“Voltar à normalidade que vivíamos é perigoso”, afirma Franco Berardi

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27 Abril 2020

Nem a vontade, nem decisões políticas, nem intervenções financeiras. Sair da crise global causada pelo coronavírus depende da imaginação, do poder de criar uma nova realidade distante da “perigosa” normalidade que vivíamos e que nos levou à “convulsão” do outono de 2019, segundo o filósofo e escritor italiano Franco Berardi, “Bifo”.

A reportagem é de Pilar Tomás, publicada por La Vanguardia, 24-04-2020. A tradução é do Cepat.

Berardi, que nesta semana participou de uma conferência organizada pela Escola de Humanidades e a Fundação La Caixa, explica que a COVID-19 colocou a sociedade em um “limiar”, um lugar de trânsito que permite duas opções: “Passar da luz enferma de 2019 à obscuridade completa ou, então, criar as condições para transitar para uma nova compreensão”.

Não obstante, despojar-se da sombra alargada e “cinza” dos últimos meses não é simples, e menos em uma situação de pandemia que provocou estragos em escala mundial: “Muitos esperam voltar à normalidade, mas o problema é que esta normalidade nos levou aos incêndios da Austrália, ao coronavírus e à destruição do sistema de saúde público”.

Motivos de peso para não retornar “ao mundo que vivemos no passado”, nas palavras de Berardi, que defende começar a imaginar, “fora das categorias da normalidade”, um novo modelo comunitário que redefina a relação com a economia.

“Hoje, o problema não se resume em matemática financeira - aponta o filósofo -, mas, sim, que saímos da dimensão monetária e estamos voltando à dimensão da utilidade, suspensa até agora pelo pensamento econômico moderno e neoliberal”.

O útil emergiu, deixando-se entrever nas necessidades da população mundial, centradas hoje em “máscaras, ventiladores e unidades de terapia intensivas”, e protagonizará a nova forma de organização humana que nasça do “limiar” atual, prevê Berardi.

Se antes o “panorama moderno” era regido sob uma lógica de “expansão”, agora, “a psique ocidental e capitalista” precisa aceitar que a visão do mundo mudou: “Passamos do horizonte da expansão para o horizonte da extinção possível, provável, da raça humana”.

“Para além do limiar - reflete -, vemos uma medicalização generalizada e permanente porque sabemos que o vírus é apenas um dos elementos da extinção: há incêndios, geleiras que se afundam...”.

Parafraseando William Burroughs, autor de “Blade Runner” (1979), cujo nome Ridley Scott assumiu para o seu célebre filme, Berardi classifica o coronavírus como “agente de mutação”, capaz de causar um efeito similar ao do HIV, cujo impacto transformou a percepção das relações sociais e preparou a sociedade para a “virtualização”.

No momento, a esperança com a COVID-19 é que a “mutação” ajude a deixar para trás “a explosão de raiva e o sentimento de desespero” que se apoderou do mundo, em fins do ano passado.

“De Santiago do Chile ao Congo, de Barcelona a Paris, de Beirute a Quito”, a agitação social que dezenas de cidades viveram, nos últimos meses, simboliza uma sensação “de estar sem saída” que, segundo Berardi, pode ser vista como pano de fundo em produções como “Parasita”, “Coringa”, “Você não estava aqui” ou “Cafarnaum”.

Filmes que sintetizam “o que era o mundo” antes da pandemia, provocada por um vírus que marcará o futuro a longo prazo, na visão do filósofo, e que suporá uma nova oportunidade para “compreender” os outros em um contexto em que a “continuidade do capitalismo estará rompida de maneira irreversível”.

Enquanto isso, Berardi propõe “se tornar amigo do caos”, por meio da arte filosófica e a poesia, e encontrar nele “possibilidades que nos permitam viver felizes”.

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