Amazônia: missionária diz que sistema de saúde entrou em colapso devido à Covid-19

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04 Junho 2020

É um paradoxo que os ancestrais guardiões dos pulmões do mundo agora “carecem de oxigênio para sobreviver”, diz uma missionária na região amazônica, que foi duramente atingida pela pandemia do coronavírus e da Covid-19.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 03-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco chamou a atenção para a crise na região no domingo passado, rezando pelas pessoas afetadas pela doença. Até agora, o vírus matou mais de 500 indígenas.

Dominika Szkatula, uma missionária leiga polonesa que está na Amazônia peruana há quatro décadas, disse que a pandemia chegou “tarde” à região, depois de passar pela capital peruana, Lima, e outras regiões.

Em princípio, parecia uma ameaça distante. Ela e seu povo ouviram falar de um caso no Vicariato Apostólico de San José, na cidade de Indiana, a cerca de 24 quilômetros de onde ela mora.

Szkatula mora em Iquitos, uma cidade portuária e porta de entrada para as pousadas na selva e as aldeias tribais do norte da Amazônia. Depois que o primeiro caso foi relatado no vicariato, o segundo foi um “choque”: Dom José Javier Travieso Martin – ele foi o primeiro prelado da região a contrair o vírus. A secretária do escritório da Cáritas local foi a próxima. Depois de quase dois meses, ambos se recuperaram.

“Pouco a pouco, na cidade de Iquitos, o número de infectados, de casos suspeitos e de mortes aumentou até que as autoridades não podiam mais lidar com a situação”, disse ela ajuda por telefone ao Crux. “Isso fugiu completamente do controle das autoridades de saúde e do governo regional. Dois hospitais para o atendimento da Covid-19 entraram em colapso”.

“Ainda hoje, camas, remédios, equipamentos de proteção para profissionais de saúde, artigos de higiene e de limpeza, instrumentos médicos, oxigênio e, o mais urgente, médicos e enfermeiros, são insuficientes em quantidade”, disse Szkatula no dia 31 de maio.

“Muitos morreram por falta de oxigênio e de respiradores, e aqueles que adoecem estão em quarentena”, acrescentou. “Os tanques de oxigênio eram escassos, e alguns dos poucos que tínhamos estavam danificados, com uma demanda urgente diante do contágio massivo, e, consequentemente, inúmeras pessoas necessitadas desse produto. Hoje, o seu valor excede o do ouro”.

O Vicariato de San José, na Amazônia, é um enorme território de mais de 155.000 metros quadrados e apenas 150.000 habitantes. A maioria das pessoas vive ao longo dos rios, e há nove grupos étnicos habitando em um território com uma geografia complexa que dificulta ainda mais o transporte e a comunicação.

Existem 60 missionários trabalhando no território, 90% dos quais são mulheres, e oito, assim como ela, são leigos. O vicariato tem apenas 10 padres.

A missionária polonesa reconheceu que nenhum hospital da cidade estava bem equipado antes da pandemia que atingiu a região; muito menos agora, enquanto que o vírus vasculha as ruas.

Na primeira fase da preparação à pandemia, o vicariato trabalhou com diferentes empresas e organizações financeiras para obter os fundos necessários. Além disso, receberam doações de suprimentos médicos de Lima e em dinheiro de várias partes do mundo.

Eles então montaram campanhas de prevenção ao coronavírus: criando pequenas brigadas formadas por representantes da Igreja, do Estado, do sistema de saúde e das comunidades indígenas. Eles também prepararam faixas e pôsteres para distribuir por todo o vicariato.

“Fomos claros ao dizer que a tarefa mais importante era convencer as comunidades a se isolarem, a impedirem que qualquer pessoa as visitasse de fora, porque essa é a melhor maneira de evitar contágio que poderia colocar vários grupos étnicos em risco de extinção”, disse Szkatula.

A campanha de prevenção foi inicialmente muito bem-sucedida, disse ela, embora não tenha sido fácil: alguns barcos que viajam na área com as permissões necessárias para transportar itens essenciais foram usados, na verdade, para transportar pessoas não autorizadas até a região.

“Em certo ponto, descobrimos que um grupo de 60 madeireiros desceu de um barco e, sem mais delongas, se dedicaram ao seu trabalho ilegal de cortar árvores, enquanto estávamos em um estado de emergência”, reclamou ela. "Em outros lugares, os traficantes de drogas chegaram depois de deixar as montanhas onde se escondiam, porque ficaram sem suprimentos e estavam com fome.”

Isso ajudou a disseminação da Covid-19: o vicariato tem 389 casos confirmados e 35 mortes.

“Alguns argumentam que esses números são pequenos, mas a perda de uma vida, para nós, significa muito”, disse ela, acrescentando que também é uma questão de perspectiva: “Quando você tem 10 mortes em uma comunidade de 50 pessoas, isso é uma tragédia. Além disso, os números, como ocorreu em muitos países, são muito imprecisos e tendem a crescer.”

Uma segunda etapa no combate ao vírus foi tentar fortalecer a “pouca capacidade operacional dos pequenos hospitais de referência localizados nos três grandes rios que o nosso vicariato abrange: o Amazonas, o Putumayo e o Napo. Além disso, pensamos nos pequenos centros em cada um dos 15 postos de missão, cuja sede fica principalmente nas capitais do distrito.”

Eles têm “substituído o Estado” em alguns casos, comprando equipamentos de proteção e de diagnóstico para esses centros – alguns muito básicos, como termômetros, oxímetros e estetoscópios; e alguns mais complexos, incluindo um scanner de ultrassom. Mas, enquanto tentam equipar esses postos de saúde, eles também estão enviando cartas às organizações governamentais “para lembrá-las dos seus deveres”.

“Temos que levantar a nossa voz mais alta e profética em defesa dos mais vulneráveis e nos coordenar melhor junto a outras instituições, Igrejas, organizações indígenas etc”, disse Szkatula.

“Paradoxalmente, o pico da pandemia começou na Páscoa, com a presença do Cristo Ressuscitado no nosso meio, que nos trouxe vida em abundância, e temos uma oportunidade maravilhosa de inspirar esse sopro e compartilhá-lo com aqueles que temos que cuidar”, disse ela.

Questionada sobre por que uma missionária leiga polonesa está tão longe de casa, ela disse simplesmente que “Deus chama quem Ele quer, quando quer, como quer e os envia aonde quiser”.

“Nos tempos em que o comunismo reinava na Polônia, valores como a verdade e a liberdade eram muito importantes para uma jovem como eu, que se sentia inspirada pela vida de Jesus”, disse ela. “A partir dessa conjuntura, surgiu em mim um desejo de ser útil aos outros: os necessitados, os sofredores, os perseguidos”.

Ao mesmo tempo, ela se fez uma série de perguntas: “Por que os leigos, sendo a maioria esmagadora da Igreja, são quase insignificantes? Predestinados apenas a obedecer e a cumprir ordens? Com uma certa rebelião, eu queria ser mais ativa na minha Igreja”.

“Eu vi as missões como uma grande oportunidade para isso”, disse Szkatula. “Por que elas seriam abertas apenas a padres e a religiosos e religiosas? Eu estava tendo essa briga com Deus, mas decidi perseguir o meu sonho. Abandonei o homem que eu amava, Gregorio, e tinha apenas 24 anos, com um violão debaixo do meu braço e vestindo jeans modernos, interrompi os meus estudos de Engenharia e comecei a minha formação como catequista.”

Entre 1980 e 1982, ela trabalhou como catequista em Viena, ensinando aos migrantes poloneses.

“Era algo quase impossível, mas nada é impossível para Deus”, disse ela, referindo-se à vinda ao Peru em 1982, determinada a permanecer por toda a vida. “Hoje, com 38 anos como missionária, todas as fibras do meu corpo sabem que todos podemos assumir um papel ativo na missão de Cristo para salvar a todos nós. Eu me considero sortuda, porque, vivendo na Amazônia, vivemos mais perto de Deus”.

 

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