“Estamos vivendo a maior rebelião nos Estados Unidos em meio século”. Entrevista com Mark Bray

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05 Junho 2020

Com o país em chamas pelo assassinato de George Floyd, em Minneapolis, pelas mãos da polícia, Donald Trump continuou governando com base em tuítes. Em um, ameaçou que “quando o saque começarem, os tiros começam”. Em outro mais enigmático, garantiu que “os Estados Unidos consideraram a Antifa uma organização terrorista”.

Para saber o que é o movimento Antifa e entender para que Trump o utiliza, La Vanguardia conversou com Mark Bray, autor do livro Antifa (Captain Swing), no qual o historiador e militante do Occupy Wall Street discorre sobre a luta antifascista no século XX e fala da situação atual. Os Estados Unidos não vão bem, com o terror da Ku Klux Klan, a partir de 1860, como uma forma de protofascismo.

A entrevista é de Justo Barranco, publicada por La Vanguardia, 04-06-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que está acontecendo nos Estados Unidos?

A sequência é conhecida. Mataram George Floyd há uma semana. Surgiram os protestos em Minneapolis e cresceram dois dias depois, queimando a delegacia onde trabalhavam os que mataram Floyd e com saques e destruição. Isso desencadeou a revolta em todo o país. Não apenas em Nova York e Washington, mas em lugares mais conservadores, como Salt Lake City, Utah, onde queimaram um carro da polícia. Existem protestos em todos os Estados e isso pode ser visto como a maior rebelião nos Estados Unidos em meio século.

Obviamente, existem demandas muito diferentes, desde parar de matar negros até tirar fundos da polícia ou aboli-la. E alguns querem apenas protestos não violentos e outros querem a destruição de propriedades e confrontos com a polícia. E no meio de todas essas questões raciais, econômicas e sociais que perseguem o país desde sempre, o presidente vai e culpa o Antifa pela destruição e diz que os declarará terroristas. Tenta distrair a opinião pública.

O que é o movimento Antifa e qual o seu papel?

É uma espécie de oposição social revolucionária à extrema direita do país e une diferentes pessoas, socialistas, comunistas, anarquistas, contra os fascistas e os brancos supremacistas. Não é uma organização específica. Existem grupos Antifa muito diferentes, não é hierárquico, não tem quartel general. É como o socialismo, existem partidos socialistas, mas o socialismo não é uma organização.

Alguns grupos e membros podem ter participado dos protestos, mas a revista The Nation não encontrou evidências de que o Antifa tenha participado da primeira grande noite de destruição, o dia 31. E não há membros suficientes do Antifa para fazer o que estão os acusando de fazer. Trump busca uma maneira de enganar e a maioria dos meios de comunicação e cidadãos veem isso como ridículo. Menos seus seguidores, que acreditam em tudo.

Por que voltou sua atenção para o Antifa, então?

Se você vê um policial branco matar um negro nos Estados Unidos, depois de anos de conflito racial pela morte de afro-americanos, e alguns dias depois vê grandes grupos de pessoas queimando delegacias e quebrando coisas, a causa parece evidente: as pessoas estão enfurecidas, frustradas, não acreditam mais na capacidade do sistema de se reformar.

O surgimento de uma forma massiva de resistência contra a violência policial em todo o país é uma acusação contra o sistema. E Trump está tentando dizer que não há nenhuma relação entre essa destruição e a dor pela morte de Floyd: a destruição é causada por esse pequeno grupo nas sombras e não é mais necessário levar a sério o elo entre a dor e a destruição. Desviar o debate para não enfrentar os problemas que atormentam o país.

Quais são?

Os Estados Unidos foram construídos sobre a escravidão e o genocídio dos índios. A escravidão permitiu lucros que impulsionaram o capitalismo americano. Após a guerra civil, foi abolida, mas tivemos um sistema de segregação chamado Jim Crow no sul, um sistema de racismo mais codificado legalmente do que no norte.

Nos anos 1960 e 1970, tivemos os movimentos de libertação negra, de direitos civis, que conseguiram avanços, mas não tudo. Nas décadas seguintes, continuaram existindo grandes disparidades de renda, porcentagens de encarceramento, expectativa de vida e saúde. O legado da escravidão persiste, é um debate encapsulado neste instante em que vemos o joelho do policial sobre o pescoço de Floyd, enquanto chora por ar, por respirar. Trump não quer ter esse debate.

Qual tem sido o seu papel?

Trump é conhecido por minimizar a importância da ameaça do supremacismo branco. Quando em Charlotesville, em 2017, foi assassinado um dos manifestantes antifascistas que os confrontaram, disse que havia gente boa dos dois lados. Quando o pressionaram para desautorizar David Duke, o antigo líder da KKK, inicialmente se recusou a fazer isso. Tem uma longa história: apoiou a acusação contra os cinco do Central Park, por um crime que não cometeram. E seu pai era membro da KKK.

O fascismo é um perigo real?

A ultradireita reemergiu nos Estados Unidos, nos últimos anos. O termo fascismo é um tanto escorregadio porque, após a Segunda Guerra Mundial, foi experimentado com diferentes linguagens e símbolos: assumiu muitas formas. Hoje, tem muito impulso na Europa e na América Latina, e nos Estados Unidos é difícil não enxergar que a sociedade se polarizou muito. A ala direita se deslocou para a ultradireita, a política racial tornou-se muito divisória e temos um presidente que, em resposta ao movimento de massas desses dias, quer enviar o Exército e a Lei marcial.

Mas, qual é o seu perigo?

Vemos supremacistas brancos abrir fogo em sinagogas e igrejas negras. Não acredito que estejamos a ponto de que arda o Reichstag ou que logo tenhamos uma ditadura, mas é importante fazer retroceder as intenções de Trump de expandir sua autoridade. E o que está claro é que as pessoas negras nos Estados Unidos vivem com o medo constante de ser assassinadas pela polícia e isso é uma forma de ditadura, de autoritarismo, de opressão.

Por que vemos as mesmas imagens, ano após ano?

Vimos isso até com Obama. Não muda. Por isso, as pessoas têm raiva. Em grande medida porque está emaranhado no tecido do país, no da polícia, em como muitos estadunidenses veem os criminosos em termos de raça. Veem os negros, as pessoas de pele escura, mais propensas à criminalidade. Isso determina como a polícia responde. O racismo está incrustado em boa parte da população dos Estados Unidos.

 

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