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10 Setembro 2019

Celulares e redes sociais acompanham todos os dias milhares de milhões de pessoas, que tiveram suas vidas mudadas. Empresas e cientistas trabalham para isso com técnicas sofisticadas que exploram as características da mente, mas, nos últimos anos, há certa reação social a esta tecnificação. Alguns pioneiros responsáveis por essas mudanças se perguntam, hoje, se seu trabalho teve efeitos tão positivos como acreditavam.

A reportagem é de Fèlix Badia, publicada por Magazine, 08-09-2019. A tradução é do Cepat.

Quando, em 2009, Chris Wetherell desenvolveu o botão do retuite, pensou que, com ele, o Twitter poderia se tornar uma ferramenta útil para que comunidades pouco representadas na internet e nas então jovens redes sociais tivessem mais projeção pública. Graças aos retuites, uma opinião ou informação relevante poderia se tornar de forma instantânea uma reação em cadeia, que chegaria a milhões de pessoas, sem hierarquias. Mas, dez anos depois, o Twitter mostrou o bom, mas também o mau e o pior da natureza humana. Trolls – humanos ou não -, haters e outros tipos tóxicos criaram reações em cadeia, sim, mas de opiniões totalitárias, mentiras, ódio e insultos. O botão do retuite teve muito a ver. Foi “como oferecer uma arma carregada a uma criança de quatro anos”, admitia Wetherell, ao Buzzfeed, em inícios do verão.

O caso de Wetherell poderia ser só uma anedota, se não fosse porque nos últimos dois anos, no setor tecnológico, surgiram testemunhos autocríticos – ou caso prefiram, arrependidos – de desenvolvedores, engenheiros e empresários, que elevam a categoria. Seu argumento é que a combinação de redes sociais, celulares e aplicativos está influenciando muito nos comportamentos das pessoas, sem que estas percebam, porque seus programadores recorrem às fontes mais primárias da mente humana e, sobretudo, às suas fragilidades. ‘Nossas mentes podem ser sequestradas”, afirma Justin Rosenstein, um ex-engenheiro do Facebook.

Rosenstein, hoje executivo de companhias tecnológicas, tem em sua folha de serviços ser o pai do célebre like do Facebook, a pedra angular sobre a qual foram edificadas as redes sociais e que seu criador qualifica hoje como “uma vibrada de pseudoprazer”. O autor de uma fotografia ou de um comentário no Facebook (ou no Twitter, Instagram ou qualquer rede social) reage a cada like com uma descarga de dopamina, um neurotransmissor relacionado ao prazer ou a motivação. Cada um desses likes provoca um pequeno lampejo agradável em nosso cérebro, que é difícil resistir, de modo que para muita gente se torna a principal motivação para continuar postando conteúdo nestas redes. Esse mecanismo é explorado a fundo pelas empresas do Vale do Silício.

Para Sean Parker, presidente do Facebook em suas origens e um de seus primeiros investidores, esta engrenagem mais que uma característica do cérebro é, na realidade, uma fragilidade. Parker, que, por certo, tornou-se bilionário graças ao investimento na maior das redes sociais, criticou publicamente o Facebook, porque, explica, seus fundadores sabiam que estavam criando algo viciante. “O processo que conduziu à construção destes aplicativos era: ‘Como podemos consumir o máximo possível de seu tempo e de sua atenção consciente?’. Isso quer dizer que precisamos te dar uma pequena dose de dopamina de vez em quando, porque alguém gostou ou comentou uma foto sua ou a postou seja lá o que for”. Isso equivalia a explorar “uma vulnerabilidade na psicologia humana”. “Não sei se [então] realmente entendia as consequências” de tudo aquilo, mas esta rede “muda literalmente nossa relação com a sociedade, com cada um. Só Deus sabe o que está fazendo com os cérebros de nossos filhos”, refletia.

Por isso, tanto ele como o próprio Rosenstein se distanciaram dela. Este último decidiu limitar seu uso das redes sociais. Ele mesmo explicava ao jornal The Guardian, há algum tempo, que além de limitar seu uso do Facebook, instruiu a um assistente para que lhe administrasse um sistema de controle parental, em um telefone recém-adquirido, que impedisse a instalação de alguns aplicativos. Outra integrante da mesma equipe na empresa de Mark Zuckerberg, Leah Pearlman, que hoje desenvolve sua atividade em um campo muito distante como a ilustração, utiliza filtros em seu computador que evitam que utilize esta rede social e delegou para outras pessoas a gestão diária de sua conta.

Outro que tornou possível aquele gigante tecnológico, em seus inícios, foi o investidor Robert McNamee, que hoje renega as práticas dos gigantes da internet. McNamee publicou, no início do ano, um livro-míssil contra seu antigo sócio Zuckerberg: Zucked. Waking up to the Facebook Catastrophe (Zucked, despertando da catástrofe do Facebook), no qual acusa a rede de ser uma mistura “de capitalismo desregulamentado, tecnologia viciante e valores autoritários”. McNamee acusa empresas como o próprio Facebook, Google e Amazon de gerarem um coquetel de notificações constantes e técnicas de propaganda para explorar o vício dos usuários e está entre os que propuseram regulamentar suas atividades, assim como acontece com o tabaco e o álcool.

O que os programadores das redes sociais, aplicativos e videogames buscam? Basicamente, captar a atenção dos usuários e mantê-los engajados durante o máximo de tempo possível. É a economia da atenção, conceito no qual alguns dos modelos de negócio mais exitosos na rede se baseiam. A ideia é oferecer ao usuário um serviço gratuito, mas que perceba como muito útil e que lhe mantenha conectado, quanto mais melhor. Em troca, o usuário ficará exposto de forma intensiva a anúncios. É o modelo, por exemplo, do Facebook, empresa para a qual a publicidade representou 98% dos ingressos no segundo trimestre deste ano. O modelo seria perfeito se os dias tivessem horas infinitas, mas o tempo dos humanos é limitado.

O cerne da questão é, pois, como agir com esse bem escasso, e como guiar o comportamento do usuário para que o tempo que passar conectado seja ainda maior. Para isso, as empresas tecnológicas recorrem a técnicas baseadas nos trabalhos de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). Este psicólogo comportamental acreditava pouco no livre-arbítrio e defendia, ao contrário, que o comportamento do indivíduo responde sobretudo a fatores ambientais. A adequada modificação desses fatores pode mudar também o comportamento.

Nos anos 1930, fechou em uma caixa (a tristemente célebre caixa de Skinner) um rato faminto. Em uma das paredes, uma alavanca permitia cair alimento e o rato logo viu que toda vez que executava esta ação, recebia a recompensa. O cientista conseguiu modelar a conduta do indivíduo através da aprendizagem, e uma vez compreendido isto – no fundo, era a mesma coisa se era o caso de um rato ou de um humano –, caso fosse projetada a caixa adequada, seria possível induzir, dentro de alguns limites, o comportamento desejado.

Em fins dos anos 1990, outro psicólogo, BJ Fogg, levou esta tese um passo além. A caixa não tinha motivo para ser física, mas poderia ser um computador ou um celular. Mais uma vez, se fossem introduzidos os estímulos adequados, seria possível guiar a conduta do usuário. Desse modo, nasceu a captologia, que posteriormente deu lugar a outra técnica, também criada por Fogg, chamada de desenho do comportamento, cujo objetivo é aplicar esses conhecimentos aos negócios. Chegados a este ponto, talvez seja necessário destacar uma obviedade: efetivamente, você carrega no bolso, todos os dias, a caixa de Skinner, ainda que sob o nome de telefone inteligente.

Fogg centrou grande parte de suas pesquisas em como conseguir fazer com que a interface de aplicativos, videogames, celulares, computadores e webs condicione a atitude do usuário final e seus ensinamentos se estenderam e se desenvolveram por todo o setor tecnológico. As páginas webs que tentam nos prender para que compremos, as mensagens que reivindicam uma resposta urgente, os aplicativos que concentram nossa atenção... tudo isso se deve muito a este cientista, que no Vale do Silício é conhecido como o “criador de milionários”. No entanto, em certa ocasião, ele demonstrou sua preocupação em relação à repercussão ética de seus trabalhos. “Vejo alguns de meus antigos estudantes e me pergunto se estão tentando realmente tornar o mundo melhor ou só fazer dinheiro”, explicava a The Economist.

Os recursos e técnicas utilizados são tão numerosos e estão tão disseminados que quase é possível dizer que passam desapercebidos. Dos vídeos que começam automaticamente poucos segundos após ter terminado o anterior, até os likes de uma foto no Facebook. Do botão de atualização do Twitter ou Instagram (o célebre movimento do polegar, cujo criador, Loren Britcher, também se tornou um dos arrependidos), até o fato de que os sistemas de mensagens como WhatsApp estejam programados por padrão a interromper outras atividades do usuário... Tudo é cuidadosamente pensado para captar nossa atenção.

Tristan Harris é um dos mais conhecidos críticos a estas práticas, e suas aparições públicas, conferências e artigos são muito seguidos. “Imaginem uma sala onde há uma centena de pessoas encurvadas sobre computadores que mostram gráficos. Uma sala de controle. Desta sala é possível controlar os sentimentos, pensamentos e prioridades de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. Não é ficção científica... Eu costumava estar em uma destas salas”, afirma no início de uma de suas palestras no TED este antigo chefe de produto e desenvolvedor ético no Google. Antes, Harris tinha sido aluno de Fogg.

Hoje, dirige o Centro para a Tecnologia Humana, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo sensibilizar a população sobre o mau uso destas técnicas e pressionar as grandes empresas para que moderem sua utilização. Harris centra suas críticas ao fato de que estas empresas dedicam seus esforços para condicionar a conduta dos usuários, para que não possam se desconectar, e que isto tem consequências diretas sobre a saúde, porque se traduz em menos concentração, estresse e tendências depressivas. Em sua opinião, por exemplo, as constantes notificações que reivindicam nossa atenção (algumas úteis, outras não) tornam nosso celular uma máquina caça-níquel de bolso.

Todas estas críticas encontraram nos países anglo-saxões uma crescente repercussão na opinião pública, reforçada pelo fato de que muitos dos engenheiros do Vale do Silício levam seus filhos para escolas onde sua exposição à tecnologia é limitada ou até mesmo nula. O próprio Steve Jobs, grande ícone dos empreendedores tecnológicos, não deixou seus filhos utilizar o iPad.

Neste contexto, surgem os artigos e lançamentos editoriais que defendem a necessidade de se empreender uma desintoxicação. A própria ideia de desintoxicação pode parecer exagerada, ainda que as 150 vezes que, em média, se afirma que consultamos o celular todos os dias (e as duas horas diárias de uso que mostra o contador de atividade do telefone do autor deste artigo), apontam que a expressão não é totalmente descabida.

Um dos maiores êxitos deste mesmo ano é o livro de Cal Newport, Digital Minimalism. Choosing a Focused Life in a Noisy World (Minimalismo digital, escolhendo uma vida focada em um mundo ruidoso). Nele, este professor de computação da Universidade de Georgetown propõe a seus leitores que repensem a relação com as redes sociais e os celulares, com um plano de trinta dias. À margem dos detalhes, o livro de Newport, e muitos outros como o seu, revelam uma crescente preocupação na opinião pública em relação à sensação de perda de liberdade e de maior estresse que as tecnologias estão causando.

O fenômeno não é exclusivo dos Estados Unidos. Na Espanha, também foram publicados livros de notável repercussão, como El enemigo conoce el sistema (O inimigo conhece o sistema), de Marta Peirano (Debate), que incidem na influência destas tecnologias em seus usuários e as implicações econômicas, políticas e sociais.

Quais são as alternativas? Alguns especialistas reivindicam uma regulamentação destas práticas ou inclusive, como Robert McNamee, tratar as redes sociais e os celulares como o álcool e o tabaco. Outros, como Tristan Harris, acreditam que são as empresas que deveriam se autorregular e modificar suas técnicas. Parece que as companhias começaram a pensar mudanças em sintonia com a segunda destas possibilidades. A Apple, por exemplo, já inclui em seu sistema operacional, há algum tempo, um sistema para conhecer exatamente o uso que é dado a seu iPhone e permite limitar o tempo que se destina a cada aplicativo. No Android também é possível usar este tipo de tecnologia, porque o Google afirma que detectou entre seus usuários um interesse em utilizar menos o celular.

O Facebook destacou a necessidade de que seus usuários utilizem melhor seu tempo como motivo para algumas de suas mudanças e o Instagram já oculta, em alguns países, o número de likes das fotografias, em uma nova política que previsivelmente será ampliada e que tem o objetivo de diminuir a pressão pelo reconhecimento social que o famoso coração significa, sobretudo para os jovens. A dúvida, não obstante, é se estas mudanças são cosméticas, para interromper as críticas antes que aumentem, ou respondem a uma reflexão profunda dos grandes conglomerados tecnológicos.

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