O “aceleracionismo”, um novo debate na esquerda

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17 Março 2018

“É certo que nunca existirá um proletariado mundial que reorientará o mundo da técnica à universalidade sem interesses privados. As chaves populares e subalternas foram bloqueadas em seu próprio ‘em si’, em razão de sua própria fragmentação. Só um Populismo de esquerda, de vocação emancipatória, pode tentar, mais uma vez, se tornar responsável pela prometeica tarefa, escreve o psicanalista e escritor Jorge Alemán, em artigo publicado pelo jornal Página/12, 15-03-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Segundo uma série de intelectuais de origem britânica, ao menos em sua grande maioria, o capitalismo em sua etapa algorítmica e hiperconectada financeiramente produziu um colapso antropológico onde os relatos simbólicos da esquerda são anacrônicos. Carecem de uma operatividade real e são o mero testemunho do peso de um legado que já não nos diz nada do futuro. Nesta perspectiva, a esquerda e os diferentes relatos emancipatórios, como os movimentos nacionais e populares, estariam ancorados em um apego melancólico ao passado. De diferentes modos, é o que se deduz de o Manifesto aceleracionista.

Os aceleracionistas otimistas, na tradição de Deleuze e atualizados a partir de Negri, pensam no Capitalismo como um parasita que obstaculiza o desenvolvimento emancipatório que o novo “cognitariado”, neologismo que vincula conhecimento com proletariado, usando as novas tecnologias, pode gerar. Nesta vertente otimista, os algoritmos e as matemáticas não pertencem ao Capitalismo e podem constituir um instrumento idôneo para reorientar o Capitalismo à transição a uma sociedade pós-capitalista.

Esta posição, claramente tem um eco do Marx de O Capital, que também pensava que as relações sociais de produção capitalista constituíam um obstáculo ao desenvolvimento da produtividade moderna. Aqui, mais uma vez, o Capitalismo se apresenta como o portador de uma “potência” que vai além de seu próprio marco. Os trabalhadores conectados aos dispositivos de inteligência digital estariam em condições de ir se separando do modo de acumulação capitalista e organizar um coletivo pós-capitalista.

No entanto, é necessário destacar diferentes aspectos destes fluxos algorítmicos que os aceleracionistas deixam de lado.

1) Estes fluxos são ‘assignificantes’, não encontram um ponto de ancoragem para amarrar a significação e constituem, como afirmou Lacan a respeito do que denominou o Discurso Capitalista, uma verdadeira rejeição ao sujeito inconsciente e pulsional. A financeirização do mundo é ilimitada e sem corte e, portanto, sem lugar para um sujeito que não seja outra coisa que a “subjetividade”, que seus dispositivos de rendimento produzem. Ao mesmo tempo em que o sujeito inconsciente da linguagem é uma relação de conjunção e disjunção entre suas determinações e sua liberdade paradoxal na trama de suas determinações, a subjetividade neoliberal se desenvolve no estilo de vida da performance competitiva e sem limites, onde ela mesma colabora ativamente com sua própria submissão ao programa neoliberal.

É uma subjetividade conectada e relacional, dito de outra maneira, é uma subjetividade que não permite e nem dá lugar ao sujeito em sua condição sexuada, mortal e falante. Mas, neste ponto, é necessário esclarecer duas questões que aparecem em tensão: por um lado, a subjetividade e o sujeito não se apresentam separados em seu modo de comparecer na realidade, há sempre justaposição e mistura, por outro, esta diferença deve ser sustentada até o final. Só a fidelidade ao sujeito torna possível as condições de uma Emancipação comum.

2) Os aceleracionistas não percebem que se o sujeito é expulso do mundo digital-tecnológico, será definitivamente dominado pelo modo de gozar repetitivo que a digitalização dos laços sociais implica. Por que para os aceleracionistas, que querem superar o devaneio melancólico das esquerdas não advertidas da mutação antropológica, é tão importante o novo conhecimento tecnológico em seu potencial anticapitalista, quando eles próprios são os que afirmam que a mutação antropológica hibridou o sujeito com a máquina digital, metamorfoseando o humano na robótica? Que mito renovado do Progresso esta qualidade salvífica confere à robotização? Ou nesta escatologia técnica há, de um modo implícito, um anseio de colapso total, de choque de trens final, de produzir uma catástrofe que traga aparelhada uma nova disponibilidade redentora em seus sobreviventes?

Sem fidelidade ao sujeito envolvido nos laços sociais e projetos políticos, o tecido digital e tecnológico não poderá alcançar o pós-capitalismo de um modo imanente pelo puro devir de uma “potência” de inteligência coletiva.

Quem irá expropriar Amazon ou Google? Ou se trata de abandonar à hibridização com o maquínico até que já não reste nada do humano ou permaneça escondido em alguma floresta estranha, assim como acontece nos filmes de ficção científica que repetem, mais de uma vez, seu argumento: corporações, robôs, zumbis e os emboscados. O aceleracionismo é tão entediante como a repetição ao infinito do mencionado argumento.

3) O aceleracionismo sonha em voltar a separar a Ciência da Técnica, conforme expressa Negri quando afirma que “as matemáticas e os algoritmos” não pertencem ao Capitalismo, mas, por acaso, já não se consumou a subsunção real da Ciência em Técnica e, portanto, a absorção da ciência no mercado? Finalmente, o aceleracionismo, seu manifesto e seus intelectuais de uma humanidade “aumentada” pelas possibilidades das plataformas digitais, acobertam que não querem se tornar responsáveis pelos antagonismos instituintes do social. Em absoluto, o desenvolvimento digital e tecnológico do capital não está separado das grandes elites oligárquicas-financeiras que, há anos, realizam uma ofensiva contra os setores populares e subalternos. Neste aspecto, o aceleracionismo encarna, para além de algumas excelentes descrições do capitalismo contemporâneo, uma cena de sedução do neoliberalismo às esquerdas e aos movimentos populares.

As sucessivas derrotas provocaram nas esquerdas um horror por sua velhice e, por sua vez, uma inquietante fascinação pelas qualidades mutantes do Capitalismo. É o que transluzem alguns intelectuais de esquerda quando supõem uma grande astúcia a políticos neoliberais que simplesmente ocupam o lugar de uma “aplicação neoliberal”. Ou o próprio ensaísta Chul Han, quando com excessiva fruição descreve os diferentes modos de captura de subjetividades por parte do neoliberalismo, até chegar ao crime perfeito do Capital, sem fazer qualquer debate sobre a reinvenção do político.

4) É certo que nunca existirá um proletariado mundial que reorientará o mundo da técnica à universalidade sem interesses privados. As chaves populares e subalternas foram bloqueadas em seu próprio “em si”, em razão de sua própria fragmentação. Só um Populismo de esquerda, de vocação emancipatória, pode tentar, mais uma vez, se tornar responsável pela prometeica tarefa.

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