relação se manifeste principalmente através de iniciativas comuns entre as duas religiões, sobretudo a favor da justiça e da igualdade. Provavelmente trata-se mais de convergências que de um diálogo meramente dogmático.

Em 4 de fevereiro, o Papa Francisco e o Grande Imam de Al-Azhar assinaram o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e convivência comum. O que esse evento representa para você?

A assinatura do documento de Abu Dhabi mostra como a Igreja é uma força de paz e reconciliação, um fato muito importante neste mundo tão profundamente dividido. Esse é um passo muito útil em relação a um diálogo que no passado havia sido marcado por algumas dificuldades e ingenuidades. Agora, o diálogo está muito mais ligado ao que acontece concretamente, entendeu-se que não era preciso fantasiar sobre o diálogo.

 

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