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06 Setembro 2017

O teólogo Fitzgerald apresenta reflexões sobre alguns dos noventa e nove nomes de Deus no texto sagrado dos muçulmanos, examinando as semelhanças que encontrara entre os conceitos de espiritualidade islâmica e do Novo Testamento.

O artigo é de Lorenzo Fazzini, publicado por Avvenire, 02-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Era a década de 1950. Naquela metrópole mestiça que era o Cairo, um padre católico organizava retiros regulares para jovens de três religiões diferentes, em nome de seu pai comum, Abraão. Serge de Beaurecueil, dominicano francês, um grande estudioso do Islã (em especial do sufismo), numa época em que o diálogo inter-religioso não era particularmente bem visto no mundo católico, tinha intuído que a espiritualidade e a releitura das fontes de cada fé abramítica poderiam ser uma possibilidade (usando uma expressão cara ao Papa Francisco) para construir pontes entre homens e mulheres de diferentes confissões religiosas.

Algo similar, em nossos dias, justamente quando o terrorismo de matriz islâmica arma a armadilha para provocar confrontos em nome dos diferentes credos, é o que outro sacerdote tenta fazer. Lodate il nome del Signore (‘Louvado seja o nome do Senhor’, Qiqajon, pp. 192, 15 €) poderia parecer mais um título de ensaios sobre a espiritualidade.

Mas o texto de Michael L. Fitzgerald, inglês, membro dos Missionários da África (os Padres Brancos), ex-presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso (entre 2002 e 2006, após ter sido anteriormente seu secretário por 15 anos), é uma pequena "bomba" editorial. A razão é óbvia: um bispo católico que medita sobre alguns dos 99 nomes de Deus segundo o Alcorão, construindo um processo de reflexão que rememora os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, combinando a interpretação teológica da tradição islâmica (mediante a retomada de alguns dos nomes de Alá) com aquela bíblica neotestamentária, definitivamente representa um fato singular. O mais surpreendente é que nada rescende a sincretismo nessas páginas, tão profundas quanto simples, publicadas primeiramente em inglês e francês pelo Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (PISAI), verdadeira forja de conhecimento e diálogo entre islâmicos e cristãos.

São seis núcleos temáticos centrais que Fitzgerald explora nesse livro, que pode ser lido como um mini tratado de diálogo islâmico-cristão, mas também usado para rezar como um texto de espiritualidade: Deus como Criador, Deus transcendente, Deus conosco, Deus de amor e perdão, o Rei Todo-Poderoso, Deus que orienta, Deus generoso, o Deus da paz. Como já pode ser visto apenas a partir destes, existem muitas semelhanças com a mensagem bíblica e cristã. Especialmente pelo fato que Fitzgerald nos acompanha nessa jornada de fé e conhecimento religioso junto com verdadeiros mestres de uma e de outra religião: por exemplo, o franciscano Jean Mohammed Abd el-Jalil, um muçulmano convertido ao cristianismo, aluno do grande Louis Massignon; Abdennour Bidar, o intelectual islâmico que ficou famoso após os atentados na França por sua Carta Aberta ao mundo muçulmano (Ed. Ibis); o famoso místico al-Ghazali ou o famoso islamólogo católico Maurice Borrmans.

Mas, ainda mais interessante, é descobrir algumas peculiaridades da teologia islâmica através de alguns dos 99 nomes de Alá. Fitzgerald, por exemplo, ressalta como a adesão à crença de que Deus é o criador de tudo, seja uma das afirmações de fé mais antigas do Alcorão (de forma similar à famosa passagem de Deuteronômio 26: 'Meu pai era um arameu errante' para a Bíblia): "Lê, em nome do teu Senhor que criou, criou o homem de um coágulo" (Alcorão 96: 1- 2). Comenta o autor: "Esses versos foram reconhecidos tanto por estudiosos islâmicos tradicionais, como pelos orientalistas, como pertencentes ao primeiro do núcleo do Alcorão em termos cronológicos".

Muitas vezes, acentua-se a ideia de que, em comparação com o cristianismo, o islã apresenta um Deus mais transcendente e distanciado do homem. Fitzgerald, comentando sobre o nome al-Zahir ( "o Manifesto, o Evidente"), destaca um traço distintivo de Alá: "Um poderoso líder que não é subalterno a ninguém. Portanto, pode-se recorrer a ele sem medo. Nunca será deposto; sempre estará lá. Pode-se, portanto, traduzir al-Samad (outro nome, nde) com "a Rocha, Aquele a quem sempre pode-se endereçar uma oração". Mencionava-se acima as semelhanças bíblico-corânicas.

Fitzgerald destaca uma central quando fala do Deus da bondade e misericórdia: "É interessante notar que o amor de Deus vem em primeiro lugar, assim o amor dos crentes é uma resposta ao amor divino". Uma afirmação que parece ecoar a teologia de João, "Nós amamos porque Ele nos amou primeiro" (1 Jo 4:19). E, justamente no elemento da misericórdia, são encontrados os ecos que também possuem evidências arqueológicas “Na invocação corânica ‘Em nome de Alá, o misericordioso’ aparecem duas palavras que derivam da raiz RHM, que significa útero. A primeira destas palavras é um substantivo em forma superlativa que indica a intensidade da qualidade atribuída para a raiz. Aplicada a Deus indica que essa qualidade, em seu máximo grau, pertence a Deus.

De fato, nas inscrições pré-islâmicas do sul da Arábia, encontradas no Iêmen, a palavra rahmanan (onde o sufixo ‘an’ representa o artigo definido) é usada para o nome de Deus na tradição judaica e para Deus Pai na tradição cristã”. Por fim, mesmo o apogeu do percurso que Fitzgerald propõe aproxima cristãos e islâmicos (e até certo ponto também o mundo judaico): por que os nomes do Alcorão para Deus são 99, que é um a menos do número considerado perfeito, 100? “Percebemos que as palavras humanas, mesmo quando inspiradas, são insuficientes: a linguagem humana é inadequada para expressar a verdadeira natureza de Deus. Depois de todas as nossas expressões de louvor, tendemos a permanecer em silêncio”. O centésimo nome de Deus, somente Ele o conhece. E, ao homem, cabe silenciar.

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