Amazônia, coronavírus e povos indígenas. Entrevista com Klemens Paffhausen, responsável por Adveniat

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18 Mai 2020

O desmatamento da Amazônia brasileira continua por interesses econômicos e políticos. Teme-se um contágio devastador entre os povos indígenas.

Povos indígenas inteiros da Amazônia estão ameaçados por um "colapso brutal" e podem ser extintos devido ao coronavírus trazido por madeireiros, mineradoras e pelas fazendas de gado, cuja presença pode desencadear uma cadeia de infecções. "A imunidade da população não é tão alta quanto em outras populações do mundo".

Isto foi afirmado em 12 de maio passado, em entrevista à Rádio Ö1 (Österreich 1), por Erwin Kräutler, de origem austríaca, mas naturalizado brasileiro, atualmente bispo emérito da diocese amazônica de Xingu. O bispo criticou abertamente a atitude anti-indígena do governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro, que, além de minimizar o perigo do coronavírus, também acredita que "a Amazônia deve estar aberta a empresas nacionais e internacionais". Para esse fim, ele pretende introduzir uma cláusula na Constituição brasileira que proíbe isso. A Igreja Católica no Brasil pediu ao Congresso para rejeitar essa emenda.

Além de Bolsonaro, as igrejas livres evangélicas também minimizam os riscos do coronavírus, segundo as quais as orações são suficientes para derrotá-lo. Mas D. Kräutler alertou contra essa atitude fundamentalista dizendo: “O vírus é um grande problema. Não se pode dizer que o bom Senhor o afastará, enquanto não fazemos absolutamente nada”.

A organização de proteção ambiental Greenpeace também alertou para uma nova lei que teria sérias consequências para a floresta amazônica. Hoje, de fato, em meio à crise do Covid 19, o Congresso Brasileiro parece disposto a aprovar a publicação online do chamado decreto MP 910: diz respeito à lei de apropriação de terras que legaliza a propriedade privada de terras públicas desmatadas e ocupadas ilegalmente antes de 2018. Milhões de hectares de terra estão em jogo.

Brasil está se tornando um foco de crise de pandemia de coronavírus. Recentemente, o Papa Francisco chamou o arcebispo de São Paulo por telefone para pedir informações.

Sobre a situação dos indígenas na Amazônia e os riscos enfrentados pelos indígenas devido ao coronavírus, a emissora da diocese de Colônia, Domradio, tornou pública a seguinte entrevista em 12 de maio, realizada por Michelle Olion e reproduzida abaixo, com o responsável pela organização de caridade Adveniat, Klemens Paffhausen.

A entrevista com Klemens Paffhausen, responsável do Adveniat, é editada por Antonio Dall'Osto, publicada por Settimana News, 16-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

No meio da floresta brasileira fica a metrópole de Manaus. Os mortos já estão sendo conservados em caixas refrigeradas porque os funcionários que tratam dos sepultamentos estão sobrecarregados, sem mencionar o sistema de saúde. Por que justamente aqui se desenvolveu um tipo de foco do Coronavírus?

Manaus ainda é a metrópole por excelência da floresta. Por isso, atrai muitos empresários que têm fábricas aqui ou vêm visitá-las. Entre outras coisas, também existem muitos empresários de países asiáticos, por exemplo da China, que possuem fábricas para montar bicicletas, motores de ciclomotor, mas também motores dos navios que navegam na região amazônica.

Também no que diz respeito à tecnologia de rádio e televisão, há grande produção aqui aproveitando um sistema tributário favorável. No entanto, fluxos migratórios da Venezuela também foram constatados recentemente. Isso significa que há uma flutuação de pessoas muito grandes.

Além disso, existem muitos que vêm do interior do país, indígenas ou pessoas que vivem ao longo dos rios da região amazônica, que vêm a Manaus para tratar frequentemente com as administrações locais, mas também para fazer compras. Tudo isso naturalmente favorece o aumento das infecções.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro sempre minimizou o perigo do coronavírus e o chamou de invenção da mídia. À luz desses dramáticos desenvolvimentos, ele ainda tem apoio popular?

O presidente Bolsonaro gosta de desempenhar o papel de provocador e, naturalmente, está sempre nas manchetes. Seu índice de popularidade está realmente diminuindo, mas atualmente estamos lidando com um cenário muito perigoso.

Deve-se ter em mente que muitas pessoas são afetadas pela crise do coronavírus no sentido de que a quarentena as priva de qualquer possibilidade de sustento.

Isso significa que muitos gostariam de continuar trabalhando ou deveriam poder fazê-lo. Eles enfrentam duas opções: morrer de coronavírus ou morrer de fome. Bolsonaro, portanto, joga a carta de colocar os desempregados contra os doentes com coronavírus. E isso ainda poderia lhe trazer consensos.

Como você acabou de dizer: muitos não podem mais ir ao trabalho e nem podem ficar em casa porque não conseguem ganhar o suficiente para viver. Mas os indígenas também estão em risco?

Os indígenas têm por trás uma longa história de sofrimento em relação ao encontro com as chamadas conquistas dos brancos. Também existem territórios no Brasil em que, no momento das conquistas, teve encontros que levaram à morte de 90% da população indígena por causa de doença para as quais não tinham defesa imunológica para combatê-las - e isso continua acontecendo hoje.

A estratégia de muitos indígenas é se afastar ainda mais, porque qualquer encontro com as pessoas das cidades ou com outros possíveis grupos possivelmente infectados podem ter consequências mortais para eles. Além disso, um tipo de quarentena ou algo semelhante não pode ser implementado nas aldeias indígenas, sem mencionar os medicamentos apropriados para a emergência.

Junto com a pandemia, outra situação se agudizou, por assim dizer. Nos últimos meses, o dobro de floresta foi desmatado na Amazônia em comparação com o ano passado. Como essas situações se relacionam?

No ano passado, ficou claro que, inclusive com o atual presidente Bolsonaro, foi promovida uma política que prevê o maior desmatamento possível. Isso significa que a floresta amazônica é considerada um recurso econômico. Trata-se de exportar madeira, mas também de criar pastos para exportar carne bovina.

No mínimo, deve-se presumir que as autoridades de vigilância não tenham sido muito eficazes em uma situação de crise. No entanto, temos a impressão de que isso é politicamente desejado, por isso devemos pensar que neste momento estejam sendo criados os pressupostos que levarão a um desmatamento ainda maior.

Provavelmente, no entanto, também olharemos para o período sucessivo à crise, onde se espera encontrar outras saídas comerciais, principalmente no que se refere à exportação de carne para países asiáticos e também à exportação de soja. Estes são os principais problemas que levam ao desmatamento.

Como obra de caridade, como vocês atualmente sustentam os católicos brasileiros?

Estamos em excelente diálogo com a Igreja da América Latina, que já tem uma atenção especial pelos pobres e, é claro, estamos com uma grande demanda agora como obra de caridade. Até agora, o "Adveniat" disponibilizou 2,5 milhões de euros como ajuda imediata e de emergência e oferece suporte de várias maneiras - em particular com cestas de alimentos, medicamentos e itens de higiene.

Especialmente em Manaus, estamos em contato com o arcebispo. Sabemos que um grande problema é que a Igreja Católica local não possui hospitais próprios e, portanto, não pode agir de modo eficaz no sistema de saúde.

É diferente em outras dioceses, por exemplo, em Óbidos, onde o "Adveniat" pode manter dois hospitais e também possui um navio-hospital que pode - de acordo com as possibilidades - viajar para zonas externas, com uma equipe de médicos.

Mas a grande questão ainda é: como alimentar as pessoas. A fome está se tornando um problema cada vez mais sério. E aqui "Adveniat" também tenta liberar fundos orçamentários que seriam necessários para outros projetos.

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