Bispo de Botswana e o assassinato de seu amigo George Floyd

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08 Junho 2020

"Você deixa um testemunho ao morrer em praça pública, e não em um acidente. O evento foi capturado em vídeo para a posteridade. Percebe que você é um grande homem? Ah, como amo telefones celulares! Ninguém poderá escapar de um crime impunemente porque evidências documentais circularão nas mídias sociais. O sistema de justiça criminal pode falhar com você, mas a opinião popular saberá a verdade", afirma Dom Frank Nubuasah SVD, da Diocese de Gaborone, Botswana, em carta para seu amigo, George Floyd, publicada por The Southern African Catholic Bishops’ Conference – SACBC, 04-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o texto.

Prezado Sr. George Floyd, um bom dia para você.

Não faço ideia de que horas são aí, em seu quinhão no reino de Deus. Mas me lembro vividamente do nosso primeiro encontro. Foi em um jogo de beisebol. Você vestia jeans azul, uma camiseta, boné, e segurava um enorme copo de papel cheio de Coca-Cola em uma das mãos e, na outra, um saco de pipoca. Estávamos sentados e, então, você se juntou a nós. Isso foi a muitos anos atrás, em Pittsburgh. Você era jovem ainda, tinha apenas 20 anos e estava de viagem. Conversamos e nos tornamos amigos.

Nestas circunstâncias, esta aqui é a minha última comunicação com você, nessa “terra dos vivos” que negou o seu direito de viver. Como eu poderia esquecer de você, George? Suas características distintivas são um nariz grande e lábios grossos; traços bem africanos. Eu sei que você sempre me lembrava de que não era africano, mas afro-americano. Ambas as origens lhe eram importantes e você não queria perder nenhuma. Solidamente, você se erguia com os dois pés em duas tradições. Entre esses pés havia muita água chamada Oceano Atlântico. Você nunca chegou a atravessá-lo!

Uma das coisas que mais aprecio em você é este seu sorriso contagioso. É como se o coronavírus tivesse aprendido com você a infectar as pessoas. O seu coração é muito grande e acomoda muitos de nós. Sempre lhe foi fácil estender a mão a mais alguém. Sim, você percorreria quilômetros por alguém. Você correu por mim em várias ocasiões, mas essa história eu conto outra hora.

Meu coração pesa quando ao sentar-me no meu canto de oração para escrever-lhe esta missiva, sabendo muito bem que outros a lerão, mas você não. Nós, humanos, através de um representante nosso, nos certificamos de que os seus olhos estavam fechados e não se abriam mais. No entanto, isso não é verdade, seus olhos permanecerão para sempre vendo o fogo que você iniciou na morte. A revolução que sua morte sacrificial inspirou e os novos movimentos e alianças contra o racismo, o classismo e a discriminação estão crescendo. Você acendeu um fogo que arde por paz e transformação. Então, meu amigo, quando ouvir o canto: “Sim, nós podemos”, saiba que o entoamos em seu nome e por você. Longe, mas muito aqui! No continente mãe, nós o chamaríamos de morto-vivo.

Lembro-me das férias que passei com você e familiares. Quincy era um bebê na época. Foi uma boa fuga dos meus livros. Que ótimo churrasco desfrutamos naquelas noites de verão. Pensava eu que nós, na África Austral, comíamos muita carne, mas, meu garoto, você realmente ama uma carne assada e bem suculenta.

Você se lembrará de uma preferência minha que foi satisfeita: você me levou para assistir a um jogo de futebol de verdade, não a versão americana, mas o futebol real, aquele do jogo suave. Ah, sim, você ficou entediado até os ossos, pois queria a sua versão do jogo. Lembro-me de tentar ensiná-lo de que o órgão mundial se chama FIFA, e não FISA, quando você se referiu ao “soccer”. Tudo isso é água que passou por baixo da ponte perto do estádio dos três rios onde nos conhecemos.

A meu convite, você planejava visitar a terra mãe e tocar o solo com seus próprios pés. Sugeri que participasse do festival cultural pan-africano conhecido como Panafest, em Gana, e então viesse a Botsuana para me visitar. Eu iria levá-lo para ver a vida selvagem em seu habitat natural, não em um zoológico. Você deveria visitar uma fazenda de gados e um “masimo” (campo de lavra) e saborear a cobiçada carne picada, a “seswaa”. Creio que você tem evitado comer carne, então os meus planos teriam de ser refeitos.

Com o aquecimento global, talvez aconteçam mudanças nos planos. Quem sabe Quincy queira ver a beleza deslumbrante de uma senhora que me coloca no colo dia e noite a me alimentar e nutrir. Ela me cuida e me apoia. Esta linda senhora chamada Botsuana é o lar de grandes homens e mulheres. Como pôde você perder essa visita que planejamos há tanto tempo? Meu coração dói muito. Eu me pôr a escrever-lhe esta carta é um mecanismo terapêutico que aprendi anos atrás, quando nos conhecemos em Pittsburgh. Sua vida foi antecipada, meu amigo.

Você deixa um testemunho ao morrer em praça pública, e não em um acidente. O evento foi capturado em vídeo para a posteridade. Percebe que você é um grande homem? Ah, como amo telefones celulares! Ninguém poderá escapar de um crime impunemente porque evidências documentais circularão nas mídias sociais. O sistema de justiça criminal pode falhar com você, mas a opinião popular saberá a verdade.

A pesquisa mais recente diz que dois terços do povo de seu país apoia a revolução que você iniciou quando morreu. Agora que viu os “portais das sombras” (Jó 38; 17), você atendeu sua chamada mesmo que prematuramente. Acho que as pessoas no céu estavam à sua espera. Adeus, meu irmão mais novo de outra mãe, na América. Nos encontraremos novamente.

No momento, tenho raiva porque sou humano e nunca pensei que os humanos pudessem se rebaixar tanto. Uma enorme recepção o aguarda na casa do Pai e eu espero que Coca-Cola e pipoca também estejam lá. Você só tem mais uma tarefa a executar. É a de se preparar para receber no céu os quatro notórios que o mataram quando chegar a hora deles e mostrar-lhes o lugar alegre que chamamos de céu. Disse ela que "quando eles se rebaixam, devemos nos elevar" (Michelle Obama). Sentirei sua falta, George. Agora você pode respirar eternamente o sopro do amor. Descanse em paz!

Dom Frank Nubuasah SVD, da Diocese de Gaborone, Botswana

4 de junho de 2020

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