O silêncio da Congregação para a Doutrina da Fé sob Francisco é notável

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29 Agosto 2017

Por quase seis anos o padre redentorista irlandês Tony Flannery esteve proibido de celebrar missas públicas. A Congregação para a Doutrina da Fé – CDF o suspendeu do ministério em fevereiro de 2012 depois que ele se recusou a rever algumas opiniões publicadas antes em uma revista religiosa.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 28-08-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em meados de janeiro, Flannery completou 70 anos. Na ocasião, ele anunciou que pela primeira vez violaria a suspensão imposta para celebrar uma missa de ação de graças com os que lhe apoiaram ao longo desses anos.

O sacerdote, que é um escritor querido pela comunidade, coordenador de retiros e ex-pastor, pensou bastante antes de tomar essa decisão. Imaginou que, tão logo violasse a suspensão, enfrentaria as penalidades impostas pela CDF, talvez até, num caso mais extremo, poderia se ver desligado do sacerdócio.

Porém, em entrevista concedida no início de agosto, Flannery disse não ter ouvido nada: nenhuma palavra fora pronunciada por seu bispo, pelo superior geral de sua ordem religiosa ou pelo Vaticano. Assim, ele tirou uma conclusão sobre o significado desta situação com respeito à influência da CDF sob o comando do Papa Francisco em comparação com outros pontífices recentes.

“Interpreto a diferença de tratamento como um indício muito bom de que [a Congregação] não tem mais o poder que tinha antes”, disse. “Se tivesse ocorrido cinco anos atrás, sem dúvida eles teriam vindo com força contra mim”.

Essa conclusão ressoa uma observação sobre a qual se tem falado com regularidade em Roma e ao redor do mundo: a toda-poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, antigamente conhecida como a Santa Inquisição Romana e Universal, parece que foi mandada a praticamente ficar em silêncio.

Em décadas passadas, esse dicastério era famoso por assumir uma postura proativa com relação a investigações teológicas, indo à caça de padres ou acadêmicos que talvez estivessem distanciando-se de alguma linha doutrinal. Esse departamento era também conhecido pela promulgação regular de documentos oficiais.

Mas aparentemente estas duas funções públicas reduziram-se drasticamente.

Quatro teólogos em dois continentes que sabidamente tinham sido investigados pela CDF nos últimos cinco anos disseram, em entrevistas recentes, que nada mais ouviram por parte desse dicastério desde a eleição de Francisco em março de 2013.

“A resposta que dou é simples”, disse um dos teólogos na entrevista que concedeu por email. “Eu não tenho nenhum contato”.

A diminuição no número de documentos publicados pela congregação doutrinal sob o comando de Francisco é, igualmente, drástica.

Durante o reinado do Papa Bento XVI, ou seja, entre 2005 e 2013, a CDF emitiu 19 documentos e 19 declarações anexas. Cinco destes documentos, incluindo uma crítica formal publicada em 2012 à teóloga americana Margaret Farley, irmã da Divina Misericórdia.

Desde a eleição de Francisco, quatro anos atrás, o mesmo dicastério emitiu somente dois documentos.

O primeiro veio em junho em 2016 – mais de três anos desde a eleição – e teve a ver com a relação dos bispos com os chamados movimentos carismáticos. O segundo, de outubro de 2016, apenas reafirmou os ensinamentos de décadas da Igreja sobre enterro e cremação.

Francisco pareceu minimizar o papel da Congregação para a Doutrina da Fé logo depois de ser eleito, quando teria dito a um grupo de freiras e padres, na Conferência Latino-Americana e Caribenha de Religiosas e Religiosas, que não se preocupassem caso se vissem alvos de uma investigação teológica.

“Isso acontece!”, o papa teria dito segundo relatos. “Até pode ocorrer que venha uma carta da Congregação para a Doutrina [da Fé], dizendo que vocês disseram isso e aquilo... Não se preocupem, contudo. Expliquem o que tiverem de explicar, mas continuem caminhando em frente”.

O Cardeal Gerhard Müller trabalhou como prefeito da CDF desde 2012 a julho passado. Francisco nomeou Dom Luis Ladaria para ser o substituto. Essa nomeação foi vista como um indício de que Francisco não quis uma mudança radical nesse departamento, mas apenas uma mudança de pessoal.


Mudança nos procedimentos

As investigações teológicas da CDF costumavam seguir um padrão um tanto previsível. Alguém notificava um funcionário da Congregação sobre um determinado teólogo ou teóloga cujos escritos achavam-se problemáticos. O departamento analisava a matéria e, então, informava se seria aberta uma investigação.

Caso o teólogo, ou teóloga, sob revisão fosse membro de uma ordem religiosa, todos os contatos ocorreriam via superior geral da própria ordem. O teólogo ouviria que o assunto era de segredo pontifício e que qualquer discussão dele em público ou com a imprensa resultaria em penalidades.

Em abril de 2016, um grupo internacional de destacados teólogos, padres e bispos pediu publicamente para que a CDF adote um processo novo nessas investigações teológicas, um processo que seja marcado por abertura ao invés de sigilo.

Bento XVI, que presidiu a mesma congregação doutrinal de 1981 a 2005 como Cardeal Joseph Ratzinger, ficou conhecido como um firme defensor das investigações teológicas. Sob a sua liderança, a congregação assumiu uma postura decididamente proativa na definição do ensino católico e em criticar e advertir os teólogos.

Entre os teólogos formalmente criticados durante o mandato de Ratzinger estiveram: o padre oblato cingalês Tissa Balasuriya; o padre australiano Paul Collins, do Sagrado Coração; o padre jesuíta indiano Anthony de Mello; o padre jesuíta belga Jacques Dupuis; e o padre jesuíta americano Roger Haight.

Flannery detalhou a provação pela qual passou junto à CDF em um livro de 2013 intitulado “A Question of Conscience”. Disse que recebeu a ordem para rever publicamente as suas opiniões expressas em artigos publicados na revista Reality, ou correria o risco de ver suspensa a sua permissão para ministrar.

O padre manteve-se em silêncio sobre a investigação por um ano, conforme exigido, até revelar publicamente, em janeiro de 2013, que estava sob a ameaça de excomunhão.

Embora Flannery tenha feito à CDF uma declaração esclarecendo os seus pontos de vista, eles o solicitaram que igualmente publicasse uma nota afirmando que as mulheres nunca deveriam ser ordenadas ao sacerdócio.

O padre se recusou a cumprir essa segunda solicitação e, desde então, está formalmente proibido de ministrar.

O padre passionista Brian D’Arcy, destacado colunista de jornais, radialista e pastor na Irlanda do Norte, relatou uma experiência parecida com a partilhada por Flannery para concluir que o dicastério doutrinal perdeu poderes agora sob o papado de Francisco.

Em 2011, a CDF censurou D’Arcy. Ainda sem saber exatamente o que disse a ponto de causar a censura, o religioso ouviu que o motivo tem relação com os artigos publicados no jornal Sunday World.

A CDF pediu que ele submetesse todos os seus escritos futuros a um avaliador eclesiástico. D’Arcy disse que concordou em seguir o pedido, mas somente para artigos que tratassem de fé e moral.

Em setembro de 2016, D’Arcy concedeu uma entrevista a Hot Press, revista norte-irlandesa. Perguntado sobre se o casamento homoafetivo deveria ser legal em seu país, o padre expressou certa insatisfação com o ensino católico sobre a homossexualidade.

Segundo D’Arcy, mais tarde o superior dos passionistas, em Roma, o informou que alguém havia enviado a entrevista à Congregação para a Doutrina da Fé com vistas a uma possível investigação teológica. O padre disse que o seu superior recebeu uma nota da CDF informando a ordem sobre o caso.

“Mas nada aconteceu nesse caso”, falou D’Arcy. “É uma expressão do fato de que o caso foi informado, sem que houvesse censura”.

O sacerdote expressou um sentimento que outros que estiveram sob investigação vaticana talvez compartilham também. Indagado sobre se gostaria de ver uma maior clareza por parte da CDF relativamente à sua situação, D’Arcy respondeu: “Não quero ouvir mais nada deles”.

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