Por uma teologia do pluralismo. A obra de Jacques Dupuis

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21 Março 2016

Eu acredito que, nestes tempos de repensamentos desafiadores da doutrina católica para repropor os fundamentos evangélicos, merecem atenção o pensamento e a figura do estudioso jesuíta belga Jacques Dupuis (1923-2004).

A análise é de Ugo Basso, publicada na revista Il Gallo, de março de 2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na Índia, por 36 anos, onde ele desempenhou diversas atividades e ensinou teologia dogmática, no retorno à Europa, ele assumiu a cátedra de Religiões não-cristãs na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, da qual foi suspenso depois de um processo por parte da Congregação para a Doutrina da fé, conduzido com procedimentos muito discutíveis pelo cardeal Tarcisio Bertone e não desmentido pelo cardeal Joseph Ratzinger, prefeito do ex-Santo Ofício.

"Não sou herege"

Repasso um pequeno livro editado pela Editrice Missionaria Italiana (EMI) em 2014 por William Borrows, Perché non sono eretico [Por que não sou herético]. O livro inclui uma reconstrução da história do padre Dupuis editada também pelo próprio Burrows, leigo amigo e confidente do estudioso jesuíta nos seus últimos anos, e dois longos discursos do teólogo jesuíta com meticulosa e apaixonada demonstração da sua rigorosa fidelidade à doutrina a serem publicadas depois da sua morte, para evitar outras polêmicas e outros sofrimentos.

O primeiro dos dois escritos do estudioso belga é uma refutação, artigo por artigo, da declaração Dominus Iesus publicada no dia 6 de agosto de 2000 pela Congregação para a Doutrina da Fé "sobre a unicidade e a universalidade e salvífica de Jesus Cristo e da Igreja", que Dupuis considera ter sido emitida essencialmente para demonstrar a não ortodoxia do seu tratado "Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso".

O segundo contém as suas respostas às objecções levantadas pela Notificação da Congregação datada de 19 de janeiro de 2001 e publicada em 26 de fevereiro, que denuncia na obra do estudioso "notáveis ambiguidades e dificuldades em pontos doutrinais de alcance relevante, que podem induzir o leitor em opiniões errôneas ou perigosas" e o afasta da cátedra universitária.

Vias de salvação também nas outras religiões

O pensamento do estudioso jesuíta se fundamenta na Escritura, na doutrina e na observação da história, nos comportamentos e expressões da espiritualidade dos homens e das mulheres do tempo em que vivemos. A salvação é para todos, enquanto só uma minoria recebeu o batismo, e não é realista pensar em uma cristianização formal da humanidade inteira: portanto, a salvação que o Pai oferece a todos através da obra do Espírito e da encarnação do Filho não pode ser reconhecida como obra exclusiva do Jesus histórico. Não é coerente com o espírito do Cristo interpretar a centralidade do Filho no Novo Testamento como cristomonismo.

A Igreja é constitutiva da reconciliação universal e testemunha da obra salvífica de Cristo para toda a humanidade, mas não pode ser operadora exclusiva dessa ação cósmica, porque Deus opera a salvação há milhões de anos e é ativo no universo inteiro.

Bem distante daquela ideia de sociedade perfeita que foi atribuída por uma hagiografia autopromovida, a Igreja participa, inevitavelmente, das ambiguidades e das corrupções próprias de cada organismo humano, e as infinitas e inegáveis imperfeições da sua história contradizem com evidência que a compreensão da verdade possa se esgotar nela. Portanto, pode-se pensar em uma simetria entre as imperfeições na Igreja e as verdades reveladas nas outras religiões.

O estudo de Dupuis parte da eclesiologia do Concílio Vaticano II: principalmente a Declaração Nostra aetate sobre as religiões não-cristãs não só assegura um sincero respeito a essas religiões, mas também admite que elas "refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens". O teólogo belga interpreta essa afirmação como um reconhecimento de um papel salvífico às outras religiões dentro do plano divino para a salvação de todos os homens.

Se estas, como justamente admitem o Vaticano II e muitos reconhecimentos posteriores até mesmo de João Paulo II, refletem "um raio de verdade", é possível afirmar que pode haver verdades fora da Igreja e, se tais o são, devem ter uma origem divina, devem ser inspiradas pelo Espírito e podem ser incluídas no plano divino de salvação.

Portanto, "o pertencimento explícito à Igreja, na qualidade de membros não é necessária para a salvação": quando, nas outras religiões, estão presentes homens retos, sinceros, capazes de operar a justiça e fazer progredir a humanidade, a obra do Espírito está manifesta. E, quando João Paulo II se dirige aos muçulmanos afirmando que o deus das duas religiões é o mesmo, ele reconhece implicitamente uma via islâmica para a salvação.

O Espírito além da Igreja

O teólogo belga rejeita a hipótese de duas economias da salvação distintas: uma do Espírito e uma de Cristo, uma para os cristãos e uma para os diversamente crentes e não crentes. Mas o Espírito, como demonstram os profetas, foi derramado também antes do evento Cristo: e, se é assim, se a revelação de Deus foi de algum modo possível até mesmo antes de Cristo, isso significa que nem toda a revelação e a salvação passam necessariamente pelo Jesus histórico.

Portanto, mesmo depois da encarnação do Logos, que também indicou de modo inequívoco o caminho da salvação para a humanidade inteira, o Espírito pode ser derramado para além dos limites da Igreja. Estamos na presença de uma única economia divina, misteriosa, fundada sobre o Pai, na qual está presente a católica.

Reconhecer "a unicidade de Cristo como salvador universal – afirma Dupuis – não exclui um significado positivo das outras religiões no plano de Deus para a humanidade". Por conseguinte, ecumenismo significa reconhecer que "os cristãos fazem parte de um todo crístico-eclesial em comunhão imperfeita consigo mesmo e com Cristo", reconhecimento do qual deriva o diálogo, instrumento para a busca religiosa e "parte da missão evangelizadora da Igreja".

O convite de Jacques Dupuis é de se libertar da "letra das velhas fórmulas" de uma teologia distante, para se abrir ao mistério e à palavra de Deus, em uma "reconciliação universal mais ampla da própria Igreja", e "uma abordagem positiva às outras religiões ajuda a descobrir novas profundidades do mistério".

A Dominus Iesus

Efusão do Espírito sobre indivíduos, comunidades e culturas, salvação também fora da Igreja de acordo com percursos autônomos, revelação não esgotada na encarnação do Logos constituem o núcleo da teologia cristã do pluralismo religioso elaborada por Jacques Dupuis: a tudo isso se opõe a declaração Dominus Iesus, emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé com a assinatura dos cardeais Ratzinger, prefeito, e Bertone, secretário da Congregação, mas não a de João Paulo II.

Há quem defenda que ela lhe foi extorquida, enquanto o próprio Bertone, promotor e redator do texto, assegura que o papa tinha pedido pessoalmente ao ex-Santo Ofício a elaboração de um documento com uma linguagem rigorosa para reiterar a doutrina, fundamentada na revelação, que deve guiar o comportamento católicos dos coerente e fiel ao Senhor Jesus, único e universal salvador.

A declaração é construída com referências bíblicas e amplas citações dos documentos eclesiásticos, textos pontifícios, inúmeros os do reinante Papa João Paulo II, e conciliares até o Vaticano II. Releiamos, de pouco bom grado, esse texto francamente embaraçoso também por causa das recorrentes expressões "deve-se crer firmemente", "é estranho à doutrina católica", que tiram credibilidade cristã também das considerações doutrinais sustentáveis, embora altamente discutíveis.

Resta a impressão, infelizmente frequente nos documentos magisteriais, de que a salvação é dependente do conhecimento da doutrina, mais do que da experiência do amor. Estamos longe da afirmação de Francisco no discurso conclusivo do Sínodo dos bispos sobre a família do dia 24 de outubro passado:

"Verdadeiros defensores da doutrina não são aqueles que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do Seu perdão."

A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé não nega formalmente a afirmação conciliar na Nostra aetate, mas dá uma interpretação restritiva dela e reitera a tradicional exclusão de qualquer salvação fora da revelação de Cristo e da Igreja, que é a sua implementação:

"Deve, de fato, crer-se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o Filho e o Verbo do Pai. O Verbo, que 'estava no princípio junto de Deus' (Jo 1,2), é o mesmo 'que Se fez carne' (Jo 1,14). Em Jesus 'o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16) 'habita corporalmente toda a plenitude da divindade' (Col 2,9)."

A declaração parece se dirigir precisamente aos estudos de Dupuis, como ele está convencido, e a utilização da declaração como norma para a condenação do seu pensamento é a confirmação disso.

"Há ainda quem sustente a hipótese de uma economia do Espírito Santo com um caráter mais universal do que a do Verbo Encarnado, crucificado e ressuscitado. Também essa afirmação é contrária à fé católica, que, ao contrário, considera a encarnação salvífica do Verbo um acontecimento trinitário. No Novo Testamento o mistério de Jesus, Verbo Encarnado, constitui o lugar da presença do Espírito Santo e o princípio da Sua efusão na humanidade, não só nos tempos messiânicos (cf. At 2,32-36; Jo 7,39; 20,22; 1Cor 15,45), mas também nos que precederam a sua entrada na história (cf. 1Cor 10,4; 1Pedro 1,10-12).

"O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria para alguns um dos tantos rostos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em termos de salvação com a humanidade.

"Semelhantes teses estão em profundo contraste com a fé cristã."

Dupuis e Panikkar

Reencontro em Dupuis um pensamento afim ao de Raimon Panikkar, argumentado particularmente em "A plenitude do homem, uma cristofania" (1999), em que ele afirma que apenas no fim da história e de acordo com um processo universal misterioso, Deus será tudo em todos: os cristãos, portanto, não podem ter a pretensão de "destruir todos os outros universos simbólicos" para instaurar os fundamentos do seu querigma.

Em palavras menos teológicas, não se pode considerar necessário abolir todas as expressões religiosas da humanidade para que os homens possam alcançar a salvação em Deus. No entanto, depois de longos pensamentos, o teólogo jesuíta, instado a fazer isso pelo amigo Burrows, nega o seu apoio à obra de Panikkar, à qual lhe teria agradado, substancialmente porque se trata de dois métodos de trabalho diferentes.

Dupuis pratica uma metodologia científica rigorosa na análise, enquanto Panikkar, em sua opinião, se confia à intuição, nem sempre rigorosamente documentada, e se vale de uma mistura de gêneros literários até uma espécie de sobreposição entre a estrutura trinitária da teologia cristã e aquela, na realidade, hindu, considerada possível fonte de ambiguidade.

Em vez disso, ele fica estupefato que justamente Joseph Ratzinger, depois de ler a "Cristofania" de Panikkar, elogiasse o autor como "incomparável peregrino intercultural e inter-religioso, que reúne a sabedoria teológica e filosófica do Oriente e do Ocidente, e transcende o relativismo da academia".

Por que, então, tanta obstinação contra a sua obra? Dupuis permanecerá sempre convencido de que Ratzinger não a leu com a devida atenção e assinou as conclusões de Bertone, substancialmente para evitar polêmicas com o secretário da Congregação.

Rumo a perspectivas novas

Parece-me, em conclusão, que, mais uma vez, como infelizmente, muitas vezes, na história da Igreja, mesmo em tempos em que a condenação não se limitava à remoção de uma cátedra, mas envolvia crueldades e violências até a fogueira especificada com fogo lento, encontramo-nos diante de um pesquisador sincero e apaixonado, fiel ao ensinamento e ao espírito do Cristo, ao qual se contrapõe o rigor doutrinal de uma interpretação, discutível, mas autoritariamente imposta.

O evangelho permanece inalterado, e as interpretações, necessária e necessariamente variadas: mas, como esclarece Francisco, o evangelho não pode ser reduzido a uma doutrina para ser usada em fragmentos como pedras para serem jogadas contra alguém. Qualquer eventual discordância que Jacques Dupuis tenha expressado certamente foi "em um espírito de fidelidade construtiva à revelação de Cristo, à autêntica tradição cristã e à autoridade doutrinal da Igreja" na convicção de toda a vida de que, "onde quer que haja genuíno valor e verdade, lá está presente o Logos tou theou".

Negar por séculos que a salvação é possível mesmo fora da economia católica ofendeu a vida religiosa das pessoas não pertencentes à Igreja, e certamente não é um bom acompanhamento rumo ao Reino oferecido e anunciado por Cristo.

A amargura da marginalização na Igreja a que o padre Dupuis deu a sua vida e o seu compromisso cotidiano, junto com a honesta abertura do seu pensamento, dão fôlego à esperança de que a renovação a que estamos assistindo não é uma ilusão.

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