Criticar um papa: um diálogo entre Massimo Faggioli e Bill McCormick

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03 Junho 2020

É possível criticar o papa? Quais os limites para tais críticas?

Publicamos aqui uma conversa entre o historiador italiano Massimo Faggioli, professor de Teologia e Estudos Religiosos da Villanova University, e do jesuíta estadunidense Bill McCormick, professor assistente na Universidade de Saint Louis, nos departamentos de Ciência Política e Filosofia.

O artigo é publicado por America, 01-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o diálogo.

Massimo Faggioli Quero agradecer ao meu amigo Bill McCormick, SJ, pela atenção que dedicou ao meu artigo sobre o Papa Francisco, publicado em duas partes na La Croix International, nos dias 14 e 15 de abril deste ano. Esta resposta é porque o seu artigo (publicado na America [disponível aqui, em inglês], no dia 21 de maio) merece uma resposta. Ela aborda uma questão que é eclesiológica.

A tese condutora do artigo de McCormick é que “o papado não tem uma agenda: o papado é uma agenda em si mesmo”. É difícil conciliar isso com uma eclesiologia do papado como um ministério eclesial no quadro de uma eclesiologia sacramental.

Mas essa abordagem também tem consequências de longo alcance. A primeira é que o argumento de McCormick parece não ser sobre o estilo ou o conteúdo da minha crítica à abordagem do Papa Francisco a duas questões particulares, mas sim sobre a própria possibilidade de criticar o bispo de Roma.

Pergunto-me se McCormick permite qualquer nível de crítica papal, isto é, de um papa ainda reinante. Entendo que, na Igreja Católica, todos vivemos à sombra do Concílio Vaticano I e da sua definição de papado. Mas se sabe muito bem que, na tradição católica, os papas foram criticados por, entre outros, Dante e Erasmo.

Obviamente, não quero fazer nenhuma comparação entre Dante, Erasmo e eu. Só quero deixar claro que criticar o papa não os tornou “acatólicos”.

Eu acho inconcebível essa abordagem do papado por várias razões. Primeiro, Francisco falou repetidamente sobre o futuro da Igreja como uma Igreja sinodal: a sinodalidade é inimaginável sem a possibilidade de expressar, razoavelmente e dentro dos devidos limites em termos de conteúdo e de estilo, algumas opiniões sobre a direção que a Igreja está tomando em algumas questões em particular.

Segundo, eu acho que precisamos rejeitar essa visão schmittiana, que sempre pressupõe um amigo contra um inimigo, do papado e da Igreja Católica em geral.

Terceiro, o papado sabe muito bem que elogios acríticos podem fazer mais mal do que os críticos fiéis e obedientes do bispo de Roma.

A implicação mais desconcertante do artigo de McCormick é que o meu tipo de crítica ao papa revela lealdades culturais estreitas, disfarçadas de fé religiosa. Em uma palavra, ele vê minha relação com o papado como “transacional”. Ora, os jesuítas sabem melhor do que a maioria que criticar o papa nunca foi algo livre de riscos e, muitas vezes, tem um custo para aqueles que se atrevem a falar em público, quando fazem isso como parte de sua vocação profissional e ministério eclesial.

Na melhor das hipóteses, esse custo espiritual e eclesial é mantido em segredo ou confidencial, como nos velhos tempos, pode-se dizer: faz parte do sensus Ecclesiae. Exatamente o oposto do transacionalismo.

* * *

Bill McCormick, SJ Agradeço ao meu amigo Massimo Faggioli pela sua resposta ao meu artigo da America: “O que devemos ao ofício do papado?”. Ele tem sido de grande ajuda em meu próprio trabalho nascente em assuntos relacionados à Igreja e à política, e espero continuar aprendendo com ele.

Por essas e outras razões, lamento que ele veja meu artigo como uma “denúncia”. Eu não questiono nem a lealdade pessoal de Faggioli ao papa nem a sua fé.

Concordamos em muitas coisas. Não é necessariamente “acatólico” criticar o papa, e Faggioli nota sabiamente que “os laudatores acríticos podem fazer mais mal do que os críticos fiéis e obedientes do bispo de Roma”.

De fato, precisamos rejeitar uma visão schmittiana do amigo versus inimigo, e o pensamento schmittiano é precisamente o que eu queria descartar no meu artigo.

Então, onde discordamos? Faggioli observa que minhas críticas “parecem não ser sobre o estilo ou o conteúdo da minha crítica à abordagem do Papa Francisco a duas questões particulares, mas sim sobre a própria possibilidade de criticar o bispo de Roma”.

De fato, o oposto é verdadeiro: eu não questiono a possibilidade de criticar os papas, mas precisamente o estilo e o conteúdo de suas críticas.

Eu argumentei que parte do enquadramento dos seus dois artigos, “o sentimento de perda, decepção e até frustração” entre os apoiadores de Francisco, pode incentivar uma atitude transacional em relação ao papado, em que um papa é julgado principalmente segundo a própria concordância ou não com a agenda do papa.

Sim, o papado é um ministério: o papa deve ser o servus servorum Dei. Mas os católicos não devem olhar para os papas como autoridades políticas de quem eles podem obter algo, por mais desejáveis e dignos que esses fins possam ser. Por isso, eu sugeri que se dedicasse mais atenção ao ofício do papado.

Eu não acredito que Faggioli se limite a uma relação meramente transacional com o papado. Como sua resposta indica, a sua eclesiologia é muito mais rica do que isso. Mas estou levantando um ponto muito mais simples do que ele sugere.

A tendência de avaliar o papado em termos de metas para a mudança na Igreja é generalizada e pode levar a tratar os desenvolvimentos eclesiais como disputas políticas. Eu tentei explicar como os artigos dele, enquadrados em termos de decepção, poderiam reforçar essa tendência.

De fato, é apenas porque essa atitude em relação ao papado é tão ubíqua a ponto de desviar de pontos mais profundos da eclesiologia que eu pensei que eles mereciam um comentário.

 

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