O pontificado de Francisco está em crise? Uma resposta a Massimo Faggioli

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21 Abril 2020

Quando Massimo Faggioli faz uma crítica a este pontificado, como ele fez na semana passada no La Croix em um artigo em duas partes [aqui e aqui], todos devem prestar atenção. Faggioli não é apenas um dos principais eclesiologistas da Igreja universal, mas também tem apoiado fortemente o Papa Francisco.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 20-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira coisa a se observar é como Faggioli aborda o tema: ele é profundamente respeitoso, expressando preocupação, e não desprezo; sua análise não o leva a um buraco no qual a conversa logo se priva da eclesialidade estabelecida no Vaticano II.

Suas preocupações sobre as estruturas eclesiais foram adquiridas por leituras cuidadosas de Yves Congar, não a partir de um programa de MBA ou de uma campanha política. A linguagem de Faggioli é sempre uma linguagem eclesial, nunca alguma extrapolação bizarra de ideias foucaultianas sobre a relação entre poder e sexualidade, nem uma variação eclesiológica da teoria dos jogos.

Ele sabe que a Igreja é um dom, não um presente qualquer, e que existem limites e possibilidades que fazem parte da constituição da Igreja.

Suas reivindicações centrais são estas:

“Temos a impressão de que, nos últimos meses, o dinamismo do seu certificado começou a atingir o seu limite.”

E:

“Eventos recentes – como a sua decisão de ignorar uma sugestão dos bispos da Amazônia de ordenar padres casados e o estabelecimento de uma nova comissão de estudos sobre o diaconato feminino que não parece favorável à ordenação de diáconas – sugerem aos católicos reformistas que seu pontificado está em crise.”

As questões da sinodalidade e o papel das mulheres na Igreja são, sem dúvida, questões cruciais para Francisco e para a Igreja. Mas, antes de abordar essas questões de frente, vamos examinar alguns dos pontos que Faggioli reúne para defender seu argumento.

Eu acho que este exame encorajará Faggioli a ser um pouco menos definitivo ao declarar que este pontificado perdeu força e está em crise agora.

Por exemplo, ele se preocupa com “a pressão proveniente de bispos e cardeais no último ano, o que ameaçou a legitimidade do papa” e cita o cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

É verdade que ambos os cardeais divulgaram documentos que visavam a obstruir as reformas, mas Faggioli não é claro sobre o que deve ser feito em relação a esses homens.

Por que Francisco não reage mais fortemente contra esses críticos? O que ele deveria fazer, exigir a sua demissão do Colégio dos Cardeais ou planejar alguma outra punição semelhante? Isso apenas os tornaria mártires.

Müller já está aposentado, e Sarah completará 75 anos de idade em junho. É melhor deixá-los passear ao pôr do sol como velhos cantores de lounge: eles podem receber reservas ocasionais em um clube de segunda categoria, mas suas carreiras acabaram, e agora eles estão principalmente passando vergonha.

Faggioli, estranhamente, não chama a atenção para uma nomeação pendente que moldará fortemente a Igreja: o cardeal Marc Ouellet logo será substituído como prefeito da Congregação para os Bispos. Assim como a nomeação do cardeal Luis Tagle para chefiar a Congregação para a Evangelização dos Povos anuncia um novo tempo, a substituição de Ouellet pode remodelar a Igreja profundamente.

Da mesma forma, não está claro por que o pedido de Faggioli por reformas estruturais não tomou conhecimento da futura constituição apostólica sobre a reforma da Cúria Romana. Ele defende um argumento brilhante que eu nunca vi antes – “O papa pode ignorar a Cúria Romana de um modo que outros católicos não podem – incluindo bispos e padres” –, e há várias razões pelas quais as reformas curiais têm demorado tanto tempo, incluindo a insistência do papa em uma consulta ampla.

Mas, em conversas causais com os bispos que retornavam de suas visitas ad limina, eles notaram as diferenças no modo como essas importantes reuniões eram realizadas. Três itens se destacaram: a conversa franca e demorada com o próprio papa; o comportamento modificado de autoridades da Cúria que perguntavam como eles podiam ajudar, em vez de começarem com um discurso de repreensão; e a presença de mulheres em cargos de responsabilidade nas reuniões com certos dicastérios.

Veremos o que a constituição apostólica sobre a reforma curial fará para avançar ainda mais uma mudança na cultura do Vaticano.

A questão maior que Faggioli levanta, permanece: por que esse papa reformista não avançou em duas áreas da reforma interna da Igreja, a restauração de um diaconato feminino e a solicitação do Sínodo Amazônico para ordenar homens mais velhos e casados, ou viri probati, em circunstâncias particulares?

Eu sugiro duas possibilidades menores e uma maior.

Primeiro, as menores. Sobre a questão das diáconas, ficou claro há muito tempo que avançar nesse front provavelmente entrincheiraria ainda mais a associação da autoridade decisória com a ordenação: clericalizar as mulheres não ajuda muito para acabar com o clericalismo.

Sobre a questão de ordenar homens mais velhos e casados ao sacerdócio, é uma mudança tão grande que, se introduzida na Amazônia, seria seguida também em outros lugares, e o Sínodo Amazônico não era o meio para esse tipo de mudança.

Para bancar o advogado do diabo, Faggioli está indubitavelmente correto de que pedir mais paciência em relação à questão do papel das mulheres na Igreja faz com que nos sintamos como se uma “Carta de uma prisão em Birmingham” logo estará na nossa caixa de correio, que as exigências da justiça são urgentes e que, pelo menos no Ocidente, a Igreja corre o risco de afastar toda uma geração de jovens católicos porque ela exclui as mulheres de papéis nos quais parece não haver sequer uma justificativa doutrinal.

E, quanto aos viri probati, o Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI encontraram formas de ordenar homens casados quando os padres anglicanos vieram bater na porta. Então por que isso seria algo tão importante desta vez, exceto pelo fato de os conservadores terem decidido fazer disso algo tão importante?

A maior possibilidade é esta. Quando ele se tornou papa, de fato na fala que levou à sua eleição, Francisco chamou a Igreja a olhar para fora, a sair da sacristia, a se tornar uma Igreja de discípulos-missionários. Talvez ele pense que essa mudança de foco do “ad intra” para o “ad extra” é uma pré-condição que precisa ser atendida ainda mais se a Igreja quiser fazer reformas internas de uma forma que não a divida mais do que já está.

Eu confesso que uma votação com maioria de dois terços parece uma base estreita para se construir grandes mudanças. No Vaticano II, todos os documentos finais foram aprovados com mais de 90% de aprovação. Será que uma votação com maioria de dois terços seguida por uma decisão monárquica é o caminho para garantir uma reforma profunda?

Faggioli está certo ao sugerir que o processo de sinodalidade deve começar a incluir teólogos acadêmicos. Os teólogos foram cruciais para as conquistas alcançadas no Vaticano II e deveriam ser incluídos nestes sínodos. Além de fornecer possíveis soluções extraídas da tradição, eles também podem servir como uma caixa de ressonância para evitar problemas, pois às vezes os papas e os bispos não têm o dom de entender como eles soam quando falam ao público em geral.

Os teólogos também podem se ajudar a lembrar que não existem problemas no vácuo. Por exemplo, as discussões eclesiológicas sempre contêm um forte componente ecumênico na era pós-conciliar.

Eu espero que Francisco e seus conselheiros tenham lido o artigo em duas partes de Faggioli no espírito em que ele foi escrito: Faggioli não é um “oponente” deste papa, e suas preocupações são reais e são compartilhadas por muitos. Se o papa desse mais entrevistas e permitisse que seus colaboradores fizessem o mesmo, introduzindo alguma transparência para que saibamos melhor por que certas decisões são tomadas, muita agitação se dissiparia. Mas não toda.

Como Faggioli indica, 55 anos após o encerramento do Vaticano II, o povo de Deus precisa de melhores respostas para a pergunta: por que cada um dos papas pós-conciliares continuou dando importantes contribuições ao ensino social, mas cada um deles naufragou nos recifes da reforma eclesial.

 

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