O futuro do Google é também seu passado: colonialismo digital e capitalismo de vigilância

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10 Dezembro 2019

"O Google ainda não sabe mais sobre nós do que nós mesmos, mas tenta. Afina seus algoritmos e sua lógica colonialista de extração de dados para se converter, mais que em um Big Brother, em um celeiro digital gigante muito lucrativo", escreve Ricardo Dudda, em artigo publicado por Letras Libres, 09-12-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 3 de dezembro, os dois fundadores do GoogleSergey Brin e Larry Page, abandonaram a empresa que criaram em 1998. Desde 2015, eram presidente e CEO, respectivamente, da Alphabet, a matriz do Google. Embora permanecerão no conselho e manterão 51% das ações especiais com capacidade de veto, sua retirada tem um grande simbolismo. Soma-se a de Eric Schmidt, em 2017, que foi CEO do Google de 2001 a 2011 e depois ocupou cargos executivos na Alphabet.

Brin, Page e Schmidt transformaram um simples mecanismo de busca na internet em uma das maiores empresas de publicidade do planeta e um gigante do capitalismo de vigilância, avaliado em mais de 100 bilhões de dólares. Conseguiram estabelecer um modelo de negócios que não parecia claro inicialmente. O Google seria uma empresa de publicidade. Quase 90% da renda da Alphabet vem da publicidade. Apenas Google e Facebook detêm 60% da publicidade on-line global.

Page e Brin estavam há anos afastados do negócio principal do Google. Sob a estrutura da Alphabet, que foi criada em 2015 para diferenciar os projetos da empresa, os dois fundadores se concentraram nos moonshots e em projetos visionários (Google Glass, que foi um fracasso, carros sem motorista e globos de hélio que levam a internet a regiões onde não há). Era uma espécie de aposentadoria antecipada. Os fundadores se concentrariam em seus “brinquedos” e o Google, enquanto isso, se dedicaria a ganhar dinheiro de verdade com publicidade e o acúmulo massivo de dados de comportamento de usuários para vender a terceiros.

Mas os projetos do Google, para além do capitalismo de vigilância, representam uma porcentagem mínima de sua renda, às vezes estão conectados, mesmo que não pareça. Os brinquedinhos de Page e Brin costumam ser desculpas para a captura de dados. Ou, ao menos, o lucro se extrai exclusivamente através desse sistema (se o Google tivesse que sobreviver oferecendo seus “produtos”, como Chrome, Gmail, Android e Google Cloud, nem seria remotamente a quarta empresa mais valiosa do mundo). O Google quer levar a Internet com balões de hélio para regiões remotas porque pode aumentar seus bancos de dados. Quando lançou o Google Street View, seus carros monitoravam e registravam espaços públicos, mas também capturavam informações privadas de usuários de maneira ilegal.

No final de novembro de 2019, o Google adquiriu por 2,1 bilhões de dólares a empresa FitBit, que desenvolve pulseiras biométricas que monitoram a atividade corporal: calculam seu peso, seu sono, sua frequência cardíaca, seu número de passos e inclusive seu ciclo menstrual. A empresa tem 27 milhões de usuários e agora quer testar com clientes menores de idade: FitBit Ace monitorará os passos, atividades e sono das crianças e premiará aqueles que se exercitarem mais. Existem empresas que usam o FitBit para monitorar a saúde e a produtividade de seus trabalhadores (mesmo fora do ambiente de trabalho).

O Google também assinou acordos com o Sistema Nacional de Saúde Britânico (NHS) e com o Sistema de Saúde de Cingapura para gerenciar dados médicos. Por que está interessado nisso? Porque a única lógica da empresa é aumentar seus enormes bancos de dados, cuja venda é muito lucrativa (o outro grande comprador interessado na FitBit era o Facebook). Se no início era vendido como uma plataforma que aspirava “indexar” todas as informações do mundo, o Google agora se dedica exclusivamente a “indexar” todas as informações possíveis de seus usuários.

Como explica um relatório da Anistia Internacional, publicado em novembro Surveillance giants: How the business model of Google and Facebook threatens human rights), “as informações que possuem em seus cofres de dados - e o conhecimento computacional que extraem desses dados – é geralmente muito interessante para um grande número de atores, de empresas de seguros à polícia e agências estaduais”.

O Google queria converter a publicidade em ciência (com uma combinação de inteligência artificial e behaviorismo). Eric Schmidt argumentou que “nosso negócio é muito fácil de medir. Sabemos que, se você gastar X dólares em anúncios, receberá Y dólares em lucros”. Mas sua estratégia de captura e acumulação de dados não é muito sofisticada: é uma varredura massiva na web e, graças à internet das coisas e à ideia de smart cities, também é uma varredura no mundo analógico.

O Google coleta dados com seu navegador Chrome e os sistemas operacionais Android, e também nos sites que usam o Google Analytics e o Ad Sense (que estão espalhados por toda a internet). O Facebook faz algo semelhante e coleta dados de usuários que visitam sites com o “like” do Facebook e o botão “compartilhar”, mas também graças a um código oculto chamado Facebook Pixel. Segundo a própria empresa, “o botão like está em 8,4 milhões de sites, o de compartilhar em 913.000 e existe 2,2 Facebook Pixels instalados em sites”. Isso significa que, em muitas ocasiões, o Google e o Facebook nem sequer dão a oportunidade para os usuários de seus serviços de aceitarem ou não o monitoramento de seu comportamento. Não precisa ter uma conta do Google e do Facebook para fazer parte da sua varredura digital.

Está na lógica inicial das grandes plataformas aspirar ao monopólio. O Google precisa de mais e mais dados para “escalar”. Quanto mais cresce, não apenas aprimora seus algoritmos (que aprendem mais), mas cria um “efeito de rede”: quanto mais pessoas usam meu serviço, mais cedo se torna algo essencial. A ideia é converter uma estrutura em uma infraestrutura. E a tendência é a concentração. “O impulso de expandir os cofres de dados”, explica o relatório da Anistia Internacional, incentiva as empresas a mesclar e agregar seus dados nas várias plataformas, aumentando assim o poder e o domínio da plataforma.

Em 2012, o Google introduziu uma mudança radical em sua política de privacidade que permitiu à empresa combinar dados entre seus serviços, o que resultou na condenação de especialistas em privacidade e reguladores. Da mesma forma, quando o Facebook comprou o WhatsApp, em 2014, prometeu manter os serviços separados, no entanto, em 2016, introduziu uma mudança controversa em sua política de privacidade que permitiria o compartilhamento de dados entre ambos, inclusive para publicidade.

É por isso que agora, quando você abre o WhatsApp, aparece abaixo do logotipo a mensagem “From Facebook”. O mesmo acontece com o Instagram, que também incluirá uma mensagem semelhante. O que o Google e o Facebook buscam é centralizar mais suas operações para aumentar seus celeiros digitais. O objetivo final de Zuckerberg é transformar o Facebook em WeChat, a massiva rede social chinesa que combina desde bate-papos até pagamentos on-line e um serviço ao estilo Instagram.

Nossos dados não são algo realmente abstrato. Não são exclusivamente nossos cliques e nosso histórico de navegação. O Google constrói nossas identidades sem nossa permissão. O uso de algoritmos em trabalhos policiais ou judiciais ou no mundo dos seguros serve para “perfilar” e embalar indivíduos. Como afirmam os autores do relatório, a privacidade protege contra “os esforços de atores comerciais e estatais de representar indivíduos e comunidades como algo fixo, transparente e previsível”. Mas a própria natureza de targeting, usando dados para inferir características detalhadas das pessoas, implica que o Google e o Facebook estão definindo nossa identidade para o mundo exterior, geralmente em inúmeros contextos com implicações nos direitos humanos.

Estamos diante do “fim do livre-arbítrio”, como apontou Yuval Noah Harari? Ainda não. O Google ainda não sabe mais sobre nós do que nós mesmos, mas tenta. Afina seus algoritmos e sua lógica colonialista de extração de dados para se converter, mais que em um Big Brother, em um celeiro digital gigante muito lucrativo. Embora as métricas nas quais se baseia o negócio de publicidade on-line não sejam confiáveis (como aponta uma série de reportagens no The Correspondent) e que, segundo um estudo da Adobe, 28% do tráfego de internet é “não humano”, o investimento global em publicidade é enorme: mais de 273 bilhões de dólares em 2018. A maior parte desse investimento foi feito no Google (116 bilhões) e no Facebook (54,5 bilhões). Na nova bolha de publicidade da internet, o Google e o Facebook acumulam e acumulam com a esperança de que a festa não acabe logo.

Nota da IHU On-Line:

Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida.

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