Sozinho contra a Cúria Romana e o mundo: a nova biografia de Bento XVI. Artigo de Massimo Faggioli

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14 Mai 2020

A obra biográfica de Peter Seewald sobre Bento XVI é um ponto de passagem inevitável no esforço de conhecê-lo e compreendê-lo. Ela também não altera substancialmente a narrativa estabelecida, pelo menos no que diz respeito aos mandatos de Ratzinger em Roma como cardeal, papa e agora “emérito”.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em artigo publicado em La Croix International, 13-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As biografias papais são um gênero complicado, especialmente na era do “santo subito” e da recente tendência de canonizar rapidamente os papas apenas poucos anos após a sua morte.

Esse gênero se tornou ainda mais complicado agora que existe um “papa emérito”.

E Peter Seewald, jornalista alemão, aceitou esse desafio com a sua biografia recém-publicada de Joseph Ratzinger-Bento XVI: “Bento XVI. Uma vida”.

Nova biografia de Bento XVI, escrita pelo jornalista alemão Peter Seewald (Foto: Divulgação)

Uma biografia eclesial e política

Esse enorme volume (com 1.184 páginas) é na verdade o segundo livro de Seewald sobre Bento, desde que o papa da Baviera renunciou em 2013.

O autor publicou um livro-entrevista com o papa aposentado em 2016, intitulado “Bento XVI. O último testamento” (Ed. Planeta).

Seu último trabalho, no entanto, não é a primeira biografia abrangente de Ratzinger. O teólogo italiano Elio Guerriero já havia lançado “Benedict XVI: his life and thought” [Bento XVI: sua vida e pensamento], em 2018.

Diferentemente dos esforços de Guerriero, o último olhar de Seewald sobre Ratzinger-Bento XVI não é uma biografia intelectual ou espiritual. Pelo contrário, é uma biografia eclesial e “política”.

Acertando as contas

Baseado em grande parte em muitos anos de entrevistas e conversas com Bento, o livro tenta resolver definitivamente a narrativa sobre o antecessor ainda vivo do Papa Francisco.

Ele tenta justificar as posições de Ratzinger no debate intelectual e “político-eclesial”. E visa a acertar as contas com várias figuras importantes no Vaticano, na mídia e na Igreja alemã também.

Algumas dessas figuras ainda estão vivas.

Publicado apenas em alemão por enquanto, as traduções em inglês e italiano do livro estarão disponíveis no fim de 2020.

Essa biografia não é um trabalho historiográfico baseado em arquivos. No entanto, é cheia de detalhes interessantes, principalmente por causa do extenso acesso do autor a Joseph Ratzinger, especialmente por meio de uma série de entrevistas no outono de 2018.

Os “anos romanos” de Joseph Ratzinger

Esse enorme volume exigirá resenhas mais extensas. Mas, por enquanto, vale a pena analisar a narrativa de Seewald sobre a vida de Joseph Ratzinger, começando no início dos anos 1980 – quando o então arcebispo de Munique foi nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – até o presente.

O claro objetivo do autor é defender o longo e bem conhecido histórico do papa aposentado. Seu esforço para fazer isso às vezes se torna um pouco incongruente, como quando ele retrata o cardeal Ratzinger como alguém a favor do “fortalecimento do papel da mulher na sociedade” (capítulo 52), sem mencionar como a visão do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sobre as mulheres foi recebida na Igreja.

A seção sobre a batalha de Ratzinger contra a teologia da libertação na América Latina nos anos 1980 também é defensiva. Ela absolutamente não reconhece os desentendimentos ou que se tratou de uma tragédia eclesial. A biografia afirma que o esforço dos teólogos da libertação para ajudar a Igreja a libertar a si mesma e o seu povo dos ditadores foi lido por Ratzinger através das lentes da sua experiência da manipulação política da religião na Alemanha nazista. De fato, a Alemanha desempenha um papel importante nessa biografia: Ratzinger nemo propheta em sua patria alemã.

Seewald vincula aDeclaração de Colônia dos teólogos alemães (1989) – que desafiava a política geral do Vaticano sobre a doutrina – ao debate sobre a regulamentação do aborto na República Federal.

Mas, de fato, havia outras questões teológicas importantes em jogo, e não apenas “um acordo com o Zeitgeist” de uma ala da Igreja alemã sob a influência de Karl Lehmann (capítulo 54).

O fato de essa ser uma biografia política mais do que intelectual é confirmado pela ausência de nomes como Peter Hünermann, uma das principais figuras da saga da Declaração de Colônia.

Leal assessor de João Paulo II

Mas essa biografia é interessante porque o pontificado de Ratzinger está de alguma forma espremido entre o do seu antecessor, o já declarado São João Paulo II, e o de Francisco.

Seewald confirma como Ratzinger via a si mesmo e ao seu papel durante o longo pontificado de João Paulo II: um colaborador leal do papa polonês, mas não sem alguns momentos de grande discordância.

Alguns deles foram públicos, como a crítica do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ao primeiro encontro inter-religioso de Assis em outubro de 1986. Menos conhecido é a discordância de Ratzinger em relação à linha dura de João Paulo II contra os padres que pediam para abandonar o status de clérigo a fim de se casar (capítulo 53).

Seewald lança Ratzinger como um reformador solitário contra a Cúria Romana. Ele é “um cardeal solitário que não brinca em serviço” (capítulo 54), comparado a alguns outros assessores-chave de João Paulo II. O mais notável deles é o cardeal Angelo Sodano.

Angelo Sodano na mira

O ex-secretário de Estado parece ser um alvo especial dessa biografia. Sodano é mencionado pelo menos 38 vezes e sempre retratado como o líder do antigo sistema curial e clerical (especialmente na questão muito sensível da crise dos abusos sexuais e dos Legionários de Cristo). Seewald o contrasta com o verdadeiro servo fiel de Ratzinger-Bento XVI, Tarcisio Bertone, o homem que sucedeu a Sodano.

Isso leva a alguns detalhes interessantes, como o círculo estreito de assessores que Bento formou desde o início da sua decisão de renunciar, que ele só anunciaria publicamente em fevereiro de 2013. O papa ainda reinante contou isso primeiro ao seu secretário pessoal, o então D. Georg Gänswein, em setembro de 2012. Em seguida, ele informou o arcebispo Giovanni Angelo Becciu, o sostituto (vice-secretário de Estado para assuntos internos), em novembro. Bento depois disse ao cardeal Gianfranco Ravasi, chefe do Pontifício Conselho para a Cultura, e ao Mons. Guido Marini, mestre das cerimônias litúrgicas papais.

Somente no fim dessa lista é que a comitiva de Bento informou Angelo Sodano, apesar de ele ser o reitor do Colégio de Cardeais e ter a responsabilidade de convocar os outros cardeais para o conclave.

Um “reformador solitário” contra os abusos sexuais clericais

Essa narrativa de um “reformador solitário”, especialmente na questão da gestão da crise dos abusos sexuais, se despedaça quando a biografia liga o abuso sexual clerical ao abuso litúrgico. Mas explica a cegueira teológica de um certo tipo de cultura clerical, em que o abuso sexual é um crime contra a fé e os sacramentos, e não contra a pessoa humana.

Agora é verdade que o pontificado de Bento XVI foi um ponto de virada nas ações e nas políticas do Vaticano sobre os abusos sexuais clericais. Certamente foi uma mudança positiva em relação ao seu antecessor. Mas também tinha alguns limites muito evidentes. Por exemplo, uma das primeiras medidas decisivas que Bento adotou sobre essa questão após ser eleito papa em 2005 foi punir Marcial Maciel, o fundador dos Legionários de Cristo (maio de 2006). Mas foi uma sentença puramente espiritual e penitencial, interna à Igreja e sem nenhum esforço para atender aos requisitos de um mínimo de transparência.

É uma seção do livro (capítulo 68) que lança uma sombra escura sobre o círculo interno de João Paulo II. A solidão do cardeal Ratzinger emerge também à época do Grande Jubileu do Ano 2000. O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé claramente via os eventos altamente coreografados e espetacularizados que foram realizados no Ano Santo como desagradáveis.

Lutando contra o status quo curial, diante de uma mídia hostil

A solidão de Ratzinger muda no conclave de 2005, quando Seewald apresenta a sua própria versão de como os votos acumulados em cada turno (capítulo 59) terão que ser comparados com outras contagens não autorizadas da votação.

A biografia retrata o pontificado de Bento desde o início preparado para o combate, envolvido em uma luta contra o status quo curial e se defendendo de uma mídia hostil. Esse relato dos oito anos de um pontificado extraordinário não oculta incidentes ou erros graves. Mas o papa no comando parece nunca assumir a responsabilidade por nenhum deles. Esse é especialmente o caso do discurso de Regensburg em setembro de 2006 e do fiasco SSPX-Williamson no início de 2009 (capítulo 66).

O livro aponta um dedo contra certas autoridades da Cúria e ordinários locais – muitos deles ainda vivos, outros ainda não aposentados. Ele os acusa, às vezes apenas implicitamente, de fracassar em seu dever de aconselhar o papa e a sua comitiva.

O “papa emérito” e o pós-papado

Uma das partes mais interessantes dessa biografia é, obviamente, a que lida com a decisão de Bento de renunciar, seguida pelos seus anos como “papa emérito” no Vaticano.

O papa aposentado confirma o que ele disse antes sobre as suas razões para deixar o cargo: sua saúde e força estavam diminuindo, impossibilitando que ele fizesse viagens apostólicas de longas distâncias. Mais uma vez, nega-se qualquer conexão com o escândalo do “Vatileaks” ou as dificuldades em governar a Cúria Romana.

Sobre a questão do título de “emérito”, a biografia diz que o papa aposentado optou por “Papa Bento” em vez de “Sua Santidade” ou “Santo Padre”. No epílogo, Seewald observa que, no fim, o desejo de Bento sobre o seu título pós-renúncia não foi respeitado.

Bento XVI interpreta o título de “emérito” de uma forma peculiar. Ele deixa muito claro que, para ele, é impossível para um ex-papa se tornar um eremita e se retirar para uma total privacidade. “Eu não voltei para uma vida privada. Eu não abandono a cruz. Eu permaneço junto ao Cristo crucificado de uma forma diferente”, ele afirma no livro (capítulo 74).

Essa é uma das intuições mais importantes (repetida também no epílogo do livro) sobre como Ratzinger interpretou a sua decisão de viver como ex-papa – com enormes consequências para a Igreja e para o seu sucessor.

A relação com o Papa Francisco

O período inicial após a renúncia não foi fácil para ele. No epílogo do livro, Seewald fala sobre um “profundo estado de depressão” em que o ex-papa se encontrou. O biógrafo pinta a imagem de Bento em uma coabitação pacífica com Francisco, marcada pela lealdade total, assim como por uma “discrição inabalável” em relação aos assuntos do pontificado do seu sucessor.

Mas isso é apenas parcialmente verdade. Bento XVI, de fato, colocou seu nome em uma série de declarações, escritos e até em um livro, embora não esteja claro o quão ciente ele estava de como tudo isso seria usado por outros. A biografia permanece um tanto silenciosa sobre isso.

No entanto, ela faz muito barulho sobre a mídia, acusando-a de interpretar as declarações públicas do ex-papa de forma malévola. Entre os exemplos que Seewald oferece, está a mensagem que Bento escreveu para o funeral do cardeal Joachim Meisner, de Colônia, em 2017. Outro é o artigo do ex-papa sobre a teologia das relações entre a Igreja e os judeus em 2018.

O livro não oferece muita clareza sobre a gênese do controverso artigo de Bento sobre a crise dos abusos sexuais, publicado em abril de 2019. É um pouco mais claro o fato de o cardeal Robert Sarah não ter sido totalmente sincero sobre a questão da assinatura conjunta no livro sobre o celibato sacerdotal, publicado em janeiro de 2019. A biografia afirma que o desejo original de Bento era que seus pensamentos sobre o sacerdócio fossem publicados somente após a sua morte.

A entrevista de 2018

Seewald conclui seu tomo com uma entrevista/conversa que teve com Bento no outono de 2018.

Aqui, o papa aposentado confirma que escreveu um testamento espiritual e que, no início do seu pontificado – assim como Paulo VI e João Paulo II – assinou uma declaração que o liberava do ministério papal no caso de uma doença incapacitante como a demência. Bento defende a sua decisão de renunciar e o uso do título de “emérito” após a renúncia, simplesmente como algo que o Vaticano II possibilitou para todos os bispos. Como vimos nos últimos anos, é obviamente mais complicado do que isso.

“Francisco deveria ter respondido ao cardeal Burke?”

Depois, há algumas páginas sobre os pontos de vista de Ratzinger sobre o ministério espiritual de um ex-papa, que provavelmente se tornarão parte da tradição teológica e canônica ainda a ser construída sobre o “bispo de Roma emérito”. Quando Seewald pergunta a ele se o Papa Francisco deveria ter respondido às “dubia” do cardeal Burke sobre a teologia do matrimônio após as assembleias do Sínodo dos Bispos de 2014 e 2015, o ex-papa se recusa a entrar na rixa, declinando-se a responder. Bento, então, diz ao seu biógrafo que a oposição a ele e ao seu próprio pontificado sempre veio de fora, não da Cúria Romana.

Isso faz parte de uma leitura apocalíptica da situação eclesial contemporânea: o verdadeiro problema não é a corrupção ou os escândalos na Igreja, mas sim a perda de fé em relação a uma cultura radicalmente secularista, ateia e anticristã. Bento diz que essa é a cultura que deve ser responsabilizada, entre outras coisas, pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e pelo aborto. E, curiosamente, ele fala de uma forma de “excomunhão social para aqueles que se opõem a esse credo anticristão da sociedade moderna”.

Biografia como apologética, nem tão sutil

Seewald se tornou algo como o biógrafo oficial e autorizado de Bento XVI. O jornalista alemão, um ex-ateu que se converteu ao catolicismo depois de começar a escrever uma série de livros-entrevistas com Joseph Ratzinger (o primeiro em 1996), explora toda a vida do teólogo, clérigo e, finalmente, papa bávaro com uma clara intenção apologética e defensiva.

Como o historiador jesuíta John O’Malley nos instrui, o elogio e a culpa na corte romana sempre foram um gênero literário muito complexo. A apologética em uma biografia é a sutil arte do elogio, tentando ser convincente. Mas os argumentos de Seewald não são muito sutis, o que é especialmente lamentável neste caso.

E a própria narrativa do “papa emérito” sobre o seu pontificado – e sobre as interpretações de Vaticano II – tentou repetidamente representar a realidade como completamente oposta à veiculada pela mídia. O maior problema na percepção pública e eclesial de Joseph Ratzinger é a tentação, em todas as partes, de pintar uma vida muito longa, rica e complexa a serviço da Igreja como uma caricatura simples em preto e branco.

A obra biográfica de Seewald é um ponto de passagem inevitável no esforço de conhecê-lo e compreendê-lo. Ela também não altera substancialmente a narrativa estabelecida, pelo menos no que diz respeito aos mandatos de Ratzinger em Roma como cardeal, papa e agora “emérito”.

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