A obesidade digital ameaça nosso bem-estar: mudemos a dieta

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19 Outubro 2019

“A obesidade digital ameaça o bem-estar individual e coletivo. Após o cansaço, chegou o momento de assumir a necessidade de uma nova dieta tecnológica”, escreve Víctor Sampedro Blanco, da Universidade Rey Juan Carlos, pesquisador da esfera pública à luz da teoria da democracia e a análise das mobilizações sociais e transformações tecnológicas, em artigo publicado por Virtual Educa, 14-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Move fast and break things, o lema do quartel general do Facebook se materializou em um ecossistema digital que acelera os ritmos, fragmenta e polariza o espaço público. Há anos, sucedem-se escândalos, aumenta a crítica interna e externa às grandes empresas tecnológicas. A desintermediação digital, que democratizaria a agência comunicativa, nunca teve lugar.

Um ecossistema comunicativo híbrido explora as sinergias entre as novas mídias digitais e tradicionais, especialmente a televisão. Mas, prevalecem as redes centralizadas, os protocolos e os algoritmos de código fechado. A esfera pública digital mostra o domínio de grandes corporações e dos estados com mais poder, consequentemente, gera desigualdade acumulativa. Uma desigualdade que aumenta quanto mais atividade digital desempenhamos.

O estado atual de hiperconexão e saturação recomenda uma aproximação dietética: desconectar-nos, reprogramar-nos e redefinir-nos, isto é, para retomar a conexão digital com arquiteturas comunicativas descentralizadas e modelos de negócios mais responsáveis socialmente. Seria o caso de mudar a dieta digital para alterar a maneira de produzi-la, porque a atual concentra em muito poucos atores a capacidade de intervir na esfera pública.

As “propriedades políticas” da tecnologia digital - as relações desiguais de poder que estabelece - são a consequência de a ter canalizado para a indústria do big data e o marketing. Isso também ocorreu em um contexto de “desinstitucionalização e descontrole tecnológico”. Os monopólios de fato das grandes corporações oferecem uma falsa interatividade. As plataformas privadas monetizam e monopolizam as receitas do capitalismo cognitivo. Convertido em modelo hegemônico, os desequilíbrios geopolíticos aumentam.

Já disse Orwell

Instalou-se um estado permanente de guerra comercial, tecnológica e cibernética entre os Estados Unidos, China e Rússia. Coincidem, respectivamente, com as três superpotências que Orwell profetizou em 1984: Oceania, Lestásia e Eurásia. A inteligência coletiva das populações serve ao Estado e, melhor dizendo, às megaempresas. Snowden evidenciou a convergência entre espionagem e monitoramento corporativo nas democracias. A Internet chinesa - e depois a russa - materializam os riscos de um conluio entre Estados autoritários e o mercado.

Perdemos autonomia e soberania tecnológicas, após ter cedido nossos canais de comunicação ao capitalismo de vigilância: a cadeia de interfaces gera big data, que é guardado em nuvens corporativas. Convertido em previsões, é vendido nos mercados de comportamentos futuros. Se estes pudessem ser antecipados e moldados pelos interesses alheios, seria um risco ao livre arbítrio, o fundamento da liberdade.

O setor de serviços digitais implementou o pós-fordismo, reforçando o modelo de produção da McDonalização: fazer o cliente trabalhar para reduzir os custos e baratear os preços. Parece um intercâmbio justo, mas os usuários trabalham em linhas de montagem invisíveis. Produzem perfis digitais de forma inconsciente e sem remuneração. Seguem os princípios McDonalizadores: eficiência, cálculo, controle e previsibilidade.

Algoritmos lixo

Os "algoritmos lixo" exploram com eficiência os vieses cognitivos mais negativos para maximizar a mineração de dados. Em tempo real, calculam o valor e controlam o ritmo das atividades e fluxos de conteúdo digital. Viralizam os mais polarizados, para estimular o engajamento e transformá-lo em uma atividade digital compulsiva que gera mais dados. O objetivo final reside em antecipar, tornar previsíveis, as futuras decisões de consumo ou ideológicas.

As câmaras de eco das mal intituladas comunidades digitais - consideradas data farms pela indústria - reduzem a dissonância e a ansiedade. Dois sentimentos que resultam inevitáveis no universo incomensurável da internet. E, como na indústria de alimentos processados, a quantidade - de conexões e interações – se antepõe à qualidade – de conteúdos e debate público. A analogia dietética mostra, assim, sua relevância.

Sal, açúcar e gorduras - predominantes em alimentos processados - são a transcrição alimentar de fake news e a infotoxização digital: calorias falsas, viciantes e com pouca contribuição nutricional para o corpo social. As interfaces aplicam tecnologias viciantes que remetem ao fast food. Sequestram a atenção e promovem um compromisso com pouca vontade. Minamos dados em jornadas contínuas, sem feriados, nem remuneração. Não controlamos o ritmo, nem os frutos desse trabalho invisível, que coloniza nosso tempo de lazer. Ignoramos o valor dos dados e os riscos associados à perda de anonimato, privacidade e intimidade.

É difícil, nessas condições, atuar como empreendedores de nossas marcas on-line. Pelo contrário, nossa bulímica atividade leva à obesidade digital generalizada. Acostumados a um alto nível de consumo, minamos dados nas galerias da deep path’ a interface oculta, projetada para gerar descargas de dopamina. A gestão algorítmica de nossos hormônios ameaça oferecer monodietas digitais, personalizadas pelo microtargeting publicitário.

A indústria do big data responde a um modelo extrativista dos recursos cognitivos na sociedade do conhecimento. Monopoliza a economia da atenção e polui o ecossistema informativo. Interfere e monopoliza as conexões digitais e inunda a esfera pública de conteúdos autopromocionais e persuasivos. Além disso, disfarça-os com informação veraz ou genuína conversa interpessoal. Em última instância, a ação comunicativa habermasiana se torna marketing.

O considerado prossumidor foi integrado em todas as fases da produção. Realiza estudos de mercado que, pela primeira vez, ele mesmo custeia. Contribui com os dispositivos, os aplicativos e os custos de conexão. Não declara suas intenções futuras. As buscas, escolhas e reações são gravadas automaticamente e em tempo real. Colabora, dessa maneira, para desenhar e difundir novos produtos e serviços. Elabora e protagoniza publicidade microssegmentada. Por fim, sua dieta digital antecipa a oferta que consumirá e suas decisões off-line.

O individual e o público

A dietética digital sugere a conveniência em adotar táticas individuais, apoiadas em estratégias coletivas e políticas públicas. A pedagogia tecnológica deve incentivar usos e consumo digitais mais saudáveis. O que acontecerá na medida em que projetam a privacidade e o controle dos dados, blindando o espaço e o tempo da interação off-line. Porque se trata de fortalecer as redes presenciais, colocando as digitais a seu serviço para estender as energias para além dos teclados.

Essa mudança de práticas precisa ser acompanhada de infraestruturas comunitárias e medidas (inter)estatais que consideram o big data um bem comum e público, e, assim, complementar a iniciativa privada. Uma cidadania digital, consciente e crítica, não se reduz ao status de consumidora e espectadora. Materializa-se em uma sociedade civil organizada em grupos locais e redes globais de produção e reprogramação, que deveriam desenvolver código e equipamentos de código livre e aberto.

Em outras palavras, aplicariam a economia da proximidade, os ritmos e o senso coletivo das dietas próprias do movimento slow food’. E transferido para o âmbito pedagógico, os jardins escolares seriam acompanhados de hacklabs. Isso já ocorre em algumas experiências inovadoras e deveria ser generalizado.

No terreno das políticas públicas surgem numerosas iniciativas. Surgem as plataformas ligadas às radiotelevisões públicas. Com uma arquitetura aberta e descentralizada permitem que os cidadãos criem suas próprias plataformas e usem big data para objetivos específicos. Além disso, cuidam da saúde pública digital: verificam e desmentem o conteúdo digital mais tóxico.

Essas redes públicas já são uma realidade em um país como a Nova Zelândia e estão incluídas nos programas eleitorais mais progressistas. Seriam financiadas com um regime fiscal e sancionador das corporações tecnológicas, o que é urgente adotar. A obesidade digital ameaça o bem-estar individual e coletivo. Após o cansaço, chegou o momento de assumir a necessidade de uma nova dieta tecnológica e o compromisso de gerá-la nos três níveis destacados.

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