Amazonas. São Gabriel precisa de atenção diferenciada para casos de Covid-19, diz infectologista da UFAM

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14 Mai 2020

O médico infectologista Bernardino Albuquerque, professor e presidente do Comitê Central de Combate à Covid-19 da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), criticou nesta segunda-feira (11) a falta de planejamento e sensibilidade em relação ao enfrentamento à pandemia no município de São Gabriel da Cachoeira, que tem a maioria da população de indígenas e fica na fronteira do norte do Amazonas com a Colômbia e Venezuela.

A reportagem é de Izabel Santos, publicada por Amazônia Real, 13-05-2020.

No sábado (9), faltou oxigênio no Hospital de Guarnição do Exército, única unidade hospitalar do município, mas que não tem Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e conta apenas com sete respiradores para o tratamento de pacientes de Covid-19. Cobrado pelo Ministério Público do Amazonas, o governo do Amazonas enviou 30 cilindros ao hospital com apoio de aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). O caso foi denunciado nas redes sociais por um paciente indígena do povo Desana.

O município já registra 10 mortes e, por dia, uma média seis novos de coronavírus, a maioria dos pacientes são indígenas. Imagem do cemitério Parque da Saudade em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real/09/05/2020)

“Agora, fica uma situação muito difícil no que diz respeito à atenção [em saúde]. Sabemos que na sede [do município] tem um hospital militar, mas que tem limitações de espaço físico, equipamentos e recursos humanos que precisam ser reforçadas”, disse Bernardino Albuquerque.

O médico disse que a criação de polos de atendimento em pontos estratégicos do município seria uma alternativa aos indígenas que moram longe da cidade. “Uma outra coisa que precisa realmente ser considerada é como se vai dar uma atenção diferenciada a quem vive nas comunidades, que têm um deslocamento muito difícil. O deslocamento aéreo não satisfaz em todas as situações. Um exemplo disso é o que está acontecendo no Alto Solimões”, diz o infectologista Bernardino Albuquerque se referindo a região com mais casos de Covid-19 entre indígenas no Brasil. O Alto Solimões tem 100 casos confirmados e dez mortes.

Desde o dia 26 abril, data de divulgação dos dois primeiros casos de Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira (AM), o número de infectados aumentou 4.850% à média de seis novos casos por dia. De acordo com o boletim da prefeitura, nesta segunda-feira (11) foram registrados no acumulado 97 notificações da doença e dez mortes. Outras 297 pessoas estão sendo monitoradas com suspeita da doença.

No entanto, no boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), só constam três casos confirmados pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro, e duas mortes de indígenas “aldeados”. A Sesai não registra os indígenas acometidos pela doença que moram na cidade.

Uma das vítimas do novo coronavírus em contexto urbano foi o professor Walter Antônio Benjamin Luciano, 44 anos, da etnia Baniwa, que morreu no dia 4 de maio. Leia no final deste texto a história dele.

Devido a incidência da pandemia na região, a Prefeitura de São Gabriel decretou lockdown, que é proibição da circulação da população nas ruas e de atividades não essenciais de 9 a 19 de maio. O decreto foi assinado pelo prefeito em exercício Pascoal Gomes Alcântara (PT), porque o prefeito Clóvis Saldanha (PT), está com Covid-19 e afastado das funções desde o dia 2.

O médico Bernardino Albuquerque avalia que as medidas de isolamento social mais rígidas, como o lockdown, só devem funcionar se levarem em conta questões culturais de São Gabriel da Cachoeira. “Se realmente essas medidas podem ser efetivas, elas podem! Mas vai depender muito do contexto em que isso vai acontecer, porque mudar uma cultura, um hábito, de imediato, é muito difícil. Tem todo um contexto socioeconômico que precisa ser levado em consideração”, diz o especialista.

São Gabriel da Cachoeira é distante de Manaus a 850 quilômetros e fica na região do Alto Rio Negro. A maioria dos 45 mil habitantes é indígena. São 23 etnias, entre elas, Tukano, Baré, Baniwa, Desana, Arapaso.

O infectologista da UFAM avalia que os deslocamentos realizados todos os meses por indígenas de comunidades adjacentes também deveria ter sido pensado como uma das peculiaridades locais. “No caso de São Gabriel da Cachoeira, quase 90% da população é de indígenas e de várias etnias. Além disso, tem a questão dos deslocamentos e como as comunidades ao redor da cidade se comunicam com a sede do município. Todos os meses, no final do mês, centenas de pessoas vêm a cidade receber benefícios. Na atual situação, eles precisam ainda mais desse recurso”, acrescenta Albuquerque.

O lockdown na cidade proíbe a circulação e aglomerações de pessoas nas vias públicas, estabelecimentos comerciais, instituições bancárias e lotéricas da cidade nos horários de 6h às 15h. A exceções são casos de atendimento em saúde, estabelecimentos comerciais, servidores da segurança pública e saúde, serviços essenciais (luz, água, telefonia e internet) e entregas na modalidade delivery, que deve funcionar até às 20h. Quem desobedecer ao decreto está sujeito à autuação.

Cemitério Parque da Saudade em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real/09/05/2020)

O bloqueio total da circulação da população tem o objetivo de diminuir o ritmo de sobrecarga da saúde no município, que só dispõe de unidades básicas de saúde e um hospital militar para atender casos graves da doença. Além disso, o decreto quer impedir o avanço da doença nas 750 comunidades indígenas distribuídas em 11 terras indígenas na região do Alto Rio Negro, que abrange os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Izabel do Rio Negro e Barcelos.

Albuquerque avalia que, mesmo sabendo que a doença poderia chegar ao Brasil, e alcançar as comunidades indígenas, não houve planejamento por parte das autoridades em saúde para minimizar a presença da doença nas localidades. Ele opina que poderiam ter sido criados pontos de atendimentos em locais estratégicos, próximos a concentrações de comunidades, para remoção de pacientes da doença para tratamento.

“Estamos tentando apagar um incêndio para o qual não tivemos preparo prévio, coisa que poderia ter sido pelo menos amenizada. Poderíamos ter criado polos de atenção, pelo menos para acolher e dar uma atenção diferenciada [a indígenas com covid-19] até que o socorro pudesse chegar [aos polos de atendimento]. Seriam pontos estratégicos que levassem em conta o deslocamento, como se fossem cidades satélites. Devemos esquecer a geografia e consideram o hábito de deslocamento da população, porque os moradores dessas comunidades se deslocam pelos rios. Por exemplo, é mais fácil descer do que subir um rio, ainda mais um como negro”, diz o médico infectologista.

“Também é preciso definir a população a ser referenciada, o contingente de cada área para não sobrecarregar. Também é preciso pensar no que colocar nesses polos: oxigênio? Testagem?”, concluiu Bernardino Albuquerque, presidente do Comitê Central de Combate à Covid-19 da UFAM.

Proteção das comunidades isoladas

Porto do Graciliano usado para chegada e saída de indígenas das comunidades (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

A pandemia de coronavírus tem se agravado nas comunidades indígenas mais distantes da sede de São Gabriel da Cachoeira, onde vivem mais de 25 mil pessoas. Segundo o presidente do Comitê Municipal de Enfrentamento à Covid-19, Marivelton Baré, é necessário um plano de ação diferenciado para o local, que tem a maior parte da sua população em comunidades afastadas e terras indígenas mais distantes ainda da sede do município.

“Tivemos uma explosão de casos. Aqui em São Gabriel da Cachoeira, a unidade hospitalar, assim como todo o sistema de saúde do município, já entrou em colapso. Precisamos de outras medidas, mudar a rotina e vetar as entradas da cidade. Ainda temos uma aglomeração muito grande na cidade. Somado a isso, faltam máscaras, testes rápidos para testar todo mundo, e EPIs adequados”, relata.

Na quinta-feira (8), uma pessoa foi transferida às pressas da comunidade Cucuí para a sede do município. Ela tinha ido visitar um parente no local há dez dias e adoeceu. Por um acaso, funcionários do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro foram ao local fazer testagens em pessoas que tiveram contato com uma pessoa infectada e se depararam com a situação. A pessoa foi transferida de helicóptero para o Hospital de Guarnição do Exército.

Com a falta de assistência por parte da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), o município está contando com o apoio de profissionais de saúde das organizações não governamentais estrangeiras. A reportagem apurou que há enfermeiros de agentes de saúde (AIS) doentes e na quarentena. Faltam também Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), sabão, máscaras, alimentos nas comunidades, além de água potável.

Marivelton Baré contou como o foi o esforço para chegar novos médicos na região. “A saúde está sobrecarregada, pois ainda faltam profissionais de Manaus virem para cá. Conseguimos trazer alguns com o apoio de Greenpeace, que fizeram em um voo de quatro pessoas, também tivemos uma ajuda dos Médicos Sem Fronteiras. Esses profissionais vão nos ajudar a pensar em uma estratégia, um plano melhor, de combate”, acrescenta ele, que é também presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).

Agências bancárias lotadas

Movimento nas ruas de São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

Assim como em todo o Brasil, o pagamento do Auxílio Emergencial por parte do Governo Federal gerou aglomerações na porta da agência da Caixa Econômica e Casas Lotéricas no município. A situação agravou o avanço da doença em São Gabriel da Cachoeira. “O auxílio emergencial criou um problema nesse sentido. Não somos contra, queremos que o auxílio seja pago e que o Bolsa Família continue. Mas é preciso um planejamento para poder pagar esses benefícios de uma forma que ela não venha a contrariar o que diz a Organização Mundial da Saúde e as normas sanitárias no que diz respeito às aglomerações, por que esse governo parece o governo do massacre, ele faz tudo sem pensar nas especificidades. É tipo, está aí o benefício para os indígenas também, se aglomerem, se contagiem, morram…não pode ser dessa forma!”, diz o líder indígena Marivelton Baré.

Um professor muito querido

O professor Antônio Benjamin (Foto da Prefeitura Municipal de São Gabriel)

Uma das dez vítimas de Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira é o professor Walter Antônio Benjamin Luciano, 44 anos, da etnia Baniwa. O caso dele é um exemplo de como as autoridades de saúde tratam a pandemia no interior do Amazonas. Como outros pacientes de regiões com hospitais sem unidade de terapia intensiva, ele foi estabilizado e transferido em UTI aérea para a capital do estado, mas morreu durante o tratamento em Manaus.

Antônio Benjamin, como era chamado, foi a primeira vítima de indígena por Covid-19 registrado em contexto urbano em São Gabriel. A sobrinha dele, a enfermeira Maria Michelle da Silva Luciano, de 33 anos, que o acompanhou no tratamento, conversou com a reportagem da Amazônia Real por telefone.

“Ele começou a apresentar sintomas por volta de 9 de abril e procurou atendimento no Hospital de Guarnição. Fez um teste rápido, que deu negativo e seguiu com a rotina normal achando que se tratava apenas uma gripe forte”, conta Michele.

A enfermeira disse que o tio voltou a sentir sintomas de gripe. “Só que mais ou menos no dia 24 de abril, ele passou muito mal durante uma reunião da Seduc e foi levado de novo ao hospital. Ele estava com muita falta de ar”. Seduc é a sigla de Secretaria Estadual de Educação.

Ela disse que o professor ficou internado por três dias e depois foi transferido em UTI aérea para Manaus. O Exército divulgou o caso no dia 26 de abril e informou que “o paciente se encontrava em estado grave”.

“Ele estava em estado crítico, com saturação de oxigênio abaixo de 90%. Fui com ele. Chegamos à tarde e ele foi direto para o quarto andar do Hospital Delphina Aziz. Foi imediatamente entubado e testado positivo pelo Lacen”, recorda Michele.

O professor Antônio Benjamin não resistiu e morreu no dia 4 de maio de parada cardiorrespiratória por Covid-19. Segundo a sobrinha, ele teve 90% dos pulmões comprometidos. Sua família não pode se despedir dele, que foi sepultado no cemitério Recanto da Paz, em Iranduba, município que fica a 27 quilômetros de Manaus. A prefeitura do município soltou uma nota de pesar.

Antônio era o mais novo de cinco irmãos. Nasceu no distrito de Assunção do Içana, no rio Içana, no Alto Rio Negro. Era formado em licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Estadual do Mato Grosso, em Cuiabá, e professor da Seduc em São Gabriel da Cachoeira. Casado, não tinha filhos e morava nos arredores do centro da cidade com a esposa e uma irmã.

A família acredita que o professor tenha sido infectado pelo coronavírus em transmissão comunitária, pois ele estava em São Gabriel da Cachoeira desde janeiro. Além de lecionar, o professor tinha uma pousada na cidade, que era administrada pela esposa. O último hóspede deixou o local em 2 de fevereiro.

Ainda em quarentena devido ao contato com o tio, a enfermeira Michele Luciano aguarda o fim do período para voltar à rotina. Ela, que não foi infectada, trabalha na saúde municipal de São Gabriel da Cachoeira e presta serviço na barreira sanitária hidroviária.

“Eu vou sentir muita falta dele, porque nós éramos muito próximos, muito amigos. Eu cresci com meu tio lá no sítio [ no distrito de Assunção do Içana], onde nós éramos muito felizes. Depois meio que nós separamos em busca de crescimento profissional. A lembrança que vai ficar é a daquela época”, disse.

“Só eu vim com meu tio para Manaus. Foi muito triste. Ele ficou sozinho na UTI, porque ninguém pode acompanhar. Eu cuidei de tudo, mas contamos com o apoio do trabalho dele [a Seduc]”, disse Michele Luciano.

O que dizem as autoridades?

Hospital de Guarnição do Exército em São Gabriel da Cachoeira (Foto de Alberto César Araújo/Amazônia Real/2017)

A reportagem procurou o governo do Amazonas e o Comando Militar da Amazônia, que é responsável pelo Hospital de Guarnição do Exército, mas nenhuma autoridade quis comentar a situação dos pacientes de São Gabriel da Cachoeira.

Em nota publicada no sábado (9), Governo do Amazonas informou que enviou 30 cilindros de oxigênio para o Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira “a fim de atender à demanda de pacientes com Covid-19 no município”. O texto diz que mais 50 cilindros seriam enviados no dia seguinte, domingo, 10 de maio. Os insumos foram transportados pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Além do oxigênio, o governo diz já ter enviado, anteriormente, 790 testes rápidos, em cinco remessas, e 49,7 mil Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Fora isso, a Susam informou que o município recebeu R$ 515,4 mil do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI) para serem usados no enfrentamento ao novo coronavírus.

A Amazônia Real procurou à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) para ela informar a quantidade de EPIs enviados ao Dsei Alto Rio Negro e dizer o número de profissionais com coronavírus e que estão no isolamento, mas a assessoria não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.

No dia 8 de maio, após a prefeitura de São Gabriel da Cachoeira decretar o lockdown na cidade, o Dsei Alto Rio anunciou a suspensão da entrada de profissionais da saúde nos territórios indígenas. “Reforçamos que este é um momento que pede mais união, compromisso e disposição para continuarmos garantindo assistência aos parentes indígenas aldeados. Pedimos que continuem seguindo todas as orientações sobre o isolamento obrigatório no domicílio, permanecem em quarentena até as próximas entradas!”, disse o comunicado assinado por Fátima Firmo Nascimento, chefe da Divisão de Atenção à Saúde Indígena (Diasi).

 

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