O coronavírus deve acelerar o capitalismo digital. Entrevista com Daniel Cohen

Foto: Pxhere

21 Abril 2020

Quão profunda é a crise causada pela pandemia da Covid-19, que novas questões ela propõe para os economistas e em que a nossa economia emergirá transformada? Exploramos essas questões com Daniel Cohen, professor da Escola de Economia de Paris e diretor do departamento de economia da École Normale Supérieure.

 

Além de sua longa especialização em dívidas soberanas (ele colaborou especialmente com o Banco Lazard para assessorar o governo grego, pelo que às vezes é criticado), Daniel Cohen vem desenvolvendo há mais de uma década uma crítica da sociedade pós-industrial, como estava em parto na economia digital e que a experiência atual da reclusão em massa deverá, segundo ele, levar ao estágio do “capitalismo digital”, cujos aspectos anti-humanistas ele detecta.

 

A entrevista é de Hervé Nathan, publicada por Alternatives Économiques, 18-04-2020. A tradução é de André Langer.

 

Eis a entrevista.

 

Tem-se a impressão de que depois de subestimar os efeitos da pandemia de Covid-19, os economistas veem a atual recessão como um monstro desconhecido. Enquanto falamos, porque as coisas parecem muito fluidas, o que é fundamentalmente diferente das outras crises da história?

 

Tudo! No começo, achávamos que era um choque vindo da China, comparável àquele provocado pelo surgimento da SARS, modulando o novo peso da China no comércio mundial. É por isso que as estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou da OCDE eram inicialmente muito moderadas. Entramos em algo completamente diferente quando percebemos que as economias estavam sob ataque por dentro e não mais apenas ou principalmente por um choque externo. Isso tudo era completamente novo. Era impossível imaginar, até mesmo quantificar, o impacto da contenção sobre o crescimento.

 

Quais são as referências que nos permitem avaliar o que significa, para sociedades como as nossas, não ter mais o direito de se encontrar cara a cara? E, para mim, essa questão foi ainda mais perturbadora porque, num livro publicado há dois anos, Il faut dire que les temps ont changé (Devo dizer que os tempos mudaram), escrevi que, para entender o mundo contemporâneo, era necessário partir da previsão de Jean Fourastié, para quem nossas economias deixariam o trabalho da terra e da matéria para se ocupar do próprio homem. A sociedade pós-industrial é uma economia de serviços em que o atendimento presencial é algo essencial. Fourastié citava o exemplo atemporal do cabeleireiro. Mas também podemos citar: ensinar, cuidar, divertir, etc.

 

O choque da epidemia de Covid-19 paralisou repentinamente essa economia. Qual é o impacto desse veneno que se infiltrou nas relações face a face? Ninguém conseguia responder a essa pergunta, porque não tínhamos nenhum caso precedente. Agora sabemos. De acordo com o INSEE, a reclusão reduziu o produto interno bruto (PIB) em um terço. A uma taxa anual, isso significa uma queda de cerca de 3%. Se são dois ou três meses, é o dobro ou o triplo, e assim por diante... Esse é o valor apresentado pelas últimas previsões do FMI, que estima em 7,2% a recessão francesa este ano...

 

De acordo com o INSEE, e se também julgarmos pelas estatísticas do Pôle Emploi, um terço das pessoas está incapacitada de trabalhar. Isso está de acordo com um estudo muito interessante do Fed (banco central) de Saint-Louis, nos Estados Unidos, que nos diz que um terço das pessoas consegue trabalhar a distância, 20% são forçados a trabalhar, como médicos ou coletores de lixo, e que o restante, 45% da população ativa nos Estados Unidos, corre alto risco de perder o emprego. É muita gente.

 

Segundo este estudo, essa população em risco também é a mais pobre: ganha em média 75% a menos que os outros grupos... Se metade fosse demitida, isso poderia significar uma taxa de desemprego de 25% a 30% no total. Estes são os números dos anos 30! É o proletariado da sociedade de serviços que é afetado...

 

A reclusão é, além disso, por si só, um fator que agrava as desigualdades. Estamos em casa, mas não estamos todos aí da mesma maneira. As famílias têm disparidades extraordinárias nas condições de vida. Descobriremos quando este período tiver passado que ele provocou consideráveis desigualdades de destinos.

 

Mas basta multiplicar o número de meses de reclusão para entender a extensão e a natureza desta crise. Não deveríamos nos colocar na posição de que poderá durar muito tempo e de que a economia sairá profundamente transformada?

 

Você tem razão. As estimativas da reclusão não dizem nada sobre seus efeitos posteriores. Primeiro, pensou-se que o vírus atingisse as pessoas como uma gripe sazonal. Uma recuperação em V poderia ser antecipada... Paul Krugman disse que o que torna esta crise diferente de todas as outras é que antes, quando estávamos diante de um choque, o objetivo da política econômica era voltar o mais rápido possível à atividade normal, através de várias medidas de apoio.

 

Agora, porém, nos encontramos diante de algo completamente novo: é preciso que o PIB sofra uma queda, porque será a prova de que a contenção produziu seus efeitos. Trata-se realmente de manter a economia em estado de hibernação, de coma artificial e de oferecer a maior garantia possível àqueles que são de facto incapazes de trabalhar. Em termos ideais, o déficit público deve ser do montante da recessão. Estamos em 7% de recessão? De maneira ideal, esse também deve ser o montante dos déficits públicos.

 

No entanto, estamos entrando em uma nova fase na qual compreendemos que a crise não terminará com o fim da reclusão. Que ela própria será lenta, muito gradual, condicional... Que a crise da saúde provavelmente durará enquanto não for encontrado um tratamento ou uma vacina... Isso significa dizer que ainda viveremos na inquietude da doença. Os consumidores não vão querer voltar aos restaurantes ou às salas de espetáculos, nem viajar.

 

Isso significa que a saída da crise será muito difícil. Por toda parte haverá rupturas, setores que irão à falência, nos transportes, no turismo, rupturas que vão exigir um esforço continuado e significativo por parte do Estado. Estamos pensando particularmente nas regiões e países que dependem do turismo, para os quais o verão corre o risco de ser um massacre. Talvez haja vestígios disso a longo prazo?...

 

A saída da reclusão deve obviamente respeitar a saúde pública e respeitar também as pessoas, as liberdades públicas; falaremos sobre isso novamente. Para o economista, o mais importante é entender bem que o retorno à normalidade será muito lento e que o esforço orçamentário do Estado terá que ser mantido por muito tempo. Antes de falar de um plano de retomada da economia, é preciso estar muito atento ao número muito grande de falências empresariais que virão. Muitas garantias do Estado serão exigidas. As dívidas correspondentes terão que ser anuladas. Será necessário assumir déficits acumulados e não repetir o erro de 2011 de querer reduzir muito rapidamente a dívida, nem querer retornar rapidamente ao equilíbrio orçamentário.

 

Também estaremos mudando de capitalismo?

 

O que, sem dúvida, deixará uma marca profunda é a demonstração do poder do capitalismo digital durante esta crise. Um número muito grande de setores, a começar pela medicina, entrou mais rápido do que o esperado no século XXI digital. No nível da sociedade, esta crise acelerará a transformação do mundo. Quer se analise o capitalismo pela entrada marxista ou neoclássica, o objetivo do capitalismo é sempre o de reduzir custos. A globalização permitiu que isso acontecesse fazendo as pessoas trabalharem a custos baixos.

 

A crise da saúde, por sua vez, tornou possível medir que fomos longe demais na desintegração das cadeias de valor e que estamos caminhando para as relocalizações. Mas como o peso da indústria é de apenas 12% do PIB, o movimento será modesto. O que vai se acelerar é a economia dos Gafa, Amazon, Netflix, Google, etc. Tudo é feito para você gerenciar on-line, sem precisar ir a uma loja, a um cinema. É possível que, em alguns anos, o coronavírus seja interpretado como o ponto decisivo na implantação desse capitalismo digital.

 

Um novo capitalismo você diz. Mas em 2015, você escreveu que “a revolução digital não cumpre suas promessas”, principalmente porque não provocaria movimentos na estagnação da produtividade. Como esse capitalismo digital pode sair vitorioso da crise?

 

Não há contradição. De fato, esse diagnóstico, que ainda é válido, permite que compreendamos a nova fase em que entramos. Em 2015, eu observei, baseado nas análises especialmente de Robert Gordon, que a revolução da internet não havia produzido ganhos espetaculares de produtividade, e isso foi chamado de paradoxo de Solow. Depois dos trabalhos de Philippe Askenazy em particular, foi possível ver que a revolução da internet era, acima de tudo, uma maneira de aumentar a pressão competitiva que pesa sobre os trabalhadores.

 

O núcleo central da revolução da internet foi reorganizar as empresas, abandonar a hierarquia piramidal da antiga sociedade industrial e avançar para uma sociedade em rede, onde o mercado desempenha um papel muito mais importante. Sob o impulso da revolução financeira da década de 1980, as empresas substituíram a relação hierárquica interna da sociedade industrial por uma nova relação dador de ordens/terceirizados.

 

Os dados americanos mostram que a maior parte da desigualdade neste país se deve não às desigualdades de renda dentro das empresas, mas às desigualdades de renda entre as empresas. Assim, para dar um exemplo simples, quando o serviço de manutenção de uma grande empresa é terceirizado, como está agora em toda parte, o pessoal da manutenção não se beneficia mais do sucesso da empresa, quando isso acontece. A internet é o vetor de uma transformação “smithiana” do mundo, fundada sobre uma nova divisão do trabalho; e seus efeitos rapidamente se esgotam.

 

Se voltarmos às análises de Jean Fourastié, também podemos entender por que uma economia de serviços gera poucos ganhos de produtividade: porque o valor do bem é o tempo que o provedor de serviços passa com o seu cliente. A menos que você se esforce sempre mais para ganhar mais, há um limite para o crescimento de uma sociedade deste tipo. Por isso, Fourastié também anunciava que, se a economia de serviços era a grande esperança do século XX, de uma economia finalmente humanizada, onde uns se ocupariam dos outros, era necessário acrescentar uma conditio: não haverá crescimento.

 

No espaço de dez anos – o iPhone é de apenas 2007 –, vimos o início desse capitalismo new look, que é uma resposta à síndrome de Fourastié. É também chamado de “the cost desease”, na linguagem de William Baumol retomada pelos economistas anglo-saxões. Segundo ele, o obstáculo ao crescimento da sociedade de serviços é a necessidade de estar em face do cliente. Como a revolução digital está fazendo isso? Transformando o cliente em um conjunto de dados que podem ser gerenciados remotamente, talvez por algoritmos amanhã...

 

Essa promessa de uma desmaterialização generalizada está em seus inícios. É a resposta iminente para esta doença dos custos e, também, o coveiro da grande promessa humanista de Fourastié. Isso deve nos levar a refletir, como na década de 1960, sobre o preço humano do crescimento. Na sociedade industrial, o trabalho em cadeia era o oposto da sociedade da abundância, o trabalho on-line está tomando o seu lugar.

 

Esse capitalismo digital aparece ao mesmo tempo como hiperconcentrado, até monopolista, com empresas dominantes que contam com gigantescas capitalizações nos mercados de ações. Essa não é uma maneira de capturar a produtividade, pequena e dispersa, para concentrá-la em um único lugar?

 

Evidentemente, este é um sistema em que “the winner takes most” (“o vencedor leva mais”), para retomar uma fórmula de David Autor, do MIT e de seus coautores. Vemos em todos os lugares que os top five percent captam a renda. Não é apenas o Facebook nas comunicações, o Google nas redes, mas também o Airbnb ou o Booking na hotelaria, o Uber nos táxis... Cada vez, vemos a mesma mecânica de concentração.

 

Já conhecíamos esse fenômeno de concentração no início do século XX, os Rockefellers e outros Carnegies... Mas agora essa tendência é reforçada pelo fato de que quem gerencia o maior número de dados aumenta a diferença em relação aos outros, o que reforça a concentração dos lucros...

 

Mas o capitalismo digital não representa um desafio para os Estados, quando, durante a crise da epidemia da Covid-19, falamos mais do que nunca do retorno do Estado?

 

A questão da relação com o Estado é muito complexa. O capitalismo digital abre uma nova guerra de modelos, desta vez entre a China e os Estados Unidos, como tivemos a guerra de modelos entre a URSS e os Estados Unidos no século XX. Vemos que a China está muito confortável neste capitalismo digital emergente. O Estado joga com suas possibilidades de controle para assegurar a manutenção da ordem... A classificação social introduzida este ano é um dos elementos dessa sociedade do controle, com a atribuição de uma nota que subtrai ou acrescenta possibilidades a indivíduos com base no cumprimento de normas sociais estabelecidas, agora incluindo normas sanitárias, o que nos faz pensar em um filme de ficção científica.

 

O fim da reclusão nos levará a retomar o que os países asiáticos praticaram desde o início, a saber, o testing e o tracking digital. Espero que isso não nos leve a pôr mais um pé naquilo que a socióloga Shoshana Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”. No Ocidente, não é o Estado, mas os Gafa que nos monitoram, dando um conhecimento ilimitado de nossas vidas às empresas privadas... Elas certamente não procuram nos silenciar, mas nos fazer falar o máximo que pudermos para adquirir o máximo de informação possível.

 

Justamente, a experiência da reclusão mostra que a pandemia está fazendo com que a opinião pública aceite amplamente medidas que limitem o exercício das liberdades fundamentais. Não se deve temer que isso leve a um recuo nas liberdades e nas proteções pessoais, associadas e reforçadas pelo uso de tecnologias digitais?

 

Eu vejo na reclusão generalizada um mal necessário, mas reversível. Estamos em casa, o Estado não coleta informações sobre você e a liberdade de expressão não é prejudicada... Esta fase 1 é um mal arcaico, que já era praticado na Idade Média em tempos de epidemia. A fase 2 me preocupa mais. Se a contenção fosse condicionada a informações que identificassem não apenas o estado de saúde dos indivíduos, mas também o das pessoas que elas encontraram, o risco de uma sociedade da vigilância aumentaria.

 

Cabe a nós inventar um caminho a meio termo entre o modelo confucionista e o dos Gafa. Por exemplo, dando ao corpo médico, aos hospitais, o controle exclusivo do instrumento, permitindo que qualquer pessoa que descubra sua situação de saúde fale com seu médico de referência, no segredo absoluto da relação profissional da saúde-paciente...

 

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