Três falsas objeções às previsões sobre o próximo papa

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29 Junho 2020

Nesta semana, eu participei de um painel de discussão em Roma para apresentar um novo livro de um amigo e colega, Edward Pentin, intitulado “The Next Pope: The Leading Cardinal Candidates” [O próximo papa: os principais candidatos cardeais], a ser publicado pela Sophia Press no dia 4 de agosto.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 28-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como eu disse naquela noite, o livro reflete uma visão bastante conservadora sobre o estado da Igreja. Independentemente do que se pense sobre essa perspectiva, no entanto, trata-se de um libro bem informado e bem pesquisado, e há muito a se aprender sobre os 19 cardeais que Pentin apresenta como papáveis, ou seja, possíveis papas futuros.

Por enquanto, vou ficar de fora da discussão sobre candidatos específicos. Para que fique registrado, acho que a maioria das escolhas de Pentin é plausível, algumas são discutíveis, e algumas são simplesmente bobas, mas podemos deixar essa discussão para outro dia.

Aqui, quero abordar três objeções comuns que surgem sempre que a conversa se volta para o próximo papa. Eu as ouvi quando publiquei o meu livro “Conclave”, na época de São João Paulo II, há 20 anos, e elas estão sendo ditas todos os dias sobre o livro de Pentin e virão à tona novamente sempre que alguém fizer algo semelhante.

Para ir direto ao ponto, elas são todas uma bobagem.

Primeiro, muitas vezes objeta-se que especular sobre um futuro papa enquanto o papa atual ainda está vivo é desrespeitoso e desleal, equivalendo até a um ataque político à liderança do papa. É claro que poderia ser tudo isso, dependendo de quem está fazendo isso e por quê, mas, em princípio, não é necessário que haja essas opções acima.

Se você acha que a direção da Igreja Católica é importante, nenhuma figura individual tem mais impacto na definição de uma direção do que o papa, e, portanto, a escolha de quem ocupa o cargo é monumentalmente importante. A última coisa que você deseja é que os cardeais que farão essa escolha – e a única certeza aqui é que um dia eles terão que fazê-la – estejam mal informados sobre as suas alternativas.

Posso relatar que os cardeais que eu conheço e que participaram de um conclave estavam famintos por tanta informação quanto poderiam adquirir, porque perceberam que essa era provavelmente a decisão mais importante que já tomaram. Eles levavam o processo a sério e agradeciam por antecedentes ou perspectivas confiáveis que pudessem dar forma às suas deliberações. É provável que isso seja ainda mais verdade da próxima vez, já que muitos cardeais hoje não se conhecem bem.

As pessoas costumam perguntar: “Sim, mas por que agora? Por que não esperar até que o papado esteja chegando ao fim?”. A resposta é que, diferentemente de uma presidência estadunidense, não temos nem ideia de quando um determinado papado pode terminar, e esperar pelo fin du régime pode ser tarde demais para o tipo de pesquisa e análise meticulosa que realmente seriam úteis.

Segundo, há o refrão padrão de que especular sobre o próximo papa é inútil, já que ninguém sabe o que vai acontecer. Muitos citam o velho ditado italiano: “Quem entra papa em um conclave sai cardeal”, para acentuar a imprevisibilidade do processo.

Obviamente, de novo, é verdade que surpresas são sempre possíveis. Mas é importante destacar que, nas últimas seis eleições papais, o claro favorito do pré-conclave ganhou duas vezes – Paulo VI e Bento XVI –, enquanto os integrantes da “lista B”, mencionados como possibilidades mais remotas, venceram outras duas vezes – João Paulo I e Francisco. Somente em dois casos prevaleceram candidatos inesperados, como João XXIII e João Paulo II.

A verdadeira questão, porém, é que, se fôssemos tomar a possibilidade da surpresa como uma razão para não pensar no futuro, não haveria previsões das colheitas, nem projeções econômicas, nem modelos para a progressão de uma doença – nesse sentido, não haveria sequer boletins meteorológicos.

Sem dúvida, as previsões dos especialistas podem estar muito erradas. Mas, como disse Dwight Eisenhower, “ao me preparar para a batalha, eu sempre achei que os planos são inúteis, mas planejar é indispensável”. Quanto mais cuidadosamente a Igreja tiver pensado sobre uma encruzilhada iminente, mais bem preparada ela estará para se adaptar quando o inesperado ocorrer.

Por fim, há a piedosa objeção de que falar sobre um conclave em termos humanos – política, campos rivais, perspectivas e prioridades conflitantes etc. – manifesta um déficit de fé, porque a Igreja acredita que a escolha de um papa ocorre sob a orientação do Espírito Santo.

Na verdade, é o fracasso em levar em consideração esses elementos humanos que manifesta uma falta de fé, ou pelo menos uma falta de compreensão da fé, porque nós somos católicos, e não docetistas. O entendimento católico, como reconhecidamente articulado por Tomás de Aquino, é “gratia non tollit naturam, sed perficit”, ou seja, “a graça não elimina a natureza, mas a aperfeiçoa”.

Em outras palavras, o fato de haver um elemento divino na vida da Igreja, incluindo um conclave, não a torna menos humana, e, portanto, a dinâmica normal da sociologia institucional e das ciências políticas também se aplica aqui. Fingir o contrário é uma receita para todos os tipos de manipulações, não apenas pensando nas eleições papais, mas praticamente em tudo.

Conclusão: em princípio, refletir sobre as escolhas que aguardam os cardeais durante o próximo conclave não é apenas legítimo, mas também essencial.

É claro que, se uma dada contribuição para essa discussão for mal informada, polêmica ou desleixada, ela pode ser uma distração, mas, supondo que ela seja razoavelmente bem pesquisada e responsável, trata-se de um serviço público vital, e os jornalistas, pesquisadores e outros observadores que produzem tais obras não deveriam enfrentar falsos ataques pelo simples fato de terem feito isso.

Nada disso nos diz quem será o próximo papa. Mas pelo menos confirma que não estamos fazendo nada de errado ao pensar nisso.

 

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