Cidade mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira se isola contra o Covid-19

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26 Março 2020

Não há UTI ou respirador mecânico no município e casos graves precisariam ser levados a hospitais de Manaus, a mil quilômetros de distância.

A reportagem é de Juliana Radler, publicada por Instituto Socioambiental – ISA e reproduzia por Amazônia.org, 24-03-2020.

Todo transporte aéreo e fluvial que liga São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Venezuela e a Colômbia, foi interrompido a partir de decretos estadual e municipal. O objetivo é isolar a região da Cabeça do Cachorro e assim evitar os efeitos da chegada da doença na população indígena de 23 etnias do Rio Negro. Sem Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) e respirador mecânico, a localidade não conseguiria atender casos graves e doentes precisariam ser levados para a capital, Manaus – a mil quilômetros de distância por via fluvial.

Não é de hoje que São Gabriel da Cachoeira vive problemas pela precariedade da rede de saúde. Há dois anos, o município de 40,9 mil habitantes passou por uma grave crise de malária, liderando os casos registrados em 2018 no Brasil. O grave quadro foi denunciado pelo jornal Folha de S. Paulo na ocasião, levando a uma intervenção estadual da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) para gerir a crise e enfrentar a epidemia. Esse ano foi a vez da dengue explodir, levando São Gabriel a ser o município campeão em ocorrências no Amazonas nos meses de janeiro e fevereiro desse ano, com 395 casos, segundo a FVS-AM.

Portanto, o histórico recente de proliferação de doenças e as dificuldades encontradas pelos serviços de saúde locais assustam, com razão, a população diante da pandemia de Covid-19. As comunidades indígenas no entorno da cidade e nas zonas periurbanas são as mais vulneráveis às epidemias, sem saneamento básico e em condições sanitárias e de moradia precárias.

A realidade lembra à das populações de favelas e periferias de grandes cidades e metrópoles brasileiras. “Temos que agir rápido para não deixar o coronavírus chegar aqui. Se tivermos uma proliferação de casos, como está havendo em outras cidades do Brasil, vamos ter uma verdadeira tragédia para os nossos povos, que são muito frágeis para essas doenças pulmonares e respiratórias”, ressaltou Marivelton Barroso, do povo Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).

Veja pronunciamento do presidente da Foirn sobre agravamento da pandemia

Gestão da crise

Durante esta segunda-feira (23/03), o Comitê de Prevenção e Enfrentamento ao Novo coronavírus (COVID-19), trabalhou para produzir materiais de comunicação e educação da população, majoritariamente indígena e falante de quatro línguas co-oficiais (Nheengatu, Tukano, Baniwa e Yanomami). “É uma corrida contra o tempo dos integrantes do Comitê para juntar esforços e voluntários na produção dos materiais e tradutores que possam produzir os informes nas línguas locais”, comentou a enfermeira da Secretaria municipal de Saúde, Eufélia Gonçalves, ex-secretária de Saúde do município. O comitê foi criado a partir do Decreto número 3 (anexo) da Prefeitura de São Gabriel, de 18 de março, que declarou situação de emergência na saúde pública.

Carro de som pela cidade, informações nas rádios municipal AM e FM, e envio de notícias via rede de radiofonia para as aldeias foram medidas tomadas hoje para fazer a informação circular o mais rápido possível em português e línguas indígenas. Durante o fim de semana, a polícia civil e militar também fizeram rondas pela área urbana para fechar bares, boates e festas onde havia aglomeração de pessoas, assim como nas feiras livres e praças.

Foto: Reprodução Amazônia.org

No domingo à tarde a polícia também interditou a orla da praia do Rio Negro, principal área de lazer de São Gabriel, informando aos banhistas sobre os riscos do coronavírus. Até o momento, foi notificado apenas um caso suspeito em São Gabriel, de uma passageira da lancha Expresso que chegou ao município no último sábado (21/03) vinda de Brasília. O resultado do exame ainda não ficou pronto e ela encontra-se em isolamento social.

Articulações entre as cerca de 20 instituições que integram o comitê, entre elas a Fundação nacional do Índio (Funai), o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o Exército brasileiro e todas as secretarias municipais, estão sendo feitas para organizar a chegada de pessoas à cidade.

Mesmo com o decreto municipal e estadual interrompendo as viagens, um barco recreio da empresa Lady Luiza saiu de Manaus na última sexta-feira em direção a São Gabriel. Como o decreto municipal passa a vigorar hoje, cerca de 100 pessoas que precisavam retornar da capital para suas casas e aldeias estão desembarcando em São Gabriel. As autoridades estão preocupadas sobre a necessidade de quarentena e monitoramento.

Até o momento de fechamento dessa notícia, a decisão era de que os passageiros ficariam em quarentena no próprio barco por 14 dias, com autorização do governador do estado, Wilson Lima, enquanto aguardam a chegada de testes rápidos para Covid-19. A situação causa receio, pois não se sabe em quais condições essas pessoas irão ficar no barco e como será garantida alimentação e higiene. Esses e outros temas foram debatidos pelo comitê, como também o isolamento da população de São Gabriel. Alguns passageiros indígenas mais idosos, mulheres e crianças foram encaminhados para fazer a quarentena na Casai (Casa de Saúde Indígena).

Em paralelo a essas medidas emergenciais de quarentena, um ofício será encaminhado pelo comitê ao Ministério Público Federal (MPF-AM), Susam (Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas), Funai e Gabinete do Governo do Estado do AM para que sejam providenciados urgentemente os testes rápidos para São Gabriel, além de outros materiais, como luvas, máscaras, álcool gel e máquinas respiradores, além de melhorias urgentes na infraestrutura do único hospital do município (HGU – Hospital de Guarnição), administrado pelos militares.

“Não podemos esperar a doença se espalhar para agir. Temos que melhorar nossa infraestrutura tanto para tratar de possíveis doentes, como também para evitar a proliferação do vírus”, explicou Marivelton, que foi até o porto de Camanaus – a cerca de 30 quilômetros – para acompanhar a chegada dos indígenas no barco Lady Luiza. Muitas notícias falsas foram espalhadas durante todo o fim de semana em relação à viagem do barco, provocando medo e preconceito em relação aos viajantes, tripulação e à própria empresa. Combater fake news e o descontrole emocional é outro papel importante deste comitê, que vive momentos de tensão diante da iminência do alastramento da pandemia num município extremamente deficitário em termos de infraestrutura sanitária e de saúde.

O último balanço oficial de casos feito pelo governo do Amazonas noticiou às 14h30 de hoje, 32 confirmados de coronavírus, sendo 29 em isolamento social, três internados e ainda 20 em investigação. Foi também confirmado o primeiro diagnóstico em uma criança de 10 anos, que chegou de viagem dos Estados Unidos. Com isso, a faixa etária de infectados pelo vírus no Amazonas vai de 10 a 83 anos, de acordo com a FVS. Um indígena Marubo, da TI Vale do Javari, no Amazonas, está em isolamento domiciliar aguardando o resultado do teste após ter tido recente contato com turistas norte-americanos. Se o exame der positivo, esse será o primeiro caso da doença entre indígenas no Brasil.

De volta às comunidades

Alguns indígenas em situação de maior vulnerabilidade, como da etnia Hup’dah, que estão na área urbana de São Gabriel, serão levados de volta às suas comunidades amanhã (24/03) a partir da articulação do Comitê de Crise com a Funai. Para evitar que fiquem expostos em área urbana e no beiradão (acampamentos na beira do Rio Negro nas proximidades da cidade), essas pessoas serão encaminhadas para suas comunidades, para que fiquem em segurança e só retornem para a área urbana após o controle da crise.

Na terça-feira será informado o total de indígenas que voltará às comunidades. A viagem será feita no barco da Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (Amirt), com apoio da Funai. Em geral, a vinda dessas populações para a área urbana está relacionada ao recebimento de benefícios sociais (bolsa-família, aposentadorias e seguro maternidade) e tratamento de saúde e agendas da área de educação.

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