“A linguagem acabou desencadeando em violência”. Entrevista com Franco Berardi ‘Bifo’

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13 Fevereiro 2020

Em 2009, Franco Berardi "Bifo" celebrou os cem anos do Manifesto Futurista desmantelando-o. O aceleracionismo com o qual o século XX havia nos acostumado, com o consequente triunfo de todos os postulados neoliberais (consumismo, individualismo, violência, lacuna social), não é mais possível sem o caos. O trabalho do pensador marxista se concentra em compreender, através da filosofia estética, como as projeções do futuro dos corpos precários mudaram.

Na semana passada, Bifo passou pela Cátedra de Estudos Artísticos do Institut Valencià d’Art Modern - IVAM para desenvolver as ideias de um trabalho posterior, Fenomenología del fin (Caja Negra, 2017), um dos escritos essenciais do pensamento contemporâneo. Horas antes, respondeu às perguntas de Culturplaza.

A entrevista é de Álvaro G. Devís, publicada por Alicante Plaza, 10-02-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Qual é o peso da cultura na projeção que fazemos sobre o nosso futuro?

O problema é que a palavra cultura tem vários sentidos, ao menos dois. De fato, os alemães utilizam duas palavras diferentes para se referir ao termo latino cultura: bildung, que fala da autonomia, da ação cultural, da cultura como uma escolha de valores, de projetos, de possibilidades; kultur, que se refere ao que não nos pertence de maneira voluntária, aquilo que nos forma e determina. A relação entre bildung e kultur é o problema crucial da liberdade humana e a possibilidade de autonomia e transformação da cultura.

Acredito que quanto mais a dimensão tecnológica cresce dentro da nossa imaginação, como consequência, nossa liberdade se reduz. Vivemos uma época de extremo retrocesso da bildung, da possibilidade de escolha cultural. É a forma de totalitarismo definitiva, na qual não somos obrigados a fazer algo porque acreditamos que o escolhemos porque pertence a nossa cultura. Sei que é uma resposta amarga para sua pergunta, mas ao mesmo tempo digo a mim mesmo: se nos resta esse pequeno espaço de criação, vamos pensar em como torná-lo o melhor possível.

Nos produtos culturais mais populares, como o cinema e a televisão, há um discurso hegemonicamente distópico. Como conquistar esse espaço midiático a partir da esperança?

A palavra esperança não me diz nada. Me diz algo a palavra possibilidade, caso aceite. A distopia que há vinte ou quarenta anos era uma parte marginal da produção cultural, da narrativa coletiva, hoje, invadiu quase todos os espaços da comunicação. Mas podemos esperar da esperança? A distopia não é um efeito mal-intencionado, não é produto do poder, pelo contrário. A comunicação publicitária nada mais é do que a promessa de uma realidade não existente. A verdadeira questão não é a de relacionar a distopia com a falta de esperança, mas, sim, aprofundar-se no interior da própria distopia e tentar buscar uma saída dela.

Existem gêneros ou disciplinas artísticas que, de modo natural, desenvolvem uma maior consciência de classe? Mark Fisher falava da eletrônica como um reduto cultural alheio ao realismo capitalista, e Jeff Mills lamentava, em julho passado, que o ‘techno’ tenha se acomodado e tornado apolítico.

A expressão consciência de classe necessitaria de uma precisão. Em absoluto, eu não a rejeito, mas se você me pergunta: onde está? Não a vejo em lugar algum, porque aqueles que são explorados, vivem uma situação de precariedade que os impede de se reconhecerem como classe. Dessa maneira, é difícil especificar onde pode estar concentrada.

Um exemplo disso é o último filme de Ken Loach, Sorry, we missed you. Parece-me uma obra extraordinária de análise, compreensão e captura de todos os elementos psíquicos, sociais, de linguagem e políticos da condição presente. É possível falar sobre consciência de classe no filme? Justamente, o que Loach diz com o fim de Ricky é que desapareceu, que o desespero e a impotência moral está se impondo em nossos dias.

Nesse debate sobre as projeções do futuro, onde fica o existencialismo? Atualmente, esse termo é entendido mais como um sentimento produto da melancolia do que como uma corrente filosófica em si.

Se retiramos essa leitura superficial que é dada hoje ao existencialismo, se o entendemos como um termo filosófico, permanece tão vigente como sempre. O existencialismo continua significando que a vida humana, as relações sociais não se referem a qualquer essencialidade, que não há nada diante da relação entre você e eu. Não nos conhecemos, não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos, não sabemos o que podemos construir juntos, sabemos o que nossa dimensão existencial pode produzir ou não.

Mas como você diz, agora se entende esse caráter melancólico e deprimido. E por quê? Quando você esquece todas as premissas essencialistas (o dever, a pátria, o socialismo, a verdade de não sei o quê), quando chega à realidade existencial, percebe o fato de que não há, em nossa capacidade comunicativa, em nosso interior, a potência. Não é um problema em relação à verdade, é um problema do que podemos ... A forma social do trabalho, da linguagem e da comunicação, hoje, produz impotência e, portanto, depressão.

Duas perguntas a partir do ‘Manifesto Pós-Futurista’, que você criou em 2009, e que podem permitir uma leitura mais otimista sobre o futuro. Nesse texto, adianta a necessidade de feminizar a sociedade e, nos últimos anos, o feminismo se tornou o movimento social mais importante do mundo. Pode ser entendido como a ponta de lança de uma alternativa real às estruturas neoliberais?

Ainda que eu me sinta lisonjeado com o impacto que o Manifesto Pós-Futurista teve, acredito que o ciclo terminou em 2011 com a explosão do Movimento Occupy, que foi a expressão de um desejo e uma possibilidade. O desejo dos corpos de sair da dimensão opressiva do trabalho assalariado e da precariedade trabalhista e de encontrar outros corpos em uma dimensão que seja a da gratuidade, do erotismo, do prazer, da cortesia, de uma linguagem sem salário, não competitiva. E o que aconteceu? Uma mobilização histórica fracassou estrepitosamente porque não sabemos sair do enfrentamento político. Esse é o problema.

Após o movimento Occupy, houve um fortalecimento da guerra, do fascismo, do capitalismo e, portanto, uma desagregação dos corpos, porque esse é o efeito da precariedade. Sendo assim, o que escrevi no Manifesto Pós-Futurista continua sendo a ideia de uma vida feliz que é possível, que está em nossa possibilidade, mas entre a possibilidade e a ação falta uma potência.

Por isso mesmo, perguntava se o feminismo, que está inclusive rompendo barreiras ideológicas, poderia ser um convite ao otimismo.

O movimento feminista global se manifesta de duas maneiras diferentes. Um é o #NiUnaMenos, e é a expressão de um desejo oprimido e violentado, mas que permanece como desejo. São corpos que querem sair da opressão e da violência. A outra maneira é o #MeToo, que me parece a negação da autonomia dos corpos, a redução protestante, puritana e profundamente branca do corpo à lei e à verdade. Qual dos dois movimentos pode se tornar mais poderoso? Naturalmente, ou ao menos espero, o #NiUnaMenos, mas precisa - uma vez – da potência. A potência feminina - diferente da potência masculina - que não é competitiva, mas que não consegue se levantar como manifestação majoritária do movimento.

Sou pessimista, nesse sentido, ainda que, sim, acredito que a energia latina (ou barroca) do movimento #NiUnaMenos é a única subjetividade que pode reproduzir uma potência majoritária na sociedade, mas isso continua sendo uma forma puramente defensiva, porque a força majoritária hoje não é o erotismo, é a violência. Não há desejo, há depressão. #MeToo é um efeito da depressão.

Com o auge da internet, foi criado uma espécie de ciberestado, com uma economia e um marco moral próprios. Como é possível regulamentar? É necessário, ou por acaso, possível?

O cerne da questão é: a internet pode ser regulamentada? Não acredito. A ideia de que o ciberespaço possa ser administrado por uma entidade territorial ou jurídica é uma ilusão. Você acredita que o Google pertence aos Estados Unidos? Não! São os Estados Unidos que pertencem ao Google. A relação entre lei, regulamentação, vontade e expansão autônoma da linguagem se subverteu totalmente, graças à força do trabalho cognitivo, graças à intelectualização do trabalho coletivo, mas isso também significa que não podemos nos iludir com um governo político na rede. A rede só pode ser governada pela consciência daqueles que a produz, dos trabalhadores cognitivos.

Filosoficamente falando, a relação entre vontade e processo mudou a partir da Modernidade. A Modernidade é caracterizada por um caráter particular, novo (e não eterno), da vontade. A vontade podia governar a linguagem e a sociedade. Maquiavel nos explica que o poder político (o Príncipe, como ele o chama) é um homem que pode gerir a Fortuna, que é mulher e caprichosa. Isso não existe mais. O homem forte não tem mais nenhuma potência, porque a realidade da linguagem se desencadeou completamente. Isso é bom em parte, porque significa o fim da potência masculina no poder, mas há um problema de autogoverno nessa potência da linguagem: segue sem ser feminina. Isso significa que a linguagem acabou desencadeando em violência e se tornou um tudo contra tudo.

Então, qualquer tentativa de criar uma rede que desconstrua uma sociedade injusta será estéril? Temos que começar a nos resignar diante de qualquer esperança de mudança trazida pela internet, pelo poder atual das corporações?

Neste momento, a rede, como a entendemos nos anos 1980 e 1990, desapareceu completamente. Não há uma rede. Há enormes corporações globais que organizam hierarquicamente, a partir da produção (não da política), o fluxo da linguagem coletiva. Não creio que iremos encontrar a solução disso na política. Penso que tudo é um problema de autorregulamentação dos fluxos de desejo. Em outras palavras, é o corpo que deve se reinserir no interior do fluxo linguístico.

#NiUnaMenos é isso: a capacidade de um corpo violado e oprimido de reafirmar sua força de desejo, tentando difundi-la na dimensão pública. Os efeitos ainda não foram capazes de subverter as relações de poder, porque quando as mil mulheres terminam de cantar juntas “O estuprador é você”, voltam sozinhas para suas casas, onde reside a impotência, a falta de potência coletiva. Esse é o problema: não somos capazes de criar uma força regulatória da potência do desejo e vamos pedir ao Estado para que crie leis, mas o Estado também é impotente. A potência reside apenas no corpo coletivo, e este se encontra, hoje, em uma situação de precariedade que o incapacita.

Embora as grandes corporações lucrem com o trabalho criativo das pessoas que compartilham sua obra na internet, a possibilidade de que qualquer pessoa, profissional ou não, crie artisticamente (o Do It Yourself) não cumpriria isso que apresentava no ‘Manifesto Pós-Futurista’: a união entre a engenharia e a poética?

Claro que sim, mas fazem isso de uma maneira totalmente abstrata. O problema não é o que eu posso, abstratamente, fazer na dimensão do ciberespaço. O problema é o que posso fazer nisso que implique, que modifique, que activice o corpo coletivo. O verdadeiro problema não está nas ferramentas que temos, mas nos corpos. O que os corpos podem fazer hoje? Nada. E podemos fazer tudo em uma dimensão totalmente abstrata. Não sou contra o ciberespaço, acredito que a riqueza reside em sua integração com os corpos, mas se, como o capitalismo está conseguindo, separamos essas duas dimensões, se gera essa impotência dos corpos e a abstração frustrante. Podemos gozar muitíssimo no abstrato, mas isso não produz absolutamente nada para nossas vidas.

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