A Mística não é misticismo

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22 Agosto 2017

"Afirmada, portanto, a identidade própria da alta mística, é necessário isolar uma faixa intermediária que poderia ser chamada de 'espiritualidade', que não atinge o zênite fulgurante da mística recém evocada, mas que é bem alheia ao nadir do vórtice onde se acumula o entulho pseudo espiritualista a que aludimos anteriormente. Nesse âmbito intermediário, mas qualitativamente digno, podem ser incluídos muitos escritos que revelam intrínsecas capacidades intuitivas e sugerem uma experiência interna eficaz", escreve Gianfranco Ravasi, cardeal e biblista italiano, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 20-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Algum tempo atrás, circulando por uma mega-livraria no centro de uma cidade, descobri uma seção com a plaquinha ‘Religião, espiritualidade, esoterismo’. Essa mistura de componentes disparatados é, sim, gerada pela falta de conhecimento sobre o status específico de realidades muito diferentes entre si, rotuladas muitas vezes sob o guarda-chuva genérico do termo "espiritualidade". Mas também é devida a um fenômeno de carsismo efervescente, ou seja, a produção de livros originados por um entulho de refugos e aparas de vago teor de interioridade, espiritualismo, devocionismo, revelações emocionantes e até mesmo magia, astrologia, ocultismo, arcanismo, exotismos e, justamente, esoterismo.

Na verdade, como existe uma disciplina dotada de método epistemológico rigoroso próprio, que é a teologia, desde sempre se desenvolveu um horizonte espiritual que tem fisionomia típica e que atende pelo nome de "mística", e que não deve ser confundido com o gasoso "misticismo". Na verdade, é governado por uma "gramática" ideal própria, objeto de múltiplas análises, não só teológicas, mas também antropológicas, psicológicas e até mesmo literárias: só para citar um exemplo, as obras de Teresa de Ávila ou de João da Cruz pertencem por direito à literatura espanhola do siglo de oro, bem como um horizonte espiritual de brilho extraordinário. Caso, então, se desejasse outra prova, poderiam ser lidas algumas páginas daquela fascinante personalidade contemporânea a Dante que é Meister Eckhart: um de seus maiores intérpretes, Marco Vannini, seu cultuador há quase meio século, recentemente preparou uma suntuosa edição-versão do comentário latino de Eckhart ao Evangelho de João (série "Il pensamento occidentale", Bompiani), que talvez merecesse uma revisitação.

É, de fato, uma verdadeira joia em que uma afiada racionalidade, cadenciada por sequências numerológicas de argumentações quase silogísticas, entrelaça-se e organiza-se com uma meta-racionalidade que transfigura a análise exegética em uma experiência mística transcendente. Compreende-se, então, porque até mesmo figuras tão distantes da fé, como Bertrand Russell (quem não conhece, pelo menos por sua reputação, seu ensaio Por que eu não sou cristão?) não hesitou em escrever, em 1918, um texto surpreendente, desde seu título, Mística e Lógica. Naquelas páginas sem hesitação ou constrangimento afirmava que "os maiores filósofos sentiram a necessidade tanto da ciência como da mística". Ele tentou inclusive uma definição dessa realidade aparentemente tão fluida e desafeita a todo padrão de classificação: "A mística é, em essência, pouco mais do que certa intensidade e profundidade de sentimento em relação ao que se pensa sobre o universo".

Afirmada, portanto, a identidade própria da alta mística, é necessário isolar uma faixa intermediária que poderia ser chamada de "espiritualidade", que não atinge o zênite fulgurante da mística recém evocada, mas que é bem alheia ao nadir do vórtice onde se acumula o entulho pseudo espiritualista a que aludimos anteriormente. Nesse âmbito intermediário, mas qualitativamente digno, podem ser incluídos muitos escritos que revelam intrínsecas capacidades intuitivas e sugerem uma experiência interna eficaz. Esse horizonte é o foco, não raro, da proposta da editora Qiqajon da conhecida Comunidade de Bose, cujo catálogo permite, porém, aceder a patamares mais elevados da mística (geralmente do Oriente cristão). Apenas como exemplificação, recomendando-os à leitura que é fácil e sugestiva, registro uma trilogia de obras recentemente publicada por essa editora, que em seu nome evoca o arbusto (o rícino?) sob o qual Jonas, o profeta bíblico relutante, protege-se do sol escaldante de Nínive.

Alexis Jenni, Il volto di tutti i volti , pag. 132, € 14

A primeira não foi redigida pela pena de um eclesiástico, mas de um biólogo que é também um conhecido escritor francês, Alexis Jenni (1963), Prêmio Goncourt de 2011. Ele apresenta Il volto di tutti i volti (O rosto de todos os rostos, em tradução livre) que é o divino, e faz isso com um frescor inesperado que não é - como ele mesmo escreve - um frio "anúncio", mas uma "anunciação" epifânica. Através de um repertório de experiências pessoais (é fácil pensar ao outro francês, mais popular, o Carrère de O Reino, cujo percurso, no entanto, é invertido, da fé ao agnosticismo), Jenni remonta quase um mosaico, através dos múltiplos rostos humanos, do rosto único de Cristo "ícone" perfeito de Deus, nas palavras de São Paulo (Colossenses 1,15).

A ideia já havia sido sugerida no Artífice de Borges que, reconhecendo que não existem retratos de Cristo (nem mesmo evangélicos) e também buscando recursos no apóstolo, escrevia: "Talvez um traço do rosto crucificado espreite em cada espelho, talvez o rosto tenha morrido, se apagado, para que Deus seja todos".

O percurso para descobrir aquele rosto único e múltiplo é confiado por Jenni à corporeidade, como muitas vezes acontece também com a mística autêntica que não é uma etérea contemplação, nem uma decolagem do pó da história rumo aos céus de uma rarefeita abstração extática. Assim, as etapas desse itinerário rumo a Deus e o seu perfil luminoso são marcadas por sete aspectos sensoriais: saber, degustar, ver, entender, sentir, tocar, falar. E com razão, a capa traz um abraço carnal de dois rostos imersos na plenitude de abandono noturno dos corpos sonhadores, ou seja, um bronze de Igor Mitoraj (mas a imaginação também corre para a obra-prima de Bernini, o Êxtase de Santa Teresa, na igreja romana de Santa Maria della Vittoria).

Rowan Williams, Dio secondo Paolo, pag. 118, € 11

Apenas um aceno sobre as outras duas obras "espirituais" que mostram um aspecto peculiar do gênero que estamos analisando, ou seja, seu aprofundamento no mar das Sagradas Escrituras. Primeiro, vamos trazer à cena Rowan Williams, que de 2002 a 2012 liderou a Igreja Anglicana como arcebispo da Cantuária. Ele investiga as páginas de São Paulo para reconstruir o rosto de Deus, consciente do poder explosivo do Apóstolo em rasgar determinadas imagens estereotipadas do divino, especialmente com o aparecimento de Cristo, que é "novidade perigosa" introduzida pelo cristianismo. Devo confessar que a redação do arcebispo recende um pouco a ‘eclesialismo’, apesar de seu esforço para dialogar com as instâncias contemporâneas. No entanto, é evidente que o embasamento textual é sólido e impede que a mensagem teológica seja diluída em um impalpável apelo na esteira da pregação. Não é por acaso que, no final de cada capítulo, são dirigidas ao leitor uma série de "perguntas para a reflexão e discussão", capazes de despertar as consciências adormecidas.

Michael L. Fitzgerald, Lodate il nome del Signore,
pag. 192, € 15

Abordamos, por fim, o texto de outro arcebispo britânico, desta vez católico, que foi de 2006 a 2013 núncio (embaixador) do Papa no Egito, e que também é um conceituado estudioso do Islã, Michael L. Fitzgerald. O seu texto pertence a um gênero literário clássico, dos Exercícios Espirituais, que têm o seu arquétipo em Santo Inácio de Loyola, o fundador dos Jesuítas. A originalidade dessas páginas reside em sua dimensão inter-religiosa: ao lado da estrela da Bíblia, brilha também a autêntica espiritualidade muçulmana ligada aos "belos nomes" de Deus. Delineia-se, assim, um contraponto harmonioso e singular entre as duas crenças que se encontram lado a lado em contemplar o rosto do Deus criador, transcendente, mas ainda assim, próximo (mais do que é para nós a nossa aorta, escreve o Alcorão), rei e senhor, mas bom e misericordioso, guia no caminho tempestuoso da história, generoso e fiel e, principalmente, "nossa paz" suprema porque mesmo no Alcorão proclama-se que "Ele é Deus, não há mais divindade além d’Ele, Soberano, Augusto, al-Salam, ou seja, a paz" (59,23).

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