Malik: “os jovens islâmicos estão em crise. E a jihad lhes dá um sentido de identidade”

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16 Janeiro 2015

“O que está acontecendo nos desorienta, mas é preciso estar atentos para não errar análises: o islamismo radical não é um movimento religioso, mas é o modo pelo qual alguns grupos exprimem sua bárbara raiva política utilizando para este fim certa interpretação da religião. Os jovens jihadistas crescem estranhados pela sociedade nas nações européias para as quais emigraram seus progenitores. Mas, a mesma coisa também ocorre nas comunidades dos Países muçulmanos. Muitos detestam os costumes e tradições de suas famílias: os motivos pelos quais se sentem desconectados tanto pelas sociedades ocidentais quanto pelas comunidades muçulmanas, abraçando o islamismo radical que não é religioso. Há mais a fazer com sua crise de identidade. O jihad lhes dá um sentido de pertencimento, uma nova identidade: eles se reconhecem em objetivos comuns espantosamente claros”.

A entrevista é de Massimo Gaggi, publicada pelo jornal Corriere della Sera, 15-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Kenan Malik é um intelectual muito particular. Neurobiólogo e psicólogo indiano transplantado à Grã Bretanha, ensinou historia da ciência e filosofia da biologia em Cambridge e Oxford, mas também em várias universidades européias, de Oslo à européia de Florença. Os seus estudos de multiculturalismo, pluralismo e raça o levaram a publicar diversos livros de sucesso, como Homens, animais e zumbis e Da Fatwa à Jihad, um ensaio sobre as consequências do caso Salman Rushdie. E também a afastar-se da esquerda européia marxista, na qual havia militado por muitos anos. Hoje pode ser definido com um defensor dos valores do iluminismo, que refuta o multiculturalismo, mas também está decidido a rejeitar toda tentação xenófoba.

Eis a entrevista.

Que erros atribui à esquerda européia?

De um lado, uma ampla parte sua abraçou o multiculturalismo e o relativismo, acabando por considerar racista o universalismo: acusou-o de também impor aos outros povos as idéias euro-americanas da racionalidade e da objetividade. Deste modo, a esquerda renunciou ao seu impulso progressista em nome do respeito e a tolerância. Depois, há uma secção da esquerda, de pensadores como Martin Amis ou Bernard-Henry Lévy, que permaneceram mais ligados aos valores universais sobre os quais se pode construir uma verdadeira política progressista, mas que é um mito que serve para definir o Ocidente. Deste modo, o Iluminismo se torna uma arma na batalha entre as civilizações, de modo a ser o instrumento que define valores e atitudes necessárias para fazer avançar direitos políticos e progresso social.

O senhor crê, portanto, que estamos andando para um “choque de civilizações”, segundo a célebre admoestação de Samuel Huntington?

Não. Eu considerava falsa aquela noção há vinte anos, quando o ensaio foi publicado, e a considero falsa também hoje. Isto não é um choque de civilizações entre o Ocidente e o Islã, mas um conflito de valores, tanto no interior do Ocidente como nas sociedades islâmicas. Valores-chave do Ocidente, como igualdade, democracia e secularismo são contestados também por muitos não muçulmanos nas nossas sociedades, sobretudo na Europa. Basta pensar que na França se corre o risco de chegar à votação em segundo turno das presidenciais uma Marine Le Pen, a qual de certo não encarna aqueles valores. Os filhos da ex-colônias, nascidos na França, são todos considerados “africanos” e “muçulmanos”, também se a maioria daquelas comunidades é mais secular, menos religiosa do que a da velha França. Conheço gente vinda de Bangladesh e de Marrocos que é mais iluminista do que aquela que tem genitores europeus.

Então, colocá-la em termos de choque de civilizações é realmente perigoso?

Exaspera o aspecto religioso, enquanto o verdadeiro problema é aquele da identidade e a recusa da modernidade. Se tivessem nascido há trinta anos, os movimentos radicais islâmicos teriam sido certamente mais seculares e teriam sido expressos através de campanhas e organizações políticas, e não com a ação de células tribais, como vemos hoje. O problema é a mudança da natureza das revoltas: aquelas antiimperialistas da segunda metade do século vinte eram em todo o caso baseadas nos valores do iluminismo europeu. Os seus líderes combatiam as potências coloniais, mas queriam modernizar os outros países não ocidentais, levar liberdade, indústrias, desenvolvimento econômico. Os velhos movimentos revolucionários queriam desfrutar dos frutos do progresso como os europeus, não contestavam o método científico, nem a existência de valores universais. A dos radicais de hoje, ao invés, é uma revolta niilista contra o progresso e a globalização. Como escrevi no outro dia na New York Times, vivenciamos o horror das 148 criancinhas massacradas pelos talibãs numa escola paquistanesa como o choque repentino e improviso de um ato “desumano e medieval”. Mas, aquele ato não é improviso: nos últimos cinco anos os talibãs atacaram do mesmo modo, embora com resultados não tão trágicos, bem umas mil escolas paquistanesas.

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