“Reparar o mundo significa tomar as coisas assim como são”. Entrevista com Corine Pelluchon

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28 Abril 2020

Um urso passeia vaidoso em Monterrey, uma água-viva se desloca elegante pelos canais de Veneza, golfinhos e baleias fazem piruetas em praias antes lotadas como Cancun. No litoral argentino, peixes se divertem em grandes margens, longe da surpresa das redes de pesca. Focas, leões, cangurus, macacos, antas, cervos e cabras colonizam as cidades desertas.

O coronavírus provocou uma anomalia na – antes – indestrutível ordem social, uma ruptura na cadeia de hierarquias e estruturas políticas e econômicas que ardem para retornar ao estágio anterior.

“Os animais voltam a ocupar o seu lugar. Isso ressalta o fato de que, em geral, não lhes damos lugar, tanto nas cidades como em nossas vidas. Não permitimos que existam, fragmentamos, destruímos seu habitat e, evidentemente, quando os humanos se retiram, possuem mais espaço”.

Comovida, é assim que a filósofa francesa Corine Pelluchon define essa situação, confinada em sua casa de campo em Borgonha, a uma hora e meia de trem-bala de Paris. Sua obra abarca os direitos e os problemas dos animais, a saúde ambiental e a vulnerabilidade humana. É autora de Manifiesto animalista (disponível em eBook em espanhol) e, em maio, irá publicar seu novo livro Réparons le monde. Humaines, animaux, nature ( ed. Rivages/Poche).

Pelluchon é especialista em filosofia política e ética aplicada (ambiental, animal e médica). Tornou-se uma referência obrigatória na Europa para entender o que está acontecendo do ponto de vista ecológico e sobre a convivência dos humanos com a natureza.

Em 2015, esteve em Buenos Aires na primeira edição de “A Noite da Filosofia” e sua presença foi muito comentada por causa do impacto de sua conferência sobre os direitos dos animais, intitulada “Ecologia e existência”.

Nesta entrevista, realizada por videochamada, a professora da Universidade Gustave Eiffel relaciona a pandemia atual com a crise ecológica, teme ressurgimentos nacionalistas e adverte sobre a vulnerabilidade humana.

A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín-Revista Ñ, 24-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que de mais notável esta pandemia mundial evidenciou?

Fundamentalmente, nossa vulnerabilidade. Também o fato de que estejamos expostos a agentes infecciosos e que o humano, apesar de sua técnica, sua inteligência e seu engenho, é extremamente frágil. Demonstra-se que as pessoas não podem dominar outros seres viventes, explorá-los como queiram, sem nunca pagar as consequências. Todas as pessoas, na medida em que temem por sua saúde e a de seus entes queridos, tomam consciência desta vulnerabilidade comum, porque este vírus afeta os ricos, os pobres, as pessoas conhecidas, as desconhecidas.

É verdade que para os idosos isso é mais difícil, que quando você é pobre vive pior a quarentena e que as consequências econômicas da pandemia são ainda piores. Coloca em evidência que nos países ricos há mais meios sanitários para tratar as pessoas, ao passo que na África não. Não sei o que acontecerá com os refugiados, as desigualdades cresceram muito, mas o vírus afeta todo mundo. Os humanos de nossa época esqueceram coisas essenciais como a fragilidade, a mortalidade, a vulnerabilidade, a comunidade de destino que todos temos. As pessoas estão ligadas aos animais, o vírus atravessa as fronteiras da espécie e o humano é muito mais frágil em relação ao vírus que os próprios animais.

Como a relação com o mundo animal foi se transformando até chegar a essa situação catastrófica?

O confinamento em que milhares de milhões de humanos estão, faz com que as pessoas tomem consciência de que a privação do espaço e da liberdade é um sofrimento. Os animais que, às vezes, estão confinados toda a vida em zoológicos e nos circos, arrancados de seus habitats naturais, estão impedidos de viver com seus congêneres, nós os isolamos, contam com um sofrimento terrível que não dura dois meses, mas trinta anos. Há dois hipopótamos na França, elefantes, grandes felinos, etc. Penso que é necessário tomar consciência da privação do espaço e da liberdade, do sofrimento para todos os seres viventes, e para eles é pior, pois não sabem o porquê se comete a injustiça de tê-los em circos.

A pandemia atual está ligada a uma interação aberrante com um animal selvagem, que é o hóspede do vírus. Que atravessa as fronteiras e as espécies. É o famoso pangolim (mamífero com uma armadura composta de escamas) e os morcegos que, provavelmente, estão na origem deste vírus. Muitos especialistas, desde ao menos os anos 1980, nos alertam que a destruição do habitat dos animais selvagens, faz com que se aproximem das cidades, de nós, e alguns deles, como foi o caso dos macacos, há alguns anos, e os morcegos podem ser hóspedes de vírus, que atravessam as fronteiras das espécies e nos expõem a crises sanitárias importantes.

Esta pandemia que nos surpreende e alcança a todos, é a consequência da interação aberrante do humano com os animais, em todo caso os selvagens. O que fazemos aos animais selvagens se volta contra nós, evidentemente, e as consequências são desastrosas. E superam tudo o que havíamos imaginado. Se continuarmos destruindo o habitat dos animais selvagens e destruindo o equilíbrio dos ecossistemas, iremos nos expor, sem dúvida, a outras epidemias.

E não sou eu quem diz isso, todo o mundo sabe. Sem mencionar as consequências da criação intensiva, que é uma das causas de certas gripes aviárias, da gripe suína, que no momento não afeta mais que aos animais, mas nunca se sabe, pode acontecer. E, por outro lado, a antibiorresistência, ou seja, a resistência aos antibióticos, e o fato de que se confere antibióticos aos animais para prevenir doenças infecciosas, ligadas ao confinamento em granjas industriais. A antibiorresistência conduz a milhares de mortes no mundo. Somos responsáveis por uma situação, ainda que não sejamos culpados. Ninguém quis que isso acontecesse, mas também somos responsáveis.

Há razões de fundo. Como a mudança climática incidiu nesse quadro?

Somos responsáveis em razão do enorme uso de energia, do crescimento demográfico, da erosão, do descuido com a biodiversidade, da mudança de regime de chuvas, enfim, da crise climática que é o maior perigo de nossa época. A crise sanitária do coronavírus e a crise climática não são a mesma coisa, mas há vínculos. A poluição, a degradação de ecossistemas, o fato de que a água seja ruim, de que faça muito calor, o uso de pesticidas, tudo isso gera doenças, sofrimentos e crises sanitárias que, por sua vez, voltam a gerar mais doenças, deslocamentos de populações, etc. Muita gente adoece e morre por culpa da poluição. Tudo isso se torna um problema de saúde pública.

O segundo vínculo são as interações aberrantes com outros seres viventes. Por exemplo, desmatam, esgotam os recursos que privam os animais selvagens de viver em seu habitat, passam a ser obrigados a se aproximar de nós, e nos transferem o vírus. Foi assim que aconteceu, nos anos 1990, com a SARS. Retirar o pangolim de seu habitat, exportá-lo e vendê-lo em mercados como os de Wuhan, onde há também morcegos que não tem nada que estar ali e que são portadores do vírus, nos expõe a estas doenças.

Temos a responsabilidade humana no modelo de desenvolvimento, de consumo, de florestamento, tudo isso tem consequências ecológicas que, por sua vez, tem consequência sanitárias. Aí está o vínculo, mas é, ao mesmo tempo, diferente. O antropoceno gera efeitos globais, ligados ao peso demográfico, ao tráfego aéreo, ao intercâmbio de matérias e incide na atmosfera. E tudo isto mexe menos com a consciência da população, porque “o descongelamento da geleira é algo distante”, por exemplo. Mas a grande diferença é que a crise sanitária mexe com cada um em seu próprio corpo. A relação não é abstrata, não é o medo de que a humanidade pereça por causa do antropoceno, é o medo individual de se contaminar. Esse é um modo importante para mudar as mentalidades.

Que antecedentes importantes encontra acerca de grandes medos planetários?

Hiroshima e Nagasaki nos advertiram do possível apocalipse, de que a bomba atômica fosse a possibilidade de extinção do mundo e, no entanto, os humanos vivem assim e continuam vivendo assim, porque não nos toca. As pessoas sabem que há um perigo, um risco de apocalipse ligado à bomba atômica, ao aquecimento global. Mas continuam consumindo carne sem parar. Os governantes continuam fazendo políticas produtivistas, extrativistas. Ao passo que agora, esse pequeno vírus faz com que cada um tenha medo em seu próprio corpo, vê que afeta sua cidade, seu povo e, além disso, arruína o país.

Dizia-se que lutar contra a mudança climática requeria muito dinheiro e agora vemos que era muito mais barato que o que estamos vendo agora, que irá implicar crises econômicas e a ruína de um montão de empresas. Nem sequer os ricos poderão viver duas vezes. Estamos vendo isso em todos os continentes. A humanidade irá enfrentar um duro golpe econômico, mas se recuperará. Se continuarmos agindo assim, teremos um montão de crises, climáticas, sanitárias, etc.

Como e onde estão aqueles que poderiam liderar a mudança dessa situação?

A saúde ambiental faz com que a consciência se converta em consciência encarnada, incorporada. Para preencher o espaço entre a teoria e a prática, entre a consciência e a ação, são necessários os afetos. O medo é um afeto, também o medo pela própria vida. Tudo isso faz com que se converta em algo corporal, encarnado, e pode nos estimular a mudar as próprias representações, afetos e, espero, comportamentos. Em nível individual, nota-se que há medidas políticas tomadas por cada um dos países e, depois, em nível europeu e em nível mundial.

Essa pandemia pode ser um disparador, trazer uma tomada de consciência. Mas sou muito prudente, porque depois de Auschwitz, Hiroshima, Fukushima, a humanidade não mudou muito. E os lobbies são muito fortes para seguir nesse caminho louco. Há vinte anos, falo da vulnerabilidade do vínculo entre o humano e a natureza, da transição dos modelos de desenvolvimento mais justos e ecologicamente sustentáveis. Isso, para conseguir que a transição ecológica seja um eixo político e inclusive um projeto de emancipação. Não um governo do medo, mas um projeto que faça com que tenhamos outros desejos, mais autônomos, para sair de modelos de consumo que o mercado nos impõe e que não correspondem. Para mim, há quatro pilares na transição ecológica.

Quais são esses pilares?

Um, a proteção do meio ambiente, a luta contra o aquecimento global, a proteção dos ecossistemas. Dois, a justiça social, as condições de trabalho, mas também a redistribuição do impacto da poluição, isto é, a relação Norte-Sul. São os mais ricos que poluem, e os países do sul a sofrem, como a África. Três, a saúde. Não há crise climática, de aumento de temperatura, secas ou inundações, que não provoque problemas de saúde. E, por fim, a relação com os animais. As espécies selvagens, as espécies domésticas. Justamente a criação intensiva que ocorre em países como o seu, gera uma catástrofe para os animais, desmatamentos, dado que muitas vezes o gado europeu e americano é alimentado com soja transgênica e para plantar, desmata-se, etc.

Tudo isso está ligado à transição ecológica, a outro modelo de desenvolvimento que articule esses quatro eixos de uma maneira não ideológica, esse é o futuro. Não quer dizer que deve ser imposto de um dia para o outro, mas é preciso transformar esse modelo de consumo e os modos de produção.

Que indústrias têm maior responsabilidade nesse cenário?

Na França, por exemplo, a carne que vendem nos supermercados, faz oito paradas antes de chegar ao prato das pessoas. Seria melhor que a produção fosse local, que os animais não fossem mortos em outro país. Na Alemanha, os animais são mortos em condições abomináveis. É delirante.

A mudança é um discurso que não é ideológico, não é violento, a transição se adapta ao ambiente geográfico, sociocultural, à ecologia. É a terra, não são somente ecossistemas, árvores, não, não se pode separar o homem dos ecossistemas, e os humanos são todos diferentes, têm culturas diferentes.

É preciso sermos muito respeitosos com isso, mas há um horizonte que é preciso vislumbrar. Não é necessário trocar de carro todos os anos. Há um certo prestígio no consumo, mas quando há mais convivência e camaradagem, há menos necessidade de consumir. Acredito que cada vez há mais pessoas profundamente sensíveis a esse discurso que exige que tenhamos confiança.

Tendo em conta o título de seu novo livro, como fazemos para “reparar o mundo”?

Desconfio de todos os que falam de uma mudança e que não se baseiam em nenhuma tradição, em nenhum costume, nenhum hábito. Mas também desconfio da força dos lobbies, que farão tudo o que for possível para que, assim que a pandemia passar, tudo volte a ser como antes. É preciso encontrar um discurso que seja pragmático e generoso.

Ninguém tem uma visão total, ninguém irá buscar a verdade do mundo, e reparar quer dizer que há algo que foi rompido, que estamos no caos e na confusão. Que é necessário partir das mesmas coisas que tínhamos e que se romperam, para repará-las assim como na vida, como quando estamos deprimidos. Ou quando há um caos, é preciso observar onde se apoiar, quando decidir recolher os pedaços de sua vida, um por um, e fixar no que podemos guardar e no que jogamos e como jogamos.

Sempre me pareceu que a palavra reparação é, ao mesmo tempo, grande e modesta. Reparar o mundo significa tomar as coisas assim como são. Não são muito boas, estão espalhadas, mas as tomamos uma por uma para ver o que guardamos e o que jogamos, para onde vamos e o que fazer. No prólogo de meu livro, digo que até mesmo no contexto de crises sanitárias e ecológicas gravíssimas, seria necessário reconstruir e se localizar em um estado mental que nos permita reconstruir. Isso implica ter ferramentas teóricas e método. Espero que essa crise faça com que escutemos as pessoas moderadas e sensatas.

E como se vive politicamente essa situação?

O momento que vivemos é muito difícil, padecemos crise sanitária, crise política. Na França, temos os protestos dos Coletes Amarelos, há indícios do retorno dos nacionalismos em toda a Europa. A crise econômica que virá será extremamente dura. Então, é preciso estarmos atentos aos tiranos que se aproveitam da situação para fomentar um nacionalismo agressivo, levar as pessoas ao ódio, etc.

É preciso desconfiar dos que querem trazer sua própria visão de mundo. Em uma sociedade pluralista, é preciso aprender a cooperar, a viver juntos com pessoas muito diferentes. Tudo isso exige muita sabedoria, prudência e uma visão do mundo equilibrada.

Eu sou vegana, mas não vou impor o veganismo aos outros, para ter melhoras e conseguir a transição ecológica. Mas, infelizmente, escuta-se muitas vozes narcisistas e violentas, dogmáticas, e para mim é uma verdadeira preocupação. Tenho muito medo que depois da pandemia ainda continue existindo um concerto de egos, gente narcisista que não quer o bem. Por isso é que gosto da ideia de reparar o mundo.

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