EUA: Donald Trump e racismo dividem Igrejas

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03 Julho 2020

A explosão do conflito racial nos Estados Unidos talvez seja o sinal mais evidente da grave crise geral que atingiu o país neste ano de 2020.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Internazionale, 02-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, ocorrido no dia 25 de maio passado, e os protestos que se seguiram se somam à tragédia sanitária, social e econômica resultante da difusão tempestuosa do coronavírus.

A gravidade desse quadro é ampliada se olharmos para o próximo mês de novembro, quando os estadunidenses serão chamados a eleger o novo presidente, escolhendo entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump.

Entre os protagonistas decisivos dessa fase confusa e dramática, estão as várias Igrejas cristãs, órgãos ainda capazes de orientar o consenso de uma parte relevante do povo estadunidense.

Muito do que acontecerá nos próximos meses também dependerá, portanto, da mobilização que os diversos líderes religiosos serão capazes de despertar, em um sentido ou outro.

Alguns fatos devem ser levados na justa consideração: de acordo com as inúmeras pesquisas realizadas nos últimos meses (entre outras, são significativas as do Pew Research Center), o grupo de defensores de Donald Trump, cujo apoio ao trabalho do presidente permaneceu constante ao longo do tempo, é o dos evangélicos brancos, homens, pertencentes à classe média. Um núcleo duro que acaba de ser arranhado na sua segurança somente pela gestão (ou, melhor, pela não gestão) presidencial da pandemia; esse mesmo bloco, em seu componente feminino, é apenas um pouco menos compacto em favor de Trump. O caso Floyd, por sua vez, por enquanto, não parece ter afetado as suas convicções.

Entre as Igrejas protestantes históricas negras e entre os evangélicos afro-americanos, as proporções naturalmente se invertem em desfavor – desta vez – da Casa Branca, assim como entre os estadunidenses de origem latina, sejam eles católicos ou evangélicos (o tratamento discriminatório em relação aos imigrantes pelo governo Trump teve o seu peso e se entrelaçou com o tema do racismo).

Simbologia político-religiosa

Por outro lado, o próprio presidente decidiu, mesmo nas recentes circunstâncias incendiárias, utilizar uma simbologia religiosa para se dirigir ao seu eleitorado: nos dias em que se enfurecia o protesto pela morte de George Floyd, ele posou para fotógrafos e câmeras de TVs na frente de uma igreja episcopal, não muito longe da Casa Branca, segurando uma Bíblia em suas mãos. Depois, foi visitar o Santuário de João Paulo II em Washington e, logo em seguida, assinou uma medida com o qual os Estados Unidos se comprometem a defender a liberdade religiosa no mundo e financiar as organizações que a promovem.

Por outro lado, o governo Trump está tentando se credenciar em nível mundial, também através do trabalho do secretário de Estado, Mike Pompeo, como o verdadeiro defensor da cristandade com base em uma estratégia – de conotações extremistas – buscada com determinação (desafiando, também nesse campo, a Rússia de Putin e o Patriarcado Ortodoxo de Moscou).

As medidas de Trump, no entanto, não agradaram a todos. O arcebispo afro-americano de Washington, Wilton Gregory, criticou duramente o uso instrumental da figura de Karol Wojtyla por parte do presidente, relembrando o compromisso de João Paulo II com a promoção dos direitos e da dignidade de todos os seres humanos.

A bispa Mariann Edgar Budde, chefe da Diocese Episcopal de Washington (anteriormente, por muitos anos, à frente da Diocese de Minneapolis), também condenou a maneira desrespeitosa com a qual Trump se serviu da Bíblia e enfatizou que o presidente encontrou o tempo para posar para as fotos, mas não para parar e rezar na igreja. “Não apoiamos de modo algum a resposta incendiária do presidente a uma nação que foi ferida e está de luto”, afirmou a bispa Budde. “Em respeito aos valores do nosso Salvador, que viveu uma vida de não violência e de amor ao próximo, unimo-nos àqueles que pedem justiça pela morte de George Floyd.”

Católicos, mas divididos

O problema do conflito racial, portanto, divide as Igrejas, assim como o restante da sociedade estadunidense, mas com algumas diferenças. É o que observa Massimo Faggioli, professor de Estudos Religiosos e Teologia na Villanova University, na Filadélfia.

Em relação aos protestos contra o racismo que atravessaram o país, “as Igrejas evangélicas já estavam divididas entre si, inclinadas de um lado ou de outro, porque têm uma forte identidade racial, ideológica e cultural. A Igreja Católica, por outro lado, é a mais dividida em seu interior, porque é inter-racial, atravessada por divisões étnicas e culturais”.

Diferenças que também surgiram em torno do caso Floyd: “Os bispos e os cardeais mais bergoglianos se expressaram: penso nos arcebispos de Boston, Chicago, Newark, San Diego. Em vez disso, os bispos mais trumpianos ficaram em silêncio. Nas outras Igrejas, houve uma atitude mais monolítica, pois são constituídas por identidades separadas. Por exemplo, não há uma Igreja protestante interétnica e inter-racial. As Igrejas evangélicas brancas são brancas, as Igrejas batistas negras são negras”.

Portanto, a fronteira da batalha também se estende pelas diferentes comunidades religiosas e determina escolhas de campo precisas.

“Existem algumas exceções”, explica Faggioli. “Por exemplo, um caso interessante é o da Liberty University, na Virgínia, a universidade de Jerry Falwell Jr., filho daquele Jerry Falwell que, nos anos 1970, fundou o movimento da direita cristã.” Trata-se de uma universidade particular, inspirada em uma visão evangélica fundamentalista.

Em uma espécie de declaração-manifesto religioso da Liberty University, podem ser lidas, entre outras coisas, afirmações como estas: “O Universo foi criado em seis dias históricos e é continuamente sustentado por Deus”, e ainda: “Os seres humanos foram criados diretamente à imagem de Deus, e não evoluíram”.

A universidade, diz Faggioli, “viveu nas últimas semanas uma hemorragia de professores e de atletas negros. Também nesse contexto, em suma, eles dizem: ‘Esta universidade e a Igreja desta universidade são abertamente racistas’. Mas, de qualquer forma, tudo isso não afetará o apoio dos evangélicos brancos a Trump”.

Bispos se posicionam

Nesse contexto, o ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, Dom Carlo Maria Viganò, adversário irredutível do Papa Francisco, um dos principais expoentes do fundamentalismo católico, escreveu uma carta aberta de apoio ao presidente Trump.

Na realidade, muitos bispos preferiram se calar diante da propagação dos protestos que inflamaram os Estados Unidos. O papa, por sua vez, apoiou as grandes manifestações contra o racismo, mas indicando o caminho da não violência como o único caminho viável para mudar as coisas.

Também nesse sentido se pronunciou o presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, o arcebispo de Los Angeles, o moderado e sensível aos grandes temas sociais José Gomez, de origem mexicana: “Todos devemos entender que os protestos a que estamos assistindo nas nossas cidades refletem as justificadas frustrações e a raiva de milhões dos nossos irmãos e irmãs que ainda sofrem hoje por causa de humilhações, ultrajes e formas de desigualdade devido à sua raça ou à cor da sua pele. Não deveria ser assim nos Estados Unidos. O racismo tem sido tolerado por muito tempo no nosso estilo de vida”.

Entre as altas personalidades da Igreja Católica que intervieram com mais força sobre a crise aberta pela morte violenta de George Floyd pelas mãos da polícia estão as do arcebispo de Chicago, o cardeal Blase Cupich, que escreveu: “A morte de George Floyd não foi a única causa das desordens civis a que a nossa nação está assistindo hoje. Esse fato apenas desencadeou a frustração de um povo que ouve repetidamente na nossa sociedade: ‘Você não importa’. ‘não há lugar para você na mesa da vida’, e essa dolorosa frustração está se acumulando desde que os primeiros navios cheios de escravos atracaram neste continente”.

E continuava: “Devemos perguntar a nós mesmos e aos nossos representantes eleitos: por que os negros acabam mais facilmente na prisão do que os brancos pelos mesmos crimes? Por que os negros sofrem desproporcionalmente pelos efeitos do novo coronavírus? Por que o nosso sistema educacional não consegue preparar as crianças negras para uma vida em que possam prosperar?”.

A voz do cardeal Cupich, porém, não é a regra em um episcopado fortemente dividido. Não se deve esquecer que a Igreja Católica estadunidense está acostumada há longos anos (durante os pontificados de Wojtyla e Ratzinger) a se mobilizar principalmente para apoiar a causa do intransigente movimento pró-vida (caracterizado em primeiro lugar pela oposição irredutível a qualquer legislação que regulamente o aborto e pela clara rejeição ao reconhecimento dos direitos dos homossexuais), decididamente inclinado ao lado dos setores mais confessionais e tradicionalistas do Partido Republicano.

Historicamente, observa Massimo Faggioli, “a Igreja Católica tentou manter unidas identidades e culturas diferentes: depois chegou a crise do conservadorismo religioso, cuja mensagem antigamente era: ‘Sim, nós somos conservadores, mas mantemos unidas as várias identidades’. Com Trump, começou a perversão do conservadorismo, favorecida também por ideólogos católicos e judeus que são próximos à Casa Branca. O resultado foi uma narrativa política nacionalista, que se baseia na rejeição da identidade religiosa como identidade mista ou mestiça”.

A ideia de fundo é a de um nacionalismo que não se expressa “apenas em termos econômicos ou culturais, mas também religiosos. A mensagem agora é: eu falo em nome dos cristãos brancos e não quero ouvir nada sobre os direitos civis ou a justiça social, porque não é isso que eu tenho em mente quando penso nos Estados Unidos”.

Nessa perspectiva, a morte de Floyd se torna o detonador de uma crise de civilização – que, na realidade, se materializa concretamente na destruição de monumentos e de símbolos da história estadunidense – capaz de convergir para o momento culminante do próximo dia 3 de novembro, data em que será eleito o próximo inquilino da Casa Branca.

 

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